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segunda-feira, 15 DE julho DE 2024

Polarização política impacta igrejas

Debates entre ideologias de direita e esquerda têm reflexos nas relações, até mesmo entre evangélicos. Pastores apontam caminho de amor, paciência e respeito para evitar brigas, sempre de acordo com o Evangelho

Por Daniel Hirschmann

A polarização político-ideológica que tomou o país, principalmente após as últimas eleições presidenciais, não tem se limitado às ruas e praças das cidades ou aos debates acalorados nas redes sociais e com as “tias” do WhatsApp. Se ali amigos e familiares já andam se digladiando e até mesmo rompendo relações devido a posicionamentos divergentes entre “políticas de direita e esquerda”, algo semelhante vem acontecendo no ambiente evangélico, entre irmãos em Cristo.

“Muitas igrejas sofreram divisões. Acho que não tem nenhum pastor que eu conheço que não tenha sofrido isso, dentro da própria liderança, da cúpula de liderança da igreja, até dentro de equipes pastorais. Então, se tornou um grande problema, causando rupturas e divisões”, observa o diretor-executivo da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, Cassiano Batista da Luz.

Segundo ele, esse problema tomou conta da sociedade brasileira como um todo e não é diferente na igreja, porque o que acontece na igreja, na verdade, é o que está acontecendo no restante da sociedade. Pode haver peculiaridades próprias desse ambiente, mas que refletem o que acontece lá fora. “A gente nunca tinha visto nada parecido com o que está acontecendo agora em termos de polarização, e eu acho que os motivos são os
mesmos que afetam o restante da sociedade – os motivos psicológicos, sociológicos”, relata.

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Dois extremos na igreja

Cassiano Luz entende que há alguns problemas que derivam disso. Um deles é o fato de alguns pastores e líderes assumirem uma posição política muito clara e levarem posicionamentos tão extremados e específicos para o púlpito. “Uma coisa é falar em princípios bíblicos e cristãos; outra coisa é você assumir e ser partidário, assumir um lado da briga, da disputa que está acontecendo. Esse foi e tem sido um problema sério”, avalia.

Outro problema é dizer que a igreja não tem nada a ver com política e que política não se mistura com religião ou com Evangelho, o que seria o outro extremo desse posicionamento. “Pessoalmente, e posso dizer como Aliança Evangélica, a gente é contra esse posicionamento tão específico de você levar nome de candidatos, por exemplo, para o púlpito da igreja – ou o próprio candidato –, mas a política é parte da vida de todo mundo e dizer que se é apolítico também é um posicionamento político”, comenta. “Então, a gente precisa, sim, ter uma educação política dentro do nosso ambiente eclesiástico também. A questão é como que se faz isso. Esse que é o grande desafio.”

O que causa essa dificuldade, de acordo com o diretor da Aliança Evangélica, é que só pelo fato de se citar determinados temas, ou de se usar certos termos, pastores e líderes já são identificados como se tivessem um posicionamento político específico. “O que é um grande absurdo”, lamenta Cassiano, que também é diretor-executivo da Agência Sepal (Servindo aos Pastores e Líderes).

“A pauta da igreja é a justiça, a fraternidade, o amor fraterno. Essa pauta, esse posicionamento, já foi dado por Cristo.” Ricardo Bitun, pastor da Igreja Manaim
“A pauta da igreja é a justiça, a fraternidade, o amor fraterno.
Essa pauta, esse posicionamento, já foi dado por Cristo.”
Ricardo Bitun, pastor da Igreja Manaim

Pautas do Reino

Para o pastor da igreja Manaim, Ricardo Bitun, o posicionamento cristão deve sempre envolver causas concernentes à justiça e que fazem coro às pautas do Reino de Deus.

“Tudo aquilo que forem causas ligadas ao Reino dos Céus a igreja está junto. Se alguém se levantar a favor da vida, se alguém se levantar contra a violência, a igreja se posiciona. Por quê? Porque coincide com os valores do Reino de Deus”, pontua.

Não é a esquerda ou a direita, portanto, que leva a igreja a se posicionar, mas a pauta e a agenda estabelecidas por Jesus, opina Bitun. “A pauta da igreja é a justiça, a fraternidade, o amor fraterno. Essa pauta, esse posicionamento, já foi dado por Cristo”, frisa ele. “Se quiser simplificar, poderia ser a pauta do Sermão do Monte, como está lá no livro de Mateus. Então, são os perseguidos, os pacificadores, aqueles que têm fome e sede de justiça.”

