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domingo, 5 dezembro 2021

Por que poucos cristãos são dispostos a servir?

Estamos acomodados? Estudos mostram que 80% dos membros de igrejas não são envolvidos com a obra, contra 20% de comprometidos

Por Elisa Rangel e Patrícia Scott

Pesquisas feitas por diversas organizações cristãs, dentre elas o reconhecido Barna Group (EUA), apontam que aproximadamente 80% dos membros de igrejas evangélicas estão entregues ao comodismo, sentados nos bancos (alguns acolchoados) dos templos, na frente do ventilador, ou no ar condicionado, num ponto estratégico para apreciar os cultos.

Enquanto isso, o restante, os 20% dos membros, estão carregando nas costas todo o trabalho e, sem querer, muitas vezes caem no ativismo e ficam esgotados. O comodismo é um mal que atinge os cristãos, mas como podemos nos livrar dele e nos tornarmos uma igreja que serve a Deus com alegria?

Instrumentistas, berçaristas, introdutores, professores, visitadores, líderes de crianças, de jovens, missionários, zeladores, assistentes sociais, secretárias, bibliotecárias, pregadores, vigias de carros, técnicos de audiovisual, intercessores, porteiros.

E dentro desse contexto de pandemia, novo normal, por conta da Covid-19, essa realidade fica ainda mais evidenciada. É real que o momento é atípico e complexo, assim, nem todas as atividades são desenvolvidas como antes. No entanto, a igreja não para.

O on-line ganhou força e, mesmo assim, poucos se dispuseram à obra. “Aqueles que não tinham compromisso com os trabalhos da igreja permaneceram na mesma posição. Somente os que já eram envolvidos nas atividades eclesiásticas subsistiram, independente da pandemia”, elucida o pastor Sérgio de Sousa, da Assembleia de Deus na Lapa, na capital de São Paulo, que emenda: “Dentro desse novo normal, a disparidade entre os que congregam e são ativos com os que são acomodados tende a ser maior, justamente pela insegurança das pessoas”.

“Somente os que já eram envolvidos nas atividades eclesiásticas subsistiram, independente da pandemia” – Sérgio de Sousa, pastor da Assembleia de Deus na Lapa, na capital de São Paulo

No entanto, aos poucos, as igrejas retornam as suas rotinas. São dezenas de atividades que as congregações desenvolvem todas as semanas e só as realiza porque pessoas se dispõem a servir doando algum tempo do seu dia a dia para se dedicar ao serviço do Reino nas igrejas em que congregam. Mesmo com tanto a ser feito, milhares de crentes se acomodam e ficam sentados nos bancos, muitas vezes já demarcados, como meros espectadores. Esqueceram-se das palavras de Tiago (2.26b): “a fé sem
obras é morta”.

A acomodação é um mal que atualmente afeta a maior parte das igrejas, para não dizer todas. Enquanto um número mínimo de membros se desdobra para não deixar os ministérios parados, o restante da igreja apenas se dá ao trabalho de assistir às programações e, indiferentes, não se deixam ser tocados pelo chamado de Cristo ao serviço e enterram seus talentos. Esse posicionamento não é nada novo, tendo em vista que Jesus afirmou: “A seara é realmente grande, mas poucos são os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara” (Mc 9:37,38).

Na opinião da pastora Rozi Santos, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) na Taquara, Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, a liderança tem a responsabilidade de despertar nas ovelhas o desejo de servir na casa de Deus. “Observando quais são os talentos das pessoas e lançando desafios, confrontando-as. É preciso ensinar que se envolver na obra de Deus é um ato de adoração e amor ao Pai”, salienta.

Fora da vontade de Deus

Uma igreja acomodada está fora da vontade de Jesus Cristo, que disse: “Ide. Pregai. Falai. Pegue sua cruz”. Para o psicólogo Leandro Mozart Alves da Costa, que esteve no ministério pastoral até o final do ano passado, um grande adversário que gera a comodidade é o conforto individualista. “Trata-se de um self-service da fé. Uma espécie de ‘sirva aos meus interesses’. Quanto mais confortável, melhor. Hoje as igrejas estão oferecendo templos magníficos, eventos de alto nível, pregadores espetaculares. E isso não é ruim, mas gera uma comunidade de conformados, acomodados.

O sentimento de servir fica escasso em detrimento do ‘ser servido’. O que fazer para reverter esse quadro? Não dar o que as pessoas querem, mas o que elas precisam”, declara. Os primeiros cristãos, de acordo com a Bíblia, atingiram todo o mundo pagão com o Evangelho sem os recursos da mídia que temos hoje. O segredo era a visão de que todos os crentes eram discipuladores em potencial.

Em pouco mais de 10 anos, Paulo estabeleceu a igreja em quatro províncias do Império: Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. A missão da igreja não é simplesmente conseguir conversões, mas completar o processo da vida cristã fazendo discípulos. Quando isso não acontece, surge o reflexo: as pessoas nas igrejas apenas como espectadoras.

