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sexta-feira, 18 setembro 2020

Exclusivo: Pregador Luo e a luta contra a depressão

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“Quando você tem visibilidade e vida pública, expor suas fraquezas acaba sendo ruim por vários motivos. Mais maduro, percebi a gravidade da coisa e busquei ajuda psiquiátrica e terapia”

O rapper, produtor musical e compositor Luciano dos Santos Souza, conhecido como Pregador Luo, está entre os milhões de pessoas que lutam contra a depressão. O mal do século não escolhe classe social, gênero ou país. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença afeta 4,4% da população mundial e 5,8% dos brasileiros.

A equipe de Comunhão tem acompanhado de perto o problema, ouvindo especialistas por meio de  com debate, matérias

Pregador Luo falou com exclusividade para Comunhão sobre como tem sido essa batalha e a importância de buscar ajuda profissional.

Confira a entrevista:

Você declarou ter consciência de ser uma pessoa melancólica e que passou por vários momentos de depressão, mas sempre lutou. Com que idade esses momentos de depressão começaram a surgir?

Na infância eu já me sentia bastante triste e percebia que aquilo não era normal. Mas foi na pré-adolescência e na adolescência que comecei a sentir uma melancolia que me arrastava para períodos de depressão.

E de que forma superou essas crises de profunda tristeza no passado?

Na maioria das vezes eu não superava, os dias passavam e a depressão amenizava. Quando comecei a namorar com minha esposa encontrei um alicerce que me ajudou bastante em momentos como os que passei recentemente. Minha esposa é psicóloga e isso ajudou muito, pois conversávamos sobre isso. Em 2003, cheguei a tomar remédios, mas não levei muito a sério e parei de tomar por conta própria. Isso foi um erro da minha parte.

Quais foram os primeiros sintomas percebidos por você de que dessa vez era algo mais forte?

Os sintomas são quase sempre os mesmos, falta de sono ou muito sono, indiferença com tudo ao redor e ao mesmo tempo um profundo pesar por não poder fazer nada. Choro contínuo, medo de sair à rua, falta de vontade de se alimentar e vários outros sintomas que a depressão desencadeia. Mas dessa vez isso tudo veio muito potencializado, muito mesmo. Me anulou por inteiro. A cirurgia na coluna, pela qual passei recentemente, também contribuiu para agravar a crise.

Como foi o processo de aceitação e busca por ajuda? Houve algum fato em especial que marcou esse impulso?

Eu já havia aceitado que sou assim e que vou sempre precisar cuidar disso com muita atenção. Só que não dá para estar bem o tempo todo, não da para ser perfeito. Nem quero ser. Acontece que quando você tem visibilidade e vida pública, expor suas fraquezas acaba sendo ruim por vários motivos. Como hoje já sou mais maduro, percebi a gravidade da coisa e busquei ajuda psiquiátrica e terapia. Comecei a perceber que isso estava entristecendo demais minha esposa e minha mãe, e isso me fez querer reagir.

Em seu vídeo, você diz que foram dias sombrios, que quase puseram fim a sua existência. Pensou algum momento em suicídio?

Sim, passou muitas vezes pela cabeça. Mas nessa hora toda a força da fé cristã vem à mente. Não se trata de não cometer só por medo do inferno ou do desconhecido. O que me fez optar pela vida foi o fato de saber que também já vivi dias bons e felizes. Ainda que meus dias estivessem péssimos, sempre lembrava de Cristo dizendo para ter bom ânimo para enfrentar as aflições e assim venceríamos. Imagino como seria traumático para aqueles que me amam se eu tomasse uma decisão dessas. Não quero fazer ninguém sofrer por minha causa.

Pode nos dar exemplos de traumas, decepções e dores que levaram ao “desequilíbrio do cérebro”?

Esse desequilíbrio do cérebro não ocorre só pelos traumas, os estudos da medicina confirmam que isso também pode ser genético. Meu pai era claramente depressivo e calado. O pouco que conheci do meu avô paterno também me fez enxergá-lo dessa maneira. Meu pai chegou a ficar em clínicas de recuperação e morreu sem se abrir, sem ter paz. Nunca fomos amigos, falamos muito pouco um com outro. Fico muito chateado e triste por não conseguir ter sido amigo dele, nem sequer filho eu consegui ser. Minha mãe contou recentemente que quando ele soube que ela estava grávida de mim, ele não aceitou e pediu que ela abortasse. Minha história não é muito leve.

Quem foram às primeiras pessoas com as quais você conseguiu se abrir e como elas reagiram?

Não falei disso com ninguém além da minha esposa. Os meus amigos e a equipe que trabalha comigo perceberam por conta do meu comportamento. Fechei minha agenda, não atendia telefone, whatsapp, redes sociais. Sou meio calado no dia a dia, mas passei a ser ainda mais quieto. Todos ficaram preocupados. Recentemente tornei isso público e isso também gerou empatia nas pessoas. Recebi muitos testemunhos de pessoas que também estão passando por isso e que perceberam na minha atitude uma maneira de aceitar essa condição e buscar ajuda médica

Como ficou sua relação com a música nesse momento, especialmente dentro do cenário do hip-hop que é essencialmente de contestação, protesto, de uma atitude mais forte?

Ainda me sinto um pouco anulado e desgastado. Isso refletiu em cheio na música, que também é minha profissão. Eu tenho sentido dificuldade para compor, para me apresentar em público. Tanto que bloqueei minha agenda de shows e tenho saído pouco. Porém, tenho tentado compor e me esforçado para seguir com a vida.

E a sua relação com Deus?

Ainda que nos dias piores pareça que estou sozinho e fraco, sei que Ele está me cuidando. A depressão gera uma tormenta que tenta te afastar de tudo, e às vezes até consegue. Mas se afastar de Deus é impossível. Quando você é um homem de Deus, mesmo que tente se esconder, você não consegue. Me sinto sempre debaixo dos olhos Dele e sob seus cuidados.

Ainda existe preconceito da igreja acerca de admitir um cristão com depressão?

Sim, existe. Mas a igreja é muito fragmentada, segmentada e fracionada. Uma parte mais atrasada atribui isso a demônios. Enquanto uma outra parte da igreja que é mais esclarecida consegue entender, apoiar e tratar isso como uma patologia. É espantoso saber o número de pessoas que sofrem de bipolaridade e depressão atualmente, e ver que elas são tratadas de forma medieval. Ainda bem que em algum ponto, Deus se distingue da igreja.

Qual o próximo passo agora? Já vislumbra novos projetos?

Minha meta é continuar me recuperando, sendo renovado pelas misericórdias de Deus e conseguir retomar minha vida pessoal e profissional. Gostaria de dizer que tenho novos projetos e estou cheio de ânimo, mas prefiro ser sincero e dizer que a única coisa que vejo agora é a luz no fim do túnel. E pra mim isso já basta nesse momento.

Ouça ‘O Rei dos Campos’


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Depressão: doença ou problema espiritual?
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