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sexta-feira, 23 outubro 2020

Preconceito, você tem?

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“Eu? Preconceito? Imagina… De forma alguma… Minha bisavó era de tal raça…Eu já fui assim… Preconceito? Nunca!”. Porém, nem sempre o trato no dia-a-dia corresponde às palavras que, muitas vezes, já viraram jargão.

De cada dez pessoas questionadas sobre a possibilidade de ter algum tipo de preconceito, dez respondem negativamente. Porém, nem sempre o trato no dia-a-dia corresponde às palavras que, muitas vezes, já viraram jargão. E aquilo que não é falado é facilmente percebido por um olhar julgador, um tom de voz maldoso, um diálogo receoso.
Como uma praga, o preconceito destrói oportunidades e cresce criando uma ferida em todos os setores da sociedade. E como a Igreja faz parte da sociedade, ela não deixa de ser atingida, seja no papel de vítima ou no de promotora de tão abominável atitude.

Os frutos disso? Rancor, acepção de pessoas, pré-julgamento, injustiça e uma dificuldade cada vez maior de se propagar a Palavra de Deus.

O que é preconceito?

A palavra preconceito é, na verdade, formada por duas outras palavras. Pelo prefixo latino “pre”, que significa anterioridade ou antecedência, e pelo substantivo “conceito”, que é uma opinião, reputação, julgamento ou avaliação. O preconceito é, portanto, o conceito formado antes de se ter os conhecimentos necessários; é a opinião formada antecipadamente, sem maior ponderação.

É a opinião concebida pela aparência, pela classe social, pela raça e que, na maioria das vezes, atribui um valor negativo, depreciativo ou pejorativo à pessoa analisada. Hoje, é comum assistir a ações violentas contra mulheres, índios, pobres, negros, judeus, homossexuais, nordestinos e outros grupos mais, devido a idéias preconceituosas existentes no mundo, de uma forma geral.

Não se sabe quando o preconceito passou a existir na sociedade. Estudiosos afirmam que, desde que o mundo é mundo, há raízes de preconceito entre o homem, e que esses valores são os principais responsáveis por muitas mazelas.

O escritor Valmim M. Dutra, no capítulo 5 de seu livro “Renasce Brasil”- obra em que o autor propõe mudanças culturais, sociais e econômicas a partir de uma ética bíblica -, afirma que o preconceito é uma das grandes dificuldades que o ser humano enfrenta para respeitar e amar o próximo de forma objetiva e sensata.

Basta olhar a História. Aproximadamente seis milhões de judeus foram exterminados nos campos de concentração da Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, porque um austríaco chamado Adolf Hitler queria, no auge da sua loucura, “limpar” a Terra e criar uma só raça: a raça ariana.

Até hoje, negros sofrem com a discriminação racial conseqüente dos mais de três séculos de escravidão em terras brasileiras e estrangeiras. Dia após dia, aumenta o número de mulheres violentadas, agredidas, ofendidas, maltratadas, pelo simples fato de serem mulheres. Há, sem dúvidas, preconceito no Brasil.

Constituição Federal

Artigo 5º
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

I homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta constituição;

VI é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias;

Artigo 7º
São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

XXX proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil;

Lei nº 9.029, de 13 de abril de 1995 – publicada no Diário Oficial da União

Artigo 1º
Fica proibida a adoção de qualquer prática discriminatória e limitativa para efeito de acesso a relação de emprego, ou sua manutenção, por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil, situação familiar ou idade.

E a igreja?

Dizer que o evangélico é alvo de preconceito já não é mais novidade. Não são raras as situações em que a Igreja evangélica e seus membros ficam na mira da perseguição e da execração públicas. São críticas à forma de vestir, de se portar, de se comunicar e até de cultuar ao Senhor. Estereótipos são criados e transmitidos às gerações, e é de se espantar a ênfase dada pela mídia, principalmente nas manchetes policiais, ao descobrir que tal criminoso afirmou ser evangélico.

No entanto, pior do que ser vítima é ser promotora de tão abominável atitude. Se há preconceitos no mundo, espera-se que, ao menos na Igreja, a forma de pensar, de valorizar, de qualificar a cada pessoa seja diferente. Espera-se que haja acolhimento, amor. Espera-se que se cumpra o mandamento ordenado por Jesus e registrado no livro de Mateus 22: 39: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.