O pastor Moisés Dias de Carvalho Júnior, presidente da Missão Mineira Norte da Igreja Adventista, ressalta que essa vida morna, apagada, surge por causa da falta de comprometimento, incentivo, amizade, espiritualidade e amor. “Já houve um tempo em que a igreja era mais viva e atuante”. Já Leandro Mozart relembra que nada foi mais combatido por Jesus do que a religiosidade cômoda, como era a prática dos fariseus. “Cristo veio para os seus, mas os seus não o receberam (João 1:11), porque estavam acomodados à religiosidade.

Era uma religiosidade vazia. Os fariseus, saduceus, escribas, e outras esferas religiosas da sociedade foram duramente criticados por Ele por valorizarem excessivamente a lei em detrimento de pessoas. Voltamos a essa realidade. Precisamos de renovação, de transformação. De menos discurso e mais vida e ação”, afirma.

Com as centenas ou os milhares de acomodados ocupando os bancos das igrejas, um dos ministérios que mais sofre é o de evangelismo. Como se deslocar para um campo missionário se não consegue se levantar do banco do templo para engajar-se nas atividades infantis, da juventude ou do louvor, por exemplo? Todos sofrem com o comodismo.

A igreja, de um lado, se torna indiferente, apática, sem cuidado, à mercê de interesses pessoais. Do outro lado, sofre o campo de evangelização. Todas as pessoas são envolvidas no ativismo diário: estão ligadas nos compromissos de trabalho profissional, escola, faculdade, cursos, esportes, filhos, casa e, com isso, esquecem que a obra de Deus não pode parar.

Frio ou quente?

Em Apocalipse 3:15 e 16, há o relato de como era o comportamento da igreja em Laodicéia: “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; oxalá foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és quente nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”. A Palavra de Deus é dura para os que se entregam ao comodismo. Eles não se integram nas atividades, não fazem nada, mas também não faltam aos cultos.

Em seu livro “Estudo no livro de Apocalipse”, o reverendo Hernandes de Dias Lopes, da Primeira Igreja Presbiteriana em Vitória (ES), destaca o perfil dessa igreja. “O problema em Laodicéia não era teológico nem moral. Não havia falsos mestres, nem heresias, pecado de imoralidade nem engano. Não há na carta menção de hereges, malfeitores ou perseguidores. O que faltava na igreja era fervor espiritual.

A vida espiritual da igreja era morna, indefinível, apática, indiferente e nauseante. A igreja era acomodada”, explica Lopes e adverte: “Nosso fogo espiritual íntimo está em constante perigo de enfraquecer ou morrer.

O braseiro deve ser cutucado, alimentado e soprado até incendiar. Na vida cristã há três temperaturas espirituais: 1) Um coração ardente (Lucas 24:32); 2) Um coração frio (Mateus 24:12), e 3) Um coração morno (Apocalipse 3:16). Jesus e Satanás conhecem a maré espiritual baixa da igreja”.

“A palavra servo não faz parte da identidade de muitos cristãos na atualidade” – Elber Paixão, pastor e líder da Igreja Batista Herança da Graça em Lindo Parque, no município de São Gonçalo (RJ)

A falta de envolvimento de muitos crentes na Obra de Deus não é algo novo, fruto apenas desta época, muito embora vivamos um notório esfriamento espiritual, que redunda numa falta de compromisso com Deus e o Seu Reino. “Ainda é muito grande o número de pessoas, que dentro da Casa de Deus, estão muito mais preocupadas com a maneira como serão servidas, pelo pastor ou por Deus, do que, como podem fazer para servirem à Causa do Mestre, por meio do serviço na igreja ou em prol dela”, opina o pastor Elber Paixão, líder da Igreja Batista Herança da Graça em Lindo Parque, no município de São Gonçalo (RJ).
Ele lembra que Jesus incentiva os crentes a orarem pelo envio de trabalhadores (Mt 9:39). “Há uma ênfase na evangelização, que obviamente precede o momento do juízo vindouro; os trabalhadores são os discípulos de Cristo, que devem imitá-lo na proclamação da vinda definitiva do Reino, como é apresentado em Mt 10:7”, expõe e pergunta: “Será que todos nós estamos dispostos a sermos servos?”.

A resposta, o pastor Elber encontra, na Bíblia, em Marcos 10:43-45 Jesus diz: “[…] Contudo, não é assim que ocorre entre vós. Ao contrário, quem desejar tornar-se importante entre vós deverá ser servo; e quem ambicionar ser o primeiro entre vós que se disponha a ser o escravo de todos. Porquanto, nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”. Mas a palavra servo, de acordo com o pastor Elber Paixão, não faz parte da identidade de muitos crentes na atualidade.

Mas estar no grupo dos acomodados pode ser indicativo, muita vezes, de outros problemas, como explica a psicóloga pós-graduada em Terapia Familiar Sistêmica, Margareth Emerich: “Os motivos do comodismo podem ser diversos: decorrentes de uma depressão, frustação, perdas não superadas, decepções, incredulidade.

