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quinta-feira, 15 DE janeiro DE 2026

Precipitação ou estratégia? Pastores analisam indicação de Flávio à presidência

A indicação de Flávio Bolsonaro para disputa presidencial tem gerado debates entre os próprios apoiadores de Bolsonaro. Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

Alguns líderes acreditam que poderia ter sido escolhido um nome mais forte para representar a direita. Para outros, tudo não passa de uma estratégia para manter o nome Bolsonaro vivo no jogo político

Por Cristiano Stefenoni

A indicação de Flávio Bolsonaro para disputar a presidência em 2026 caiu como um balde de água fria na pretensão de parte da direita política do país, bem como de algumas lideranças religiosas que viam no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), um nome mais forte para enfrentar Lula. Tanto que, na enquete do Datafolha divulgada no último sábado (6), o filho de Bolsonaro perdia para o atual presidente tanto no primeiro turno (Lula 41% x Flávio 18%) como no segundo (Lula 51% x Flavio 36%).

“A distância nas pesquisas não me surpreende. Flávio não tem densidade eleitoral nacional e carrega desgastes acumulados, tanto os seus como os do pai. Ele não é um nome natural para a direita e não desperta entusiasmo fora do núcleo duro bolsonarista. Se a campanha permanecer nesses termos, a tendência é que a diferença se mantenha, porque Flávio enfrenta o desafio de se apresentar como candidato de fato, e não apenas como extensão de Bolsonaro”, explica o pastor Rodolfo Capler, pesquisador da PUC-SP, teólogo, escritor e líder da Igreja Batista Alternativa em Piracicaba (SP).

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Na opinião dele, a indicação de Flávio funciona menos como um movimento estratégico e mais como uma solução interna a um problema familiar e jurídico. “Do ponto de vista político, Bolsonaro reage às circunstâncias, sobretudo ao cerco jurídico e à dificuldade de encontrar alguém plenamente alinhado a ele, mais do que projeta um caminho para ampliar sua base. A decisão me parece precipitada e pouco calibrada para uma disputa presidencial de grande complexidade”, avalia Capler.

Pode atrapalhar mais do que ajudar

Para o pastor, a entrada de Flávio na disputada pode mais atrapalhar do que ajudar os planos da direita de ser bem-sucedido no próximo pleito. “O campo da direita já vem fragmentado desde 2022, e a escolha de Flávio tende a acentuar essa divisão. Tarcísio representava um nome mais competitivo, com trânsito no centro político e maior capacidade de atrair setores econômicos e institucionais. Com Flávio, a candidatura se volta para dentro da bolha bolsonarista, o que pode reduzir o alcance e dificultar a composição de uma frente mais ampla. Isso fortalece Lula e dificulta a construção de um polo unificado contra ele”, analisa.

Capler também avalia as falas de Flávio ao afirmar que estaria disposto a “negociar” e que sua candidatura teria um “preço”, referindo-se ao projeto da anistia.

“Quando a disputa política passa a ser interpretada como mecanismo de autoproteção e não como projeto de país, a credibilidade do grupo se desgasta rapidamente. Para parte do eleitorado isso soa como tática, para outra parte como chantagem emocional e política. Em qualquer uma das leituras, o resultado é negativo. Bolsonaro reforça a percepção de que está mais preocupado com o seu destino pessoal do que com o futuro da direita ou do país. Penso que isso enfraquece Flávio como candidato e compromete ainda mais a capacidade do bolsonarismo disputar o centro”, pontua.

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Para o pastor, a solução mais racional, caso o objetivo fosse realmente fortalecer a direita, seria buscar um nome com maior capacidade de diálogo, menor rejeição e mais preparo para uma disputa nacional, como Tarcísio ou outro perfil técnico-político capaz de romper a bolha.

“No entanto, como o movimento atual está condicionado pelas urgências pessoais de Bolsonaro, o mais viável dentro desse cenário é tentar reorganizar a campanha de Flávio em torno de um discurso menos defensivo e mais programático. Ainda assim, trata-se de uma alternativa limitada, porque não resolve o problema de origem: a dependência da figura e dos interesses do ex-presidente”, concluir Capler.

