Pesquisa revelou que um em cada cinco brasileiros não sabe o que foi o Holocausto e 51,60% não conseguem identificar um campo de extermínio nazista
Por Cristiano Stefenoni
Apesar da grande quantidade de pessoas no país que defendem Israel nas redes sociais, poucos conhecem, realmente, a história dos judeus. Uma pesquisa recente revelou que um em cada cinco brasileiros não sabe o que foi o Holocausto e 51,60% não conseguem, sequer, identificar um campo de extermínio nazista, como o Auschwitz-Birkenau, conforme revelou o estudo “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil – 2025”. Mas final, por que chegou-se a esse ponto?
Para o historiador e teólogo, pastor Wagner Augusto Vieira Aragão, esses números não são apenas uma estatística fria: é um sintoma de lacunas profundas na formação educacional e cidadã. Ele diz que, para compreender esse cenário, é preciso mergulhar nas causas, responsabilidades e na importância vital da memória, especialmente sob uma ótica ética e espiritual.
De acordo com Aragão, a ignorância sobre o genocídio nazista no Brasil não ocorre por acaso. Ela é fruto de uma combinação de fatores educacionais e socioeconômicos. Primeiro, porque há um distanciamento histórico e geográfico, ou seja, para muitos brasileiros, a Segunda Guerra Mundial é vista como um evento ‘europeu’, distante da nossa realidade tropical.
“Embora o Brasil tenha enviado a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália, o ensino de história nas escolas muitas vezes prioriza a história nacional em detrimento de uma compreensão profunda dos conflitos globais do século XX”, ressalta.
Segundo porque há uma aceleração digital e um aumento da superficialidade. “Vivemos na era da informação rápida, mas rasa. O consumo de conteúdo via redes sociais fragmenta o conhecimento. Se o algoritmo não entrega o assunto, o jovem não o busca. O Holocausto exige leitura, reflexão e tempo para ser compreendido – artigos de luxo na ‘economia da atenção’”, enfatiza.
Sistema educacional é o principal responsável pelo baixo conhecimento
Para o historiador, a desigualdade no ensino também impacta nesse desconhecimento da história judaica. “A qualidade do ensino de história varia drasticamente. Em muitas escolas com recursos escassos, o currículo é comprimido, e temas complexos como o totalitarismo e o extermínio sistemático de judeus (e outras minorias) acabam sendo abordados de forma sumária ou totalmente ignorados”, justifica.
Além disso, Aragão o sistema educacional é o principal responsável pela formação superficial dos brasileiros. “Se um aluno sai do Ensino Médio sem saber o que foi Auschwitz, o currículo falhou. Há uma necessidade urgente de reformular como o século XX é ensinado, não apenas como datas e batalhas, mas focando nas consequências humanas das ideologias de ódio”, enfatiza.

Outro ponto abordado pelo teólogo, é a ausência de cultura de memória do país. “O Brasil, como nação, tem dificuldade em lidar com suas próprias memórias traumáticas (como a escravidão e a ditadura). Essa falta de hábito em ‘revisitar o passado para não repeti-lo’ transborda para a história mundial. Mas a responsabilidade também recai sobre as famílias e a mídia, que muitas vezes falham em manter viva a discussão sobre tolerância e direitos humanos fora do ambiente escolar”, pontua.
Na opinião de Aragão, manter a memória do Holocausto viva é essencial por várias razões. “É uma vacina contra o ódio. O Holocausto não começou com câmaras de gás; começou com palavras, piadas preconceituosas e segregação. Lembrar é aprender a identificar os sinais de alerta em nossa própria sociedade antes que eles se tornem violência física”, ressalta.
Também seria uma proteção da democracia. “O nazismo ascendeu dentro de um sistema democrático frágil. Estudar esse período nos ensina a valorizar e proteger as instituições democráticas contra populismos e autoritarismos”, explica o teólogo, que emenda:
“Lembrar o Holocausto é defender a dignidade de todo ser humano contra a barbárie. Embora o alvo principal fossem os judeus, a máquina de morte nazista também visava ciganos, deficientes, homossexuais e dissidentes políticos”, enfatiza.
Contudo, o historiador destaca que, para os cristãos, especificamente para o segmento evangélico, a memória do Holocausto deve ir muito além do conhecimento histórico; é uma questão de identidade espiritual e dever moral.
“O Cristianismo nasceu do Judaísmo. Jesus, os apóstolos e os primeiros discípulos eram judeus. O Holocausto foi uma tentativa de exterminar o povo através do qual a Bíblia diz que veio a ‘salvação’ (João 4:22). Ignorar o sofrimento judeu é ignorar o sofrimento dos ‘irmãos mais velhos’ na fé”, lembra Aragão.
Além disso, há o perigo da propagação do antissemitismo. “Historicamente, distorções teológicas foram usadas para justificar o ódio aos judeus na Europa. O cristão moderno tem o dever de corrigir isso, posicionando-se radicalmente contra qualquer forma de antissemitismo, reconhecendo que o ódio ao judeu é, em última análise, um ódio às raízes da própria fé cristã”, alerta o pastor, que conclui:
“A Bíblia ordena repetidamente a defesa do oprimido e o amor ao próximo. O Holocausto é o exemplo máximo de injustiça humana. O cristão deve olhar para esse evento com um coração quebrantado, orando pela paz e atuando como um agente de reconciliação, garantindo que a Igreja seja sempre um refúgio de proteção, e nunca mais de silêncio ou omissão”.
Nem todas as vítimas judaicas do Holocausto foram mortas em câmaras de gás. Embora esse método tenha sido amplamente utilizado pelos nazistas, ele não representou a totalidade das mortes. Estimativas indicam que mais de dois milhões de judeus foram assassinados em fuzilamentos em massa, sobretudo em áreas da União Soviética ocupadas. Além disso, a fome, as doenças e as condições extremas de vida nos guetos e nos campos de concentração e extermínio também estiveram entre as principais causas de morte.
A pesquisa foi encomendada pela Confederação Israelita do Brasil, pelo Memorial do Holocausto de São Paulo, pelo Museu do Holocausto de Curitiba e pela StandWithUs, e conduzida pelo Grupo ISPO. Foram 7.762 entrevistas, em 11 regiões metropolitanas brasileiras, com uma margem de erro de 4,7% e índice de confiança de 95%. Desse total, 54,2% mulheres foram de mulheres e 31,4% jovens de 18 a 29 anos, 51,8% tinham ensino médio e 54,4% possuíam renda familiar de até dois salários-mínimos.
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