Pessoas acomodadas são desmotivadas, sem desejos, sentem-se inúteis e descompromissadas. Não tem noção do talento que possuem”, assegura. É preciso avaliar, segundo a psicóloga, que as pessoas hoje não se relacionam mais com tanta intensidade. “Isso pode ser devido à dinâmica do dia a dia, do excesso de atividades,
da busca pelo ter em detrimento do ser”, detalha Margareth.

Ela completa ainda que todas as pessoas têm qualidades e capacidades para serem trabalhadas e aproveitadas mesmo que estas estejam apagadas. “Nós, pastores e líderes, que estamos à frente de uma igreja, devemos identificar essas qualidades e capacidades no sentido de potencializá-las. Promover ações ou estratégias, motivando, treinando para tentar resgatar e trazer vida ao que se pensava estar morto”, analisa.

No entendimento do pastor Nilton Júnior, da Igreja do Evangelho Quadrangular em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, poucos desejam se comprometer com a obra, porque dá trabalho. “É preciso ter responsabilidade. Só que, atualmente, as pessoas esperam receber de Deus, mas não querem se doar para o Reino”, avalia, acrescentando que, muitas vezes, a falta de unidade contribui. “Muitos justificam não ter afinidade com o líder do ministério, por exemplo, para não colaborar. Não entendem que servir é uma ordenança do Senhor”.

Por outro lado, ele observa que, neste momento, muitos cristãos justificam a pandemia para se esquivarem. “Na verdade já não tinham interesse e, simplesmente, aproveitaram a situação”, assevera o pastor Nilton, que diz estar faltando conhecimento bíblico. “Todos são chamados para a obra, porque Ele nos escolheu. É mandamento, não opção”.

“Servi ao senhor com alegria”

Os pastores e líderes da igreja são peças fundamentais para fazer um cristão sacudir a poeira do comodismo, mostrando que é preciso buscar primeiro o Reino de Deus (Mt 6:33) e não agir como um dos servos da parábola dos talentos (Mt 25:14-30), que escondeu seu talento na terra e depois ouviu de seu senhor: “Servo mau e preguiçoso. Lançai o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes”.

Um dos primeiros passos para sair do comodismo é levantar-se. Jesus quer que seus discípulos sejam verdadeiros soldados da fé, e não apenas números nas igrejas, mas referência de compromisso. Já de pé, o próximo passo é obedecer a ordenança de Jesus citada em Mc 8:34: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me”. Sair do comodismo é sair da multidão, tocar no manto, carregar a cruz, colocar as mãos no arado (Lucas 9).

Com a cruz, a tarefa agora é servir, envolver-se. Não existe falta de mão-de-obra nas igrejas; muito pelo contrário – há e há muita gente especializada, quer seja com talentos, capacidade intelectual, dons naturais como também com dons dados pelo Espírito Santo. O que é escasso é gente disponível, que entenda o chamado e esteja disposta a pagar o preço de ser um servo de Cristo.

Fonte: Rev. Hernandes Dias Lopes

A obra do Corpo de Cristo é realizada pelo Corpo. O serviço da igreja é desempenhado pela própria Igreja. Não deve haver alguns que trabalham, e outros que assistem. Todos devem se envolver.

A Palavra exorta a fazê-lo. A obra da igreja é do tamanho da igreja. Desde o menor ao maior, desde um adolescente a um adulto, desde um office-boy até um empresário, de uma dona de casa a uma médica, todos devem desempenhar o serviço dos santos, o ministério do Corpo de Cristo. Para isso, devemos conhecer qual é este serviço, e como podemos desempenhá-lo.

Uma das estratégias utilizadas pelas lideranças para motivar os membros são projetos como Rede Ministerial, Vida com Propósitos, Igrejas em Células, Igreja com Propósitos e cursos de discipulados variados para jovens, adultos dentre outros. O Rede Ministerial,
por exemplo, procura alocar as pessoas para o ministério de acordo com as características que Deus as concedeu. Ou seja, todos devem servir segundo com o seu Perfil de Servo, o plano de Deus para cada crente no que diz respeito ao serviço no Corpo de Cristo. Este Perfil é composto, no programa, por três elementos: a paixão ministerial, os dons espirituais e o estilo pessoal.

Cristianismo é comprometimento, ligação com Deus, é alegria de trabalhar, de cantar, adorar, pregar. Tantas áreas ministeriais o Pai nos deu como oportunidade de O adorarmos com nossos dons e talentos. Na eternidade, conforme profetizado em Apocalipse 7:15, os adoradores não cansarão de adorar: “E o servem de dia e de noite no seu santuário”. Essa é a alegria do cristão.

Mesmo com a batalha vencida, na eternidade viveremos para adorar a Deus. E no céu não há bancos para os cansados, não há cadeiras para os acomodados. Serão recebidos pelo Pai aqueles que trabalharam pelo crescimento do Reino, para a edificação dos irmãos e não apenas foram espectadores.

 

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