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segunda-feira, 26 outubro 2020

Evangélicos não praticantes

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O que está havendo com a igreja evangélica brasileira?

Nos últimos anos, o número de evangélicos sem vínculo institucional com as igrejas multiplicou-se por quatro. Agora chamados de “evangélicos não praticantes”, eles representam um novo perfil de cristão, aquele que deixa a igreja vazia, mas, ao mesmo tempo, não deixa de se autodenominar evangélico.

“Ora, vocês são o Corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (1 Co 12:27). Em uma das cartas que escreveu aos Coríntios, o apóstolo Paulo descreve a Igreja como sendo o “Corpo de Cristo”. O autor explica que todos, “judeus e não judeus, escravos e livres”, foram batizados pelo mesmo Espírito para formar um só Corpo (vs 13). Mas para que o Corpo viva de maneira saudável e ativa, é necessário que esteja completo e em comunhão.

Paradoxalmente, e na corrente do crescimento sem precedentes do número de evangélicos no Brasil, um novo agrupamento de crentes aparece, contrariando um princípio básico da Igreja de Cristo, a comunhão. São os evangélicos sem vínculo com a Igreja e, que, nos últimos anos, se multiplicaram por quatro.

A informação foi revelada pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o dado apurado, entre os anos de 2003 e 2009 o grupo de “evangélicos não praticantes” saltou de 0,7% para 2,9%.

Embora o percentual pareça pequeno, o índice representa o aumento de cerca de 4 milhões de cristãos que abriram mão da convivência em meio ao povo de Deus. São pessoas que preferem viver sua fé de maneira individual, sem compartilhar ou experimentar a comunhão ensinada por Jesus. Mas por que motivo alguns crentes não querem mais fazer parte da Igreja? Essa é a pergunta que intriga quem se depara com essa nova realidade.

Para o pastor da Igreja Batista em Mata da Praia, Marcelo de Aguiar, alguns fatores podem explicar esse novo comportamento cristão. “Entre os evangélicos não praticantes, temos algumas situações possíveis, como membros que foram excluídos ou se afastaram; pessoas que acham a mensagem evangélica interessante, mas que não se animam em assumir um compromisso com a Igreja, ou ainda pessoas decepcionadas com as igrejas e que acreditam ser mais produtivo viver sua fé individualmente”, analisa o pastor.

A falta de entendimento do verdadeiro significado espiritual da igreja enquanto Corpo de Cristo é o principal motivo para o surgimento dos evangélicos não praticantes, na opinião do pastor da Assembleia de Deus em Itapoã, Cidrac Ferreira Fontes. “A falta desse entendimento é decorrente de um nível bastante superficial da base espiritual que se tem hoje. Vemos pouco ensinamento bíblico nas igrejas”, alerta o pastor Cidrac.

Cristãos comprometidos

“Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus” (1 Pe 2:9). Ser a “geração eleita” de Deus é, sem dúvida, algo maravilhoso, mas que exige comprometimento. E é exatamente esse compromisso que está sendo deixado de lado. Afastar-se da Igreja e viver a fé de forma individual não corresponde aos ensinamentos bíblicos. “Existem muitas pessoas que não querem comprometimento com a causa de Cristo e, por isso, naturalmente se afastam”, explica o pastor da Primeira Igreja Batista de Jacaraípe, Walter Aguiar.

Segundo ele, a falta de compromisso de cada membro é apenas uma das causas desse cenário de crentes não praticantes, mas existem outras situações. “Muitas pessoas que frequentam a Igreja Cristã não passaram por uma real conversão a Cristo e, por essa razão, ficam um período até considerável na igreja, mas depois tendem a sair porque a não identificação espiritual passa a ser percebida. Também existem aquelas pessoas que não se identificam com esta ou aquela doutrina eclesiástica e, por isso, vão de lugar em lugar à procura da igreja ideal”, esclarece o pastor Walter.

