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domingo, 5 dezembro 2021

Psicofobia. É uma doença ou um crime?

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Perdendo a capacidade de distinguir o real do imaginário, o indivíduo vive em função de seu mundo interior, apegando-se às alucinações

Por Clovis Rosa Nery

Em conformidade com a psicanálise, os transtornos mentais são de natureza neurótica, psicótica ou pervertida. Na pós-modernidade, parece que a perversão de outrora vem recebendo uma conotação recodificada.

A fobia é uma neurose. No neurótico há excesso de ambiente, e no psicótico, há falta. No primeiro caso, o paciente vive ligado a tudo; no segundo, ocorre o inverso. Ele desliga-se da realidade.

Todos nós temos nossa quota de resistência para suportar as adversidades. Porém, extrapolando-a surge o quadro patológico. No caso da neurose, geralmente a sua manifestação decorre do excesso de imposições, quando a pessoa, num comportamento confluente, habitua-se a recalcar-se e introjetar algo sem assimilar. Em outras palavras, frustra-se um desejo aqui, outro ali, e o organismo suporta, mas quando o limite do razoável é rompido, ele reage, via neurose.

Quanto à psicose, não há recalque, nem censura alguma. Perdendo a capacidade de distinguir o real do imaginário, o indivíduo vive em função de seu mundo interior, apegando-se às alucinações.

Tanto num quadro neurótico, quanto psicótico, se investigarmos as causas, constataremos uma policausalidade, com interações de fatores bio/psico/social/espiritual. Freud dizia que, em algum nível, todos nós temos tendência neurótica ou psicótica. Ele chegou a brincar com Jung, certa vez, ao dizer-lhe que ele tinha uma inclinação neurótica, e seu discípulo, psicótica. A verdade é que, ante a superioridade cósmica e a limitação humana, somos vulneráveis, uns menos, outros mais.

Buscando nos registros históricos, contatamos que a humanidade, às vezes, lança mão de certos meios, ainda que questionáveis eticamente, para aliviar seus estados de tensão. Muitas guerras ocorridas são exemplos disso. Individualmente, fazemos o mesmo, embora num grau mais “saudável”, quando nos envolvemos em trabalhos intelectuais ou compulsivos. Porém, alguns seguem o mundo dos vícios, drogas e crimes. Por isso, dizia Guimarães Rosa: “Viver é perigoso”.

Nesse ariscado ato de viver, a que todos nós somos submetidos, surgem várias psicopatologias, dentre elas o medo. Quando dentro dos limites indispensáveis à preservação da vida é uma “neurose” suportável. Contudo, diante das vicissitudes hodiernas os extremos têm atingido proporções dantescas, levando a pessoa a desconectar-se da realidade, e “afogar-se” num imaginário obsessivo. Nesse nível, estamos diante de um quadro de fobia que é uma doença psíquica. Daí surgiu a palavra psicofobia.

Entretanto, nos últimos tempos, tem-se atribuído o termo psicofobia ao comportamento de estigma que alguns dispensam às pessoas com transtorno mental, contribuindo para agravar seu sofrimento.

Essa proposta neologística que recebeu boa aceitação no mundo acadêmico surgiu na Associação Brasileira de Psiquiatria para distinguir esse tipo de violência psíquica das demais. Vem conquistando espaço e atenção no universo midiático.

É indiscutível que o comportamento aqui batizado de psicofobia é preconceituoso, repugnante, fruto de personalidade mesquinha, insensível, abusiva e inclinada ao retrocesso, porque era isso que se fazia na idade média, por ignorância, rotulando o doente mental de endemoniado.

Portanto, a psicofobia, no primeiro caso mencionado é uma doença (CID 10-F.40). No segundo, é um crime, sujeitando os protagonistas às penalidades previstas na legislação.

Clovis Rosa Nery. Psicólogo e escritor

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