Mas o que acontece, muitas vezes, é exatamente o contrário. As mesmas atitudes preconceituosas se repetem dentro das igrejas, quebrando a tão buscada união, impedindo a verdadeira comunhão e criando marcas terríveis e profundas na identidade cristã. Há preconceitos de evangélicos contra quem não professa a mesma fé. Há preconceitos contra denominações, há até preconceitos quanto ao passado dos novos convertidos.

A mensagem registrada em Gálatas 3: 28 – “Desse modo não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” -, que é uma das respostas fundamentais do Cristianismo à sombria polêmica do preconceito, parece ter desaparecido de algumas Bíblias.

A advogada Débora Fonseca Cunha, da Igreja Presbiteriana de Jardim Camburi, entende bem o que é o preconceito dentro das igrejas. Juntamente com o marido, ela coordena, há cinco anos, o ministério Luz na Noite, que tem como objetivo resgatar homossexuais, travestis e garotas de programa para Cristo.

O programa consiste em levar louvores e a ministração da Palavra às orlas de praias e locais onde há pontos de prostituição. Em parceria com os ministérios Jovens com uma Missão (Jocum) e Avalanche, os programas são realizados durante as noites e madrugadas. Por mais que o trabalho seja árduo, o mais difícil, para Débora, é conscientizar a igreja sobre a sua missão de amar, acima de qualquer coisa.

“O evangélico vê a homossexualidade como o pior pecado, ou como se não houvesse restauração nessa área. O crente quer apressar o processo de santificação, quer fazer o papel do Espírito Santo, exigindo que o ex-homossexual mude da noite para o dia e isso traumatiza muitos novos convertidos, fazendo com que eles se decepcionem com Deus”, disse Débora.

O missionário Luiz Emílio Silva da Silva, 43 anos, é uma prova disso. Ex-homossexual, Emílio enfrentou e ainda enfrenta muito preconceito. E o que é pior, por parte de evangélicos. “Enfrento situações constrangedoras, principalmente com os homens, que evitam se aproximar de mim. Acho que muitos não acreditam na minha conversão e se afastam. É triste dizer isso, mas em muitos casos o crente é incrédulo e hipócrita”, disse Emílio.

O preconceito também atinge as denominações e não são raras as brincadeiras e piadas de mau gosto contra igrejas históricas, pentecostais e neopentecostais. “Há uma presunção em achar que tal denominação é melhor do que a outra ou que o irmão que mora em tal lugar do país é melhor do que o outro. Isso é mundanismo, pois quem se encontrou com Jesus não pode manter esse tipo de comportamento, isso não dá para aceitar”, disse o pastor Wanderley Pereira, diretor da Faculdade Teológica Unida (FTU), em Vitória.

“Saí de uma igreja tradicional e fui para uma pentecostal e já ouvi muitos irmãos me perguntarem quanto tempo mais eu ficaria desviado ou quando eu iria voltar para minhas raízes. Sempre tento levar na Palavra e digo que sigo aquilo que Deus tem para a minha vida. Mas, qualquer forma de preconceito é inaceitável”, disse o pastor Marcelo Azevedo, que tem tratado sobre esse assunto em sua igreja, a Nova Vida em Itararé, Vitória.

No final do ano passado, a juventude da igreja elaborou a Noite Black e, através de uma peça teatral, músicas e ministração específica, os jovens levaram uma mensagem de conscientização contra o preconceito, principalmente o racial.

“Nossos jovens sentiram a necessidade de a gente falar sobre esse tema, já que raramente é tratado nos púlpitos. Então fizemos uma programação especial para falar de uma forma bem clara que Jesus não faz acepção de pessoas”, disse Isabel de Souza, 31 anos, líder de jovens da igreja.

E a acepção não se refere apenas à prática da fé ou à história pregressa, mas também se reflete na questão social. Por mais que seja camuflada, é notória a separação entre os mais ricos e os mais pobres dentro de muitas igrejas.

“Em meu primeiro ano de seminário, fui mandado para uma igreja em Recife (Pernambuco), localizada num bairro nobre e com membros ricos. Porém, próximo à igreja existia um bolsão de pobreza, uma favela bem no meio daquele bairro, e atendíamos às crianças daquela comunidade. Fiquei profundamente triste quando soube que a escola dominical das crianças da favela era no sábado e das crianças da igreja, no domingo. A explicação que me deram foi a de que era uma medida para que as crianças mais pobres não ficassem constrangidas com as roupas e brinquedos das mais ricas. Mas no fundo, sabia que eles não queriam se misturar”, disse o pastor Wanderley.