Esse comportamento de buscar a “igreja ideal” é um dos exemplos de não comprometimento. De acordo com o pastor Marcelo de Aguiar, essa necessidade de “experimentar” o maior número de congregações possível é prejudicial. “Hoje, temos muitos ‘experimentadores de igrejas’. São pessoas que não querem compromisso com Deus ou com seu povo”, alerta.

Ele explica que os “experimentadores” vão aos cultos quando estão necessitados, apreciam a música de uma congregação, a pregação de outra e a oração de uma terceira. “Mas, nesses casos, não há vínculo, não há entrega, não há mudança e não há conversão.  Muitas vezes, nós mesmos somos os culpados, pelo tipo de mensagem que pregamos, pelas ofertas que fazemos com o fim de atrair esses frequentadores”, enfatiza o pastor Marcelo.

Ainda que esse seja um comportamento cada vez mais comum, o pastor Walter alerta para que a “experimentação de igreja” não se torne desculpa para os cristãos estarem “de galho em galho”, uma vez que a Igreja representa o Corpo de Cristo e, por isso, deve estar sempre unida. “Hoje em dia, mais do que nunca, o ditado ‘nem tudo o que reluz é ouro’ se torna verdadeiro. O crente precisa ter certeza de que onde ele está é o local onde Jesus está e que Seus ensinamentos estão sendo observados pela liderança”, avalia.

Líderes comprometidos

Para que os membros de uma igreja se sintam verdadeiramente comprometidos, é necessário que sua liderança demonstre o mesmo compromisso. E, na opinião do pastor da Assembleia de Deus em Paul, Jayjairo Castelo, isso nem sempre acontece. “Muitas vezes, a vida dos pastores não condiz com aquilo que eles pregam; em muitas situações, eles não fazem questão de impor a si mesmos uma vida de exemplo. E as pessoas percebem isso, e se decepcionam”, destaca o pastor.

O pastor da Assembleia de Deus Nova Vida, em Itapoã, Vila Velha, Eduardo Vieira, acredita que muitos estão em busca de uma igreja “perfeita”, mas que, na verdade, não existe. “As pessoas são tão exigentes que não aceitam os erros cometidos no seio da igreja por membros ou liderança. Por outro lado, vemos igrejas sem estrutura, sem amor e sem visão do Reino de Deus”, explica.

O pastor diz ainda que muitos cristãos se dizem insatisfeitos com seus líderes, com a liturgia do culto ou com as normas das igrejas e, por isso, preferem se afastar. “A pessoa deve servir a Deus em uma igreja em que se sinta bem. Prefiro perder um membro para outra igreja, mas saber que lá ele está bem, crescendo e feliz”, opina o pastor Eduardo. Segundo ele, o importante é não se afastar “do Corpo de Cristo”.

A decepção com a liderança, com questões administrativas e motivos pessoais tendem a afastar as pessoas da igreja, o que não deveria acontecer, de acordo com o pastor Walter Aguiar. “Onde se reúnem mais de dois seres humanos é necessário ter uma paciência muito grande para lidar com os conflitos do dia a dia e uma capacidade de perdão maior ainda, afinal, nem sempre é fácil conviver com as pessoas”, avalia.

Crescimento e comunhão

Não há dúvida de que o número de evangélicos em todo o País está aumentando, muito embora, o comprometimento deles nem sempre seja proporcional ao crescimento numérico. “A quantidade de evangélicos cresceu no Brasil, mas não necessariamente a qualidade. Incorremos em uma ‘numerolatria’ e a consequência é que ‘evangélico’ tornou-se um rótulo, e não a designação de alguém que teve uma experiência salvadora com Cristo e se tornou uma nova criatura”, analisa o pastor Marcelo de Aguiar.

