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quinta-feira, 9 dezembro 2021

Por que sofremos tanto se Deus nos ama?

“Deus às vezes usa remédios de gosto amargo para curar os seus filhos”

Por Marlon Max

Uma das poucas certezas que podemos ter na atualidade é que vamos sofrer. Mesmo descartando os problemas trazidos pela pandemia, é muito provável que calúnias, doenças ou outros tipos de adversidades provem sua fé, isso porque a jornada de todo ser humano é marcada por dores, desde gênesis.

De acordo com o psicólogo, escritor e pastor da Igreja Batista de Mata da Praia, em Vitória, no Espírito Santo, Marcelo Aguiar, a maneira como se encara os momentos ruins da vida, passa pelo entendimento de quem somos e quem nos criou. Em momentos de dificuldade, lembramos do amor de Deus e pensamos que ele pode nos retirar do sofrimento imediatamente.

São muitos os cristãos que esperam em Deus uma solução prática e rápida para os problemas. Mas é possível que Cristo use justamente o momento de dor para ensinar seu povo e demonstrar sua graça? Essa é a premissa do livro “O espinho na Carne e a Graça de Deus” de Marcelo Aguiar. Segundo o pastor, por muito anos a propaganda de uma teologia triunfalista impediu o conhecimento da verdadeira essência do que significa ser cristão em
tempos de adversidade.

O americano Tim Hansel disse em seu livro: “a dor é inevitável mas o sofrimento é opcional”. Esse pensamento permeia o imaginário da grande parte dos cristãos que acreditam que Deus existe para aliviar, consolar e retirar “o espinho na carne”, como dizia

Paulo. Para Marcelo Aguiar, Cristo se faz presente no momento de aflição e sabe exatamente como sarar qualquer sofrimento, mas em Sua soberania escolhe justamente esses momentos para edificar e amadurecer seus filhos.

“Nem tudo que acontece é Deus que quer, mas tudo que acontece é Ele que permite. Por exemplo, Deus permitiu que os irmãos de José vendessem ele como escravo. Foi Deus que quis? Não! Deus não quer nada errado, mas Ele permitiu. Porém em Romanos 8:28
diz que ‘todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus’. Logo Deus usou aquela ação errada dos irmãos de José para abençoar não só José mas toda a família”, ressalta o pastor da Igreja Batista da Mata da Praia, no Espírito Santo, Marcelo Aguiar.

Falar sobre sofrimento e tribulações requer sempre um olhar ajustado sobre a realidade e também com as verdades Bíblicas sobre o tema. Por isso, Comunhão conversou com o pastor e psicólogo Marcelo Aguiar, que está lançando seu 18º livro, que aborda de forma profunda os sofrimentos e aflições. Em “O Espinho na Carne e a Graça de Deus”, Aguiar explora a vivência de grandes homens de Deus na bíblia e na história, e mostra como a graça divina atua para manifestar a vontade de Cristo.

Foto: Reprodução

Comunhão — Por que o cristão sofre? Algumas pessoas presumem que Cristo “levou sobre si todas as nossas dores”, e por isso não teríamos mais sofrimentos.

Marcelo Aguiar – Quando a Bíblia diz que Cristo tomou todas as nossas dores e enfermidades, o texto está dizendo que ele suportou tudo isso por nós. Em nenhum momento a Bíblia diz que o crente não vai sofrer, pelo contrário, o próprio Jesus disse: ‘no mundo terei aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo’. Então seria uma contradição Jesus dizer isso, e esperar que, porque ele disse que levou sobre si todas as aflições, nós estaríamos isentos ao sofrimento.

Então essa ideia de que o cristão não deveria sofrer parte de um entendimento equivocado?

Totalmente! O novo testamento diz que ‘importa que por muitas tribulações entremos no reino dos céus’. Paulo diz para Timóteo que todos que viverem fielmente em Jesus Cristo padecerão de perseguições. Então a Bíblia é muito clara ao dizer que o crente será perseguido, terá dificuldades e que sofrerá perdas. Então, voltando a pergunta: por que o crente sofre? Existem principalmente quatro razões.

