A exposição à poluição do ar durante o primeiro ano de vida pode aumentar o risco de obesidade infantil ao comprometer o desenvolvimento de áreas do cérebro responsáveis pelo controle dos impulsos. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Communications Medicine, do grupo Nature, que identificou uma relação entre partículas finas presentes no ar, conhecidas como PM2,5, e alterações cognitivas associadas ao ganho de peso na infância.
Os pesquisadores explicam que o PM2,5 é formado por partículas microscópicas provenientes principalmente da queima de combustíveis fósseis, emissões industriais e queimadas. Por serem extremamente pequenas, essas partículas conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, provocando diversos efeitos prejudiciais ao organismo.
A pesquisa acompanhou 434 crianças participantes da coorte PROGRESS, na Cidade do México. Os cientistas estimaram a exposição das crianças ao PM2,5 durante a gestação e no primeiro ano de vida. Aos quatro anos de idade, os participantes realizaram testes para avaliar o chamado controle inibitório, habilidade cognitiva responsável por controlar impulsos e tomar decisões de forma mais consciente. Em seguida, entre os quatro e oito anos, foram monitorados indicadores como índice de massa corporal (IMC) e percentual de gordura corporal.
Os resultados mostraram que crianças expostas a maiores concentrações de PM2,5 no primeiro ano de vida apresentaram mais dificuldades para controlar impulsos, fator que esteve associado a um aumento do IMC e da gordura corporal ao longo da infância. Segundo os autores, o controle inibitório funcionou como um mecanismo que explica parte da ligação entre a poluição e o desenvolvimento da obesidade.
Já a exposição durante o período gestacional não apresentou a mesma relação mediada pelas funções cognitivas, indicando que os primeiros meses após o nascimento podem representar uma fase especialmente sensível para o desenvolvimento cerebral.
Neurotoxinas podem afetar o desenvolvimento do cérebro
De acordo com os pesquisadores, as partículas PM2,5 exercem efeitos neurotóxicos, interferindo no desenvolvimento de regiões cerebrais ligadas às funções executivas. Entre elas está justamente a capacidade de resistir a impulsos, habilidade importante para regular comportamentos relacionados à alimentação.
Na prática, crianças com menor controle inibitório podem apresentar maior dificuldade para resistir ao consumo excessivo de alimentos altamente calóricos ou ultraprocessados, aumentando a probabilidade de ganho de peso ao longo dos anos.
Os autores ressaltam que a obesidade infantil é resultado de múltiplos fatores, como alimentação, atividade física, genética e condições socioeconômicas. No entanto, os achados indicam que a poluição do ar também deve ser considerada um fator ambiental capaz de influenciar esse processo.
Impacto para a saúde pública
Os pesquisadores defendem que reduzir a exposição de bebês à poluição atmosférica pode trazer benefícios que vão além da saúde respiratória e cardiovascular, contribuindo também para um desenvolvimento neurológico mais saudável e para a prevenção da obesidade infantil.
O estudo reforça a importância de políticas públicas voltadas à melhoria da qualidade do ar, especialmente em grandes centros urbanos, onde os níveis de PM2,5 costumam ser mais elevados. Além disso, os autores sugerem que futuras pesquisas investiguem estratégias para minimizar os impactos da poluição sobre o desenvolvimento infantil e a saúde ao longo da vida.