Para o pastor Jayjairo Castelo, ainda que exista um número expressivo de evangélicos, a falta de “qualidade” das mensagens, dos cultos, do compromisso dos líderes e também dos membros faz com que a sociedade não seja influenciada pela igreja. “Se fecharem as igrejas hoje, mudará algo para a sociedade? As igrejas não estão cumprindo seu papel de ser sal e luz, o crescimento está sendo apenas numérico, mas não se tem qualidade. Se o número de evangélicos está aumentando em todo o País, por que o número de homicídios ou de divórcios não está caindo? Temos muitos crentes nominais, mas poucos são aqueles verdadeiramente comprometidos”, afirma o pastor Jayjairo.

A fim de aumentar a qualidade do que as igrejas oferecem e consolidar os ensinamentos bíblicos, explica o pastor Cidrac Ferreira, é necessário investir em ensino. “As pessoas estão achando que a igreja é um self service. Nunca se fizeram tantas campanhas, se cantou tanto sobre conquista e nunca vimos tanta gente frustrada. Os líderes precisam estudar mais e parar de entregar seus púlpitos para aventureiros que não conseguem se firmar em uma igreja, que não foram discipulados. A igreja está sendo prejudicada com um Evangelho de troca de bênçãos sem compromisso com Cristo. Estão faltando seriedade e Bíblia nos púlpitos”, enfatiza o pastor Cidrac.

Além da vida pastoral, o pastor Jayjairo Castelo destaca que é importante incentivar a comunhão dentro da igreja. “As pessoas só permanecem num lugar quando se sentem bem, quando têm amigos ali, por isso a comunhão é tão necessária. As pessoas precisam se relacionar umas com as outras”, explica o pastor. Segundo ele, os cultos deveriam ser ajustados para que em seu término as pessoas tivessem esse tempo de convivência.
“Muitas pessoas trabalham cedo no outro dia, então elas saem da igreja e vão direto para suas casas descansar. E o relacionamento humano, como fica?”, questiona o pastor Jayjairo.

Mantendo o corpo em funcionamento

“O corpo não é feito de um só membro, mas de muitos” (1 Co 12:14). Relembrando as palavras do apóstolo Paulo, para que o Corpo de Cristo permaneça em completo funcionamento e cumpra sua missão dentro do Reino de Deus, é necessário que cada membro esteja ligado uns aos outros. E para isso, se torna necessário que os cristãos estejam em comunhão dentro das igrejas.

Para o pastor Marcelo de Aguiar, fazer parte de uma igreja é indispensável para o cristão. “A filosofia da pós-modernidade é individualista, enquanto a proposta do Cristianismo é comunitária. A brasa longe da fogueira se apaga e o mesmo acontece com a nossa fé quando não participamos ativamente de uma igreja”, esclarece.

O pastor vai além em sua análise. “Aqueles que afirmam que é possível viver plenamente o Cristianismo sem fazer parte de uma igreja estão se declarando mais inteligentes do que Jesus, afinal, foi Cristo quem criou a Igreja. Com tal comportamento, essas pessoas estão dizendo que Ele criou algo que, no fundo, não era necessário”, conclui o pastor Marcelo.

O pastor Walter Aguiar explica que a ideia de um “Evangelho light” afasta as pessoas das igrejas que estão comprometidas com o Reino de Deus. “Precisamos dar ao povo o alimento puro, sem misturas e engano, que é a Palavra de Deus, a consciência de que Cristo é real e faz diferença em nossa vida. Um bom testemunho ainda vale mais do que mil palavras”, explica.

Para o pastor Cidrac Ferreira, o plano de Deus para o mundo na nova aliança passa, necessariamente, pela Igreja que o próprio Cristo instituiu. “Acredito que seja impossível servir a Deus e estar desvinculado de uma igreja”, pontua. Seja em função da vida moderna, da pregação de mensagens superficiais, da falha de líderes ou pastores ou da “experimentação” de muitos cristãos, o fato é que muitos evangélicos estão preferindo se afastar da Igreja, até mesmo por não conseguir enxergá-la como o “Corpo de Cristo”. A Igreja precisa despertar para esse novo comportamento e se tornar uma Igreja que seja exatamente o que Deus quer que ela seja: a Sua própria família na terra.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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