Ideia foi manter o nome Bolsonaro em evidência

Já o presidente da Igreja Batista Getsêmani em Belo Horizonte (MG), pastor Jorge Linhares, acredita que a escolha do ex-presidente por seu filho Flávio está ligada a confiança que Bolsonaro tem nele. “O ex-presidente indicou alguém da confiança dele, que manteria o nome Bolsonaro em evidência. Então, escolheu um senador, que é seu filho, exatamente para saber com quem pode contar”, acredita.

Na opinião de Linhares, a escolha por Flávio acabaria com as divergências de outros postulantes a disputa e focaria exclusivamente no nome de Bolsonaro. “Por mais que existam problemas e divergências, os filhos olham o pai como exemplo maior, como modelo. É um candidato que tem na veia o sangue do pai. Ou seja, é uma forma de manter o nome Bolsonaro em evidência, na mídia, na mente das pessoas”, justifica.

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Para o pastor, a escolha de quem vai compor a chapa com Flávio será crucial. “A solução mais viável agora é todos se unirem para a escolha de um vice que será determinante. Talvez o vice seja até mais importante do que quem será o cabeça da chapa”, avalia.

Flávio pode ser a saída para fortalecer clã novamente

Para o presidente da Convenção Evangélica dos Ministros das Assembleias de Deus no Estado do Espírito Santo (Cemades), pastor Álvaro Oliveira Lima, a indicação do Flavio é como uma “bala de prata”, ou seja, uma solução definitiva e um recado claro aqueles que querem o apoio da família [Bolsonaro], mas não a apoiam.

“É uma garantia de continuidade do núcleo duro do bolsonarismo: para Jair Bolsonaro, já preso e inelegível, a escolha de Flávio mantém o espólio eleitoral familiar concentrado dentro da família o que evita dispersão imediata do eleitorado fiel. Também leva a uma mobilização da base mais radical/leal: pode haver um eleitorado que valoriza fidelidade, ou a ideia de continuidade do projeto político Bolsonaro e, para esse segmento, a indicação de um herdeiro direto pode surtir efeito”, explica.

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Direita está fragmentada

Por outro lado, o pastor Lima também acredita que a indicação de Flávio possa causar dissenções na direita. “A escolha de Flávio desagradou uma parcela significativa da direita e até setores do próprio partido, que preferiam alguém como Tarcísio de Freitas, mais palatável para eleitores moderados ou para alianças políticas. Vejo que complicou um pouco. Acredito que a indicação de Flávio, em vez de um nome neutro, aumenta muito a chance de fragmentação dentro da direita. Há setores que preferiam Tarcísio ou até outros nomes fora do núcleo familiar, justamente por verem Flávio como um candidato menos competitivo, ressalta.

Para o pastor, se o objetivo for competitividade real nas eleições de 2026, a direita deve apostar em um nome com perfil mais moderado ou menos rótulo familiar. “Alguém que possa agregar parte do eleitorado conservador com parcela mais ampla de eleitores insatisfeitos, sem carregar o peso simbólico e jurídico da família Bolsonaro”, acredita.

Um jogo que não é para amadores

Na opinião do articulista de Comunhão, pastor José Ernesto Conti, líder da Igreja Presbiteriana Água Viva em Vitória (ES), a escolha de Flávio por parte do ex-presidente Bolsonaro, nada mais é do que uma jogada estratégica muito bem pensada.

“O jogo político não é para iniciantes. Tenho certeza de que Bolsonaro e sua família possuem muita experiência nessa área e não pisariam em falso. Por isso percebo que essa indicação neste momento tenha como propósito, muito mais tumultuar o jogo político do que definir algo que só vai ser definido daqui a cinco ou seis meses”, enfatiza Conti.

Sobre as pesquisas de intenção de voto, o pastor prefere não se basear por elas. “Pesquisa no Brasil é mais fantasia do que histórias de fadas e duendes. Não dá para levar a sério as pesquisas políticas no Brasil. Nosso país passa por uma deterioração completa dos padrões éticos e morais, onde a verdade foi esquecida nos porões do injusto STF. Se pudesse dar um conselho, diria que vamos dar tempo para que o plano preparado por Bolsonaro comece a dar resultado e a esquerda ideológica seja desmascarada lentamente pelas próprias mentiras”, conclui.

 

 

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