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quarta-feira, 8 dezembro 2021

Por que a fome no Brasil é um problema da Igreja?

“Tem uma frase de Madre Tereza de Calcutá. Ela pergunta: Quer promover a paz mundial? Vá para casa e ame sua família”

Por Marlon Max

No Brasil, atualmente milhões de pessoas não têm o que comer com a pandemia, a de insegurança alimentar das famílias se agravou. É o que aponta um estudo realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB), com financiamento do governo alemão, e divulgada em abril de 2021.

Segundo a pesquisa, 59,4% da população enfrentava no final do ano passado algum grau de insegurança alimentar, o equivalente a um total de 125 milhões de pessoas. O resultado mostra a aceleração do aumento da fome no Brasil, que tinha voltado a crescer mesmo antes da pandemia em um contexto de crise econômica e desmobilização de políticas públicas de segurança alimentar.

Comunhão conversou com o economista Leandro Monteiro e fundador do Movimento ETUS – que busca promover a renovação política, engajamento cívico e educação no meio evangélico brasileiro — para entender de que forma o conceito de justiça social, caridade e auxílio podem mudar a percepção da igreja em relação ao grave problema da fome no Brasil. Confira!

Comunhão — O que se entende pelo termo Justiça Social. E porque a Igreja deve atuar nessa área?

Leandro Monteiro — Justiça social é, antes de tudo, um mandamento cristão. Jesus explicita o que está implícito no primeiro mandamento, haja vista que não há como amar a Deus sem buscar incondicionalmente a justiça. De forma pedagógica e reincidente, o que é raro de ver nas Escrituras, Jesus é categórico em nos convocar ao amor social.
O papel da igreja, portanto, é ser um manancial de virtudes. É apresentar-se a sociedade como um pilar confiável, transparente e orientado a justiça. Além do campo cultural, que é primordial, a igreja brasileira tem em sua missão ser instrumento de reparo social. Se cada igreja brasileira, em sua comunidade, entender o seu papel local, certamente teríamos a maior revolução social que este país já viu.

Algumas correntes cristãs fazem práticas de caridade com frequência. Isso é considerado justiça social?

Caridade é um importante elemento de reparo social. É uma ferramenta indispensável para aliviar as dores, em especial, de uma população tão sofrida quanto a brasileira.
A caridade pode ser uma armadilha, no sentido que oferece ao doador um sentimento de “missão cumprida”. Devemos doar quantas cestas básicas quanto for possível, entretanto nada é mais poderoso do que o interesse real pela vida humana. Enxergar a fragilidade do próximo ou de um grupo social, endereçando respeito e amor é o que a sociedade brasileira mais precisa.

pessoa em situação de rua
População de rua não tem a opção de manter o isolamento social. Estão mais expostos à covid-19 e vulneráveis quanto à insegurança alimentar – Foto: Tânia Rego/ Agência Brasil

Em dezembro de 2020, a insegurança alimentar atingiu 59,4% dos domicílios brasileiros. Qual é o papel da igreja e/ou do cristão diante de dados tão expressivos e se tratando de algo tão trivial quanto alimentação?

A igreja tem dois papéis. O primeiro é, parafraseando o Pastor Batista Martin Luther King, ser a consciência do Estado. O segundo é ser um instrumento logístico para o reparo social. Os milhões de evangélicos, em milhares de igrejas, alcançam cada cidade desse país. Arrisco a dizer que não há um 2 km² urbano sem uma igreja. Cada igreja tem o dever de ajudar quem passa fome. Mesmo as igrejas mais humildes devem dividir o pouco que tem, basta lembrar de Mateus 25: 35-45.

O que é o ETHUS e o que o movimento pretende alcançar?

O Movimento ETUS é organização cívico-cristã, fundamentada nos ensinamentos de Jesus, que utiliza a história do pastor batista americano Martin Luther King como recurso pedagógico. A palavra ETUS é o acrônimo da célebre frase de Eu Tenho Um Sonho. Assim, nosso sonho é que os evangélicos brasileiros contribuam em nível local e nacional para uma mais justa e fraterna. Estamos em busca de líderes capazes de atuar como: educador político, político, agente cívico e líder político. Em setembro (de 2021) lançaremos um novo processo seletivo para formar essas novas lideranças.

Como cristãos não engajados com justiça social podem iniciar?

Tem uma frase de Madre Tereza de Calcutá que gosto muito. Ela pergunta: Quer promover a paz mundial? Vá para casa e ame sua família. No limite, quanto mais eu cuidar das pessoas que estão ao meu redor, mais diferença social eu faço. A igreja precisa voltar-se para seu redor, conhecer sua realidade e lutar por justiça e por reparo social. Por exemplo, a igreja deve acolher a mulher vítima de violência doméstica. Isso é um reparo social. Mas é necessário compreender que 40% das mulheres vítimas de agressões físicas e verbais são evangélicas. Justiça social é quando a igreja exerce seu poder moral para repudiar veementemente esse tipo de violência.
Olhar para os problemas locais é certamente o caminho para se envolver de modo pragmático com as causas sociais. Porém, se queremos ver transformações contundentes em nossa sociedade, é necessário que manifestemos nossa consciência social através do voto e da boa política.

Como uma comunidade de fé pode ser ativa na causa dos vulneráveis? E se não dão, é por falta de entendimento.

A questão chave para termos uma comunidade de fé ativa é a compreensão da sua identidade cristã. Conhecer o evangelho genuinamente é fundamental para que tenhamos uma igreja que promova a justiça social, e isso perpassa para além da teologia. É necessário que nossa igreja não se perca por causa do entendimento.

Não podemos cair na cilada da politização, pois dividir o país em esquerda ou direta é uma artimanha maligna. Está em curso uma tentativa subversiva de enquadrar tudo aquilo que pensa no próximo como um plano comunista ou de esquerda. Por óbvio, valores relacionados à direita podem estar alinhados ao evangelho, assim como valores da esquerda também podem. Só vamos ter um país próspero, quando tivermos uma igreja vibrante e orientada ao reparo social e, claro, a justiça social.

Leandro Monteiro é evangélico, de formação Batista. Estudou economia na UFG, Liderança e Gestão Pública no CLP e Harvard Kennedy School e cursa a etapa final do mestrado em cidades da London School of Economics.
Em 2017, fundou o Movimento ETUS para promover a renovação política, engajamento cívico e educação no meio evangélico brasileiro.

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