A primeira razão: a gente sofre porque estamos em um mundo caído. Esse mundo produz espinhos e abrolhos, produz doenças e morte. Desde que o pecado entrou no mundo, o sofrimento entrou no mundo, e é por isso que o crente também pega covid-19, pode ser atropelado, experimenta traição… os espinhos e abrolhos que passaram a existir no mundo ferem o pé tanto dos cristãos quando dos não-cristãos. A gente sofre porque estamos em um mundo imperfeito, só vamos parar de sofrer no céu.

A segundo razão: é por causa dos nossos pecados. Nem todo sofrimento é causado pelo pecado, mas às vezes a gente sofre o que são as consequência dos nossos erros. A Bíblia diz que aquilo que o homem semear, isso também colherá. Sofremos então, muitas vezes, sem necessidade, apenas porque fazemos coisas erradas.

A terceira razão: É a perseguição de satanás que investe contra os filhos de Deus. E o Pai, na sua soberania, permite que o diabo vá até certo ponto. Por exemplo, Deus permitiu que o diabo provasse Jó. Deus permitiu que o diabo colocasse um espinho na carne de Paulo. O próprio Senhor Jesus foi tentado por satanás. Todo crente fiel é perseguido. Mas a Bíblia também diz que “maior é o que está em nós do que aquele que está no mundo”.

A quarta razão: É a disciplina de Deus. A Bíblia diz que Jesus aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que experimentou. Então o sofrimento fez parte da escola de Jesus. Cristo enquanto homem aprendeu e cresceu por meio do sofrimento.

Então o sofrimento é uma disciplina da escola espiritual de qualquer cristão. Deus às vezes usa remédios de gosto amargo para curar os seus filhos. Então, por essas quatro razões, nós podemos esperar sofrimento antes de chegarmos no céu.

Episódios de luta ou perseguição são relatados na Bíblia, o apóstolo Paulo por exemplo foi preso diversas vezes. É da vontade de Deus que tribulações aconteçam?

Nem tudo que acontece é Deus que quer, mas tudo que acontece é Ele que permite. Por exemplo, Deus permitiu que os irmãos de José vendessem ele como escravo. Foi Deus que quis? Não! Deus não quer nada errado, mas Ele permitiu. Porém em Romanos 8:28 diz que ‘todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus’. Logo Deus usou aquela ação errada dos irmãos de José para abençoar não só José mas toda a família.

Deus na sua soberania pode permitir tribulações ou até mesmo permitir que o crente seja martirizado. Vemos isso acontecendo hoje no Oriente Médio, na Coréia do Norte e também aconteceu no primeiro século com Estevão e com todos os apóstolos de Cristo, com exceção de João.

Por muito tempo se ensinou que problemas e tribulações eram indícios da falta de Deus ou até de pecado. Como desmistificar isso?

Com certeza, esse foi o grande erro dos amigos de Jó. Eles começaram a dizer que ele estava em pecado e por isso estava sofrendo tanto. E infelizmente depois de tantos séculos tem gente que se comporta igual aos amigos de Jó.

Como encorajar uma pessoa que está vivendo momentos sombrios?

A maneira como Jesus fez isso com Paulo foi dizendo para ele: a minha graça te basta. Em outras palavras, Jesus estava dizendo a Paulo, eu estou com você. Eu estou no vale com você, e estou passando por tudo isso junto a você. E Cristo não apenas sabe como a gente se sente, mas Ele sabe como a gente vai sair dessa. O convite de Jesus é para segurar na mão dele e confiar. Mesmo que no momento da aflição a gente não veja, tudo tem um propósito. Paulo descobriu que o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. O apóstolo disse: ‘quando estou fraco, então é que sou forte’. Essa é a mensagem de Deus para nós. A graça de Deus basta.

O-espinho-na-carne-frente-1Em seu livro “O espinho na carne e a graça de Deus” você aborda o sofrimento como um caminho para a intervenção de Deus.

No livro, eu começo falando sobre a carne, e essa palavra tanto pode significar
nossa humanidade quanto a nossa inclinação para o mal. E aí vem o espinho que pode nos ajudar a vencer essas más inclinações da carne. Mas isso só vai acontecer, se a graça estiver presente. Entendendo que Deus nos ama e permitir que ele extraia o bem do mal.

Como surgiu a ideia do seu livro?