Para ele, esse tipo de separação continua ocorrendo, de forma mais discreta, mas presente, também, nas igrejas capixabas. “É o tipo de coisa que ninguém comenta, mas existe, é notório”, acrescentou.

Cristandade

“Só compro em lojas de evangélicos!”; “Venham em minha pizzaria porque eu sou irmão!”, “Não contrato em minha empresa quem não seja cristão”. Atitudes como essas, praticadas por evangélicos, seriam preconceituosas?

Para o pastor Wanderley, sim. “O mais danoso, para mim, não é o preconceito contra a igreja evangélica, mas do evangélico contra as demais pessoas. Estamos caindo no erro de se criar uma separação, uma sociedade cristianizada, uma cultura paralela, e isso é perigoso. Principalmente porque quando se tenta criar um mundo em que tudo que se lê é gospel, o que se ouve é gospel, o que se compra é gospel, abre-se espaço para os vigaristas”, disse o pastor.

Ele afirma ainda que tal atitude, além de preconceituosa, é o contrário do que ensinam as Escrituras Sagradas. “Nós temos que ser luz no mundo, é onde está a treva que deveremos estar para influenciar. Jesus não rogou ao Pai para que nos tirasse do mundo, como vemos em João 17, versículo 15, mas que nos guardasse do mal. Como levaremos a Palavra se criamos uma cultura alternativa? Criamos uma ‘cristandade’, e isso é diferente de Cristianismo”, disse o pastor.

E se preconceito gera preconceito, muitas atitudes preconceituosas contra a igreja evangélica poderiam ser explicadas pela própria igreja. Para o sociólogo e professor de Ciências da Religião da FTU e FDV, José Bittencourt Filho, o preconceito contra a Igreja evangélica que se verifica hoje tem, como principal responsável, o próprio evangélico.

“Essas atitudes que vemos hoje vêm do passado, pois os evangélicos construíram sua identidade a partir da negação de outros grupos. O evangélico era sempre o que não adotava, o que não fazia, o que não aceitava aquilo que já estava presente na sociedade. Isso criou uma antipatia, um certo preconceito, em função dessa identidade do que ‘não se faz”, disse o professor.

“Os evangélicos calcaram a pregação muito em cima da moral individual. Então, quando um evangélico é flagrado contrariando esse discurso, isso recebe uma valorização maior, principalmente da mídia. Por isso será sempre muito mais execrado o ladrão que se diz evangélico do que qualquer outro”, explicou Bittencourt.

A fórmula para mudar isso, para o professor José Bittencourt, está na reformulação da Igreja. “É preciso haver uma reeducação, porque nossos ancestrais eram moralistas, e o preconceito está enraizado. Temos que fazer reformas profundas na Igreja para que esses preconceitos sejam banidos ou, ao menos, minimizados. A igreja deveria ser o local de mais acolhimento e aceitação, mas vemos que o clima hostil ocorre até entre as denominações”, disse o professor.

Já para a advogada Débora, o amor ao próximo seria a principal ferramenta para transformar não só a igreja, mas toda a sociedade. “Acho que a Igreja muda isso voltando a amar como Jesus amou. Precisamos enxergar corações, e não roupas e estereótipos. Precisamos discursar menos e agir mais, abraçar mais, olhar nos olhos e amar. Enfim, praticar o que se prega”, disse.

E nada mais inspirativo do que o exemplo deixado por Jesus. Ele não discriminou prostitutas, ladrões, doentes, estrangeiros ou qualquer outra pessoa. Pelo contrário. Ele se sentou, comeu em sua companhia e investiu seu tempo em cada um deles, fazendo com que seu propósito de vir ao mundo se cumprisse, levando a salvação para todo aquele que nEle crê.

O que diz a Bíblia

“Desse modo não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gl 3: 28).
“Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores. Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2:8-10).
“Porque para com Deus não há acepção de pessoas” (Rm 2:11).
“Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22: 39).

Matéria publicada em setembro de 2006, na edição nº 109 da Revista Comunhão

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