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quinta-feira, 30 maio 2024

Protestantes tiveram papel fundamental na abolição da escravatura

William Wilberforce fez da abolição de escravos sua maior luta. (Foto: Reprodução / Adam Smith).
William Wilberforce fez da abolição de escravos sua maior luta. (Foto: Reprodução / Adam Smith).

Campanha que surgiu na Inglaterra teve origens em princípios cristãos e foi influenciada por líderes religiosos

O Brasil celebra, neste 13 de maio, 191 anos da abolição da escravatura, que foi oficializada no ano de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, resultando na libertação de mais de 700 mil escravos. Com isso, o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, praticada aqui por quase 400 anos, desde o período colonial até o fim do Império.

Se em terras brasileiras a abolição foi provocada por um processo de luta popular, que teve adesão de boa parte da sociedade brasileira, além da resistência dos escravos, em outros países essa foi uma briga comprada por figuras políticas e ligadas ao protestantismo. Afinal, foram razões morais e religiosas, apoiadas pela opinião pública, que levaram a Inglaterra e realizar uma campanha internacional de condenação ao tráfico e à escravidão durante a primeira metade do Século 19.

Segundo um artigo de 2018 da Revista de História Comparada do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “foram necessários 20 anos de intensa pressão da opinião pública e de debates parlamentares, tendo William Wilbeforce como principal apologista e orador, para que o tráfico de escravos fosse abolido e se tornasse ilegal em todos os territórios da monarquia inglesa em 1807, e outros 26 anos para que fosse abolida a escravidão”.

Sociedade protestante

Wilberforce foi um dos criadores da Sociedade para a Abolição do Comércio de Escravos, fundada em Londres em 1787, junto com Quakers, Granville Sharp e Thomas Clarkson. Os membros dessa sociedade eram ligados a instituições religiosas protestantes, entre elas a igreja anglicana e os Quakers. Eles promoviam boicotes a produtos feitos por escravos e distribuíam panfletos de porta em porta, coletando abaixo-assinados contra a escravidão.

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A batalha de Wilberfoce consumiu quase 46 anos da vida dele, de 1787 a 1833, e foi marcada por derrotas e retrocessos – a causa da proibição do tráfico de escravos, por exemplo, foi derrotada 11 vezes, antes de ser aprovada, em 1807. Já a vitória decisiva, com a abolição da escravidão, só ocorreu em 26 de julho de 1833, três dias antes de ele morrer.

Conforme escreveu o pastor John Piper, em artigo publicado pelo Ministério Fiel, em 2019, foi a “alegria obstinada” de Wilberforce que derrubou a escravidão. Como relata Piper, em maio de 1789, o parlamentar falou à Câmara dos Comuns sobre sua decisão: “Confesso a vocês, tão enorme, tão terrível, tão irremediável é a maldade desse comércio que minha mente ficou inteiramente tomada em favor da abolição… Sem importar as consequências, a partir desse momento estou determinado a não descansar até efetivar essa abolição”.

Atuação decisiva

O pastor batista Kenner Terra lembra que Wilberforce contou com o apoio de outro protestante que teve atuação decisiva na luta contra a escravidão: John Wesley. “Séculos antes, por exemplo, da produção do artigo 5 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Wesley já falava que a escravidão era uma aberração contra Deus. Ele mandou uma carta para o Wilberforce e disse a ele para permanecer firme, lutando no âmbito político contra o sistema. E ele chegou a afirmar que a escravidão é um ato maligno contra Deus”, relata.

Kenner salienta, porém, que, nos Estados Unidos, a relação do protestantismo com o sistema escravocrata foi complexa e, de certa forma, até paradoxal. Isso porque, por um lado, protestantes americanos – especialmente os batistas do Sul – foram promotores e legitimadores da escravidão; mas, por outro, houve diversos movimentos que enfrentaram e denunciaram com muita veemência o sistema escravocrata.

Isso ajudou, inclusive, a discussão a ganhar mais peso. “Houve projetos missionários que foram para regiões em que a escravidão era um sistema legítimo, e a forma de evangelização era comprar esses escravos e libertá-los”, conta o pastor.

Feridas e consequências

Séculos depois de John Wesley, surgiram outros líderes, como o pastor Martin Luther King Jr., já em um tempo em que não havia mais escravidão nos Estados Unidos, nem no mundo, mas os resultados dela, como o preconceito e o racismo, ainda eram muito fortes. “Tanto no Brasil quanto nos outros países, tem as cargas, as feridas e as consequências sociais da escravidão. E aí tem gente como o Luther King que vai lutar e denunciar, pregar, organizar movimentos, buscando a relação igualitária de direitos e valores entre os negros e brancos”, explica Kenner.

De acordo com o pastor, o protestantismo tem uma importância significativa e histórica para o tema da escravidão. “E nessa relevância nós encontramos figuras e personagens que foram fundamentais, também, para a abolição e para a destruição desse funcionamento social que nós chamamos de escravidão”, destaca.

No Brasil, no entanto, essa influência não foi tão forte. Segundo o pastor Kenner, isso se deveu ao fato de que o protestantismo chegou ao país num período em que o sistema escravocrata estava vigente, mas a força protestante era muito pequena. “Então, nós temos poucos personagens protestantes que, de alguma maneira, se envolveram com a questão da escravidão no Brasil”, observa.

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