O propósito de escrever esse livro foi exatamente poder ajudar pessoas que, como o apóstolo Paulo, estão sofrendo injúrias, perdas, perseguições e que às vezes questionam o porquê disso tudo.

… e quanto tempo levou para produzi-lo?

Foi uma produção bem grande, porque eu comecei a escrever esse livro há mais de dez anos, porém ele ficou parado por um certo tempo. Cerca de três anos que a Editora Mundo Cristão me fez o convite para publicar uma obra, e aí eu voltei a esse livro que eu já estava
preparando. Esse é meu primeiro livro pela Mundo Cristão, mas tenho outros 17 títulos publicados pela Editora Betânia.

O livro seria uma boa leitura para quem está em meio a angústia, solidão, dor e outros problemas?

Sim. Esse é um livro que vai ser muito útil para quem está passando por dificuldades
ou até mesmo é um bom presente para dar a quem está em dificuldades, mas de certa forma é muito útil para todos, porque cedo ou tarde todos vão passar por adversidades. Digamos que a medicina preventiva é melhor.

Mesmo após uma década o tema abordado no livro se mantém atual.

Exatamente. É um tema tão profundo e complexo que me levou dez anos para elaborar. Mas em primeiro lugar, o mundo está cada vez mais desumano, mais frio e egoísta e essas coisas adoecem as pessoas. Ao mesmo tempo que isso tudo acontece, a gente vê um esfacelamento da família e dos valores da sociedade. Então por ter muito egoísmo, os filhos não respeitam os pais, os cônjuges não são fiéis uns aos outros, e isso tudo adoece as pessoas.

Mas então a igreja, em geral, educou de forma errada sobre as dores da alma ou até mesmo sobre problemas cada vez mais atuais como depressão e ansiedade?

Durante muito tempo houve esse discurso triunfalista que dizia que crente não chora, não tem depressão e não fica doente … que é anti-Bíblico, e ao contrário do que se espera, é justamente isso que adoece as pessoas. O apóstolo Paulo dizia o seguinte: ‘se vou me gloriar em algo, que seja nas minhas fraquezas’, olha que diferença. Enquanto alguns se colocam como super-homens, ou sobre-humanos, Paulo dizia que era um homem fraco e que só teria glória em suas fraquezas. Isso traz saúde emocional, porque quando o ser humano pode admitir sua fragilidade, isso é saúde. Mas quando ele tenta ser sobre-humano, ou ele se torna um hipócrita ou ele adoece.

Com as redes sociais, tem se tornado cada vez mais frequentes a influência de coaches, ou até mesmo a figura do pastor-coach que reforçam essa abordagem triunfalista e super de independência de Deus.

É muito perigoso quando nós tiramos Jesus do foco. Se tem o evangelho da prosperidade e o irmão gêmeo dele é o evangelho do coach, é porque as pessoas estão deixando de olhar para o evangelho de Cristo. Temos que lembrar da palavra de Jesus em Mateus 6:33: ‘buscai primeiro o Reino de Deus’, creio que esse é o segredo. Antes de querer ir atrás de um sonho e realizar coisas — que não é pecado, é normal — o problema é quando isso vem em primeiro lugar. Se observamos, grandes homens de Deus não tiveram nada disso.

Jesus mesmo falou que ele não tinha onde reclinar a cabeça. Então como se começa a associar a espiritualidade a coisas materiais, se acaba indo na direção oposta daquela que Deus tem. Se o Reino de Deus e o Senhorio de Cristo não estiverem em primeiro lugar, a pessoa vai se atrapalhar na jornada. É nesse momento que as pessoas passam a medir o amor de Deus pelas circunstâncias, e presumir que Deus ama mais aquele que é mais rico. Um absurdo, não é verdade? Quem foi pro céu foi Lázaro e não o homem rico, contado na parábola. Sofrimento e adversidade é algo que atinge todo mundo.

Você contempla que o seu livro poderá ajudar pessoas que não creem em Deus?

Eu creio que sim, porque ali estão princípios espirituais que vão abençoar tanto o crente quanto o não-crente. Acredito que alguém possa ler o livro buscando respostas para seu sofrimento e irá descobrir que há um propósito maior, encontrando em Jesus tanto o salvador quanto o consolador.

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