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sexta-feira, 17 setembro 2021

Super leitores! Aprender a ler não tem idade

Uma idosa de 63 anos aprendeu a ler acompanhando as aulas virtuais do neto em Santa Catarina. O sonho de Marlene Hinckel se tornou realidade graças ao projeto Super leitores, da Igreja Adventista

Priscilla Cerqueira 

Educação que transforma! A moradora de Florianópolis (SC), Marlene Hinckel, 63 anos,  descobriu um novo mundo: o da alfabetização – e de forma atípica: acompanhando as aulas virtuais do neto, Eduardo Hinckel, 6 anos, que hoje está no segundo ano do ensino fundamental e que participava do projeto Super Leitores, da Igreja Adventista.

O menino fazia o 1º ano do ensino fundamental na unidade Estreito do Colégio Adventista de Florianópolis. A avó ficava com um olho nele e outro nas aulas online na tela do notebook. As lições começaram a fazer sentido para os dois, ao mesmo tempo.

“Pensei comigo: o Eduardo, com sete aninhos, está aprendendo. Eu vou aprender também. Hoje, estou conseguindo entender as coisas”.

No Colégio onde o neto estudava tinha um projeto pedagógico chamado Super leitores, desenvolvido pela Igreja Adventista. Nele, a as crianças liam textos que a professora escolhia. E era uma das atividades preferidas da dupla. “Ele está lendo cada dia melhor e logo aprendeu a ler e escrever. Eu ainda estou tentando. As primeiras palavras foram dado, dia, lua, dedo e casa”, recorda.

De acordo com os educadores, a participação dela nas atividades online era informal, como uma espécie de aluna ouvinte. Depois, começou a perguntar. Logo estava fazendo as atividades do neto. Hoje, ela tem seu próprio caderno e seu material de estudo.

Tentativa de estudar

A avó não começou do zero. Antes da pandemia, Marlene frequentava as aulas do Ensino de Jovens e Adultos (EJA) numa escola, em Ribeirão da Ilha. As aulas foram interrompidas. “O EJA foi fundamental para tudo isso. O apoio veio da escola, das professoras, por isso que ela não quis desistir e está indo em frente”, disse Karina, filha de Marlene e mãe de Eduardo.

Segundo Karina a parceria deu tão certo que é um ajudando o outro. “Passo atividade no caderno para ela fazer, principalmente para diferenciar as sílabas simples das complexas. Aí está a dificuldade maior. Como explicar ‘ba’, ‘bra’ e ‘bla’ para quem aprendeu a falar essas sílabas do mesmo jeito desde a infância?”

Para ela, todas têm o mesmo som. A própria aluna admite que o processo é lento, cheio de idas e vindas. “É muito difícil. Dá insegurança. Às vezes parece que esqueço tudo o que aprendi, mas quero muito aprender e um dia pegar um livro e ler sem precisar de alguém para me corrigir”, planeja.

Dificuldade

Em um mundo dominado pela comunicação é fácil imaginar como a sexagenária está descobrindo novas realidades. E até um novo jeito de viver. Por muitos anos, ela conta que “passou vergonha” perguntando endereços na rua mesmo estando diante do lugar aonde queria ir. Não sabia ler fachadas e letreiros. Tinha dificuldades nos ônibus.

Hoje, faz as leituras da Bíblia em casa, ritual diário com a família, identifica os rótulos no mercado e esmerilha no Whatsapp. “Aprendi a usar o celular e sei até mandar mensagem de texto. Antes era só voz”, orgulha-se.

Realidade no Brasil

Marlene está longe de ser um caso isolado. Cerca de 16 milhões de pessoas não sabem ler nem escrever, segundo dados do Mapa do Analfabetismo no Brasil. E a maior parte dessas pessoas está acima dos 60 anos de idade. As razões são as mesmas da catarinense: o trabalho desde cedo, as poucas oportunidades e a distância das escolas.

“Meus pais acharam melhor eu trabalhar na roça do que ir estudar. Era longe da escola”, conta. Nesse sentido, a trajetória de Marlene é um acerto de contas com sua própria história. “Meus pais me tiraram da escola para eu ficar ajudando em casa. Eles não me deram estudo, mas eram uma boa família”.

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