Ele salienta que não se trata de um “pacote fechado”, seja com agendas da esquerda, da direita ou do centro. “Nós não compramos o ‘pacote fechado’, não há um ‘pacote’ que resuma todos os valores do Reino, porque já estão estabelecidos no Evangelho.
Então, a igreja defende esses valores”, afirma o pastor.

Valores contrários

Por outro lado, se houver uma agenda com qualquer outro valor que seja avesso aos do Reino, a igreja deve se posicionar de maneira clara. “Se vier alguém defendendo uma ditadura, uma violência, menos educação, vamos matar os pobres ou alguma coisa assim, a igreja já tem muito claros os seus valores, a sua agenda”, ressalta Bitun.

“A gente precisa se posicionar e as pessoas precisam entender isso e, ao mesmo tempo, não romper os laços com a família por conta dessa posição.” - Rodrigo Mocellin, pastor da Igreja Resgatar
“A gente precisa se posicionar e as pessoas precisam entender isso e, ao mesmo tempo, não romper os laços com a família por conta dessa posição.” – Rodrigo Mocellin, pastor da Igreja Resgatar

Essa é a visão que o pastor Rodrigo Mocellin, da Igreja Resgatar, em Guaratinguetá (SP), defende ao se posicionar contra temas que fazem parte das discussões e que “são contra a fé cristã”.

“Não é uma posição política, é uma posição cristã. Eu sou contra o aborto, eu sou contra o movimento LGBT como estratégia para tornar o mundo gay, inclusive as crianças. Eu não posso ser favorável a isso”, afirma.

Com mais de 570 mil seguidores em seu canal do Youtube e outros 200 mil no Instagram, ele sustenta que pastores precisam pregar, por exemplo, que o aborto é errado, pois fere o mandamento bíblico de não matar, ou que a distribuição de renda com base em tirar dinheiro e punir quem produz é roubo – e, portanto, também contraria os mandamentos de Deus.

Para Mocellin, que já sofreu (e venceu) cinco processos por seus posicionamentos, três deles sob acusação de homofobia, esses são exemplos de doutrinas defendidas pela esquerda, ligadas ao comunismo, que vão contra a fé cristã.

Polarização política impacta igrejasDiversidade de agendas

Essa ligação, porém, não está tão clara para o pastor Ricardo Bitun, que também é professor do Centro de Educação, Filosofia e Teologia (CEFT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Ele lembra que em países como Cuba, Rússia e Coreia do Norte, que são regimes mais à esquerda, os transsexuais, homossexuais e homoafetivos são perseguidos. “Ali é um regime à esquerda, mas não se fala em casamento de pessoas do mesmo sexo, homem com homem ou mulher com mulher”, pondera.

Já nos Estados Unidos, isso é liberado em lugares como a Costa Leste, Califórnia e Nova Iorque. “Mas lá é um país cristão, democrático, capitalista. Pois é, as pautas fortes estão lá.

Então, você percebe como está misturado? Não tem um bloco fechado, uma cerca muito bem estabelecida”, acrescenta Bitun.

Envolvido diretamente com a ajuda aos desabrigados da enchente no Rio Grande do Sul, o pastor Cassiano Luz cita a questão climática como exemplo de pauta que costuma ser atribuída apenas a um lado do espectro político. “Isso é consequência, é a ponta do iceberg de um problema muito mais amplo e muito mais profundo, que tem a ver com a mudança climática do planeta. Agora, quando você fala, quando só cita esse termo ‘mudança climática’, isso já é associado automaticamente com uma pauta progressista de esquerda, o que é um grande absurdo”, diz.

O diretor-executivo da Aliança Evangélica conta que a entidade estuda formas de levar esse tema para dentro da igreja, sem que seja “associado a uma ideologia política X ou Y, mas sim a uma questão que é cara e central e fundamental do próprio Evangelho, da própria revelação divina, que nos coloca como zeladores da criação, como cuidadores da criação”.

Unidade e cooperação

O mentor e coach cristão Onesino Nascimento vê com bons olhos a possibilidade de se unir agendas das ideologias polarizadas, encontrando-se um espaço de unidade e cooperação, com lugar para posições diferentes e até divergentes nas famílias e igrejas. “Desde que todos caminhem guiados pelo Espírito de Deus, para a unidade do espirito”, aponta.

Com décadas de vivência como pastor e líder de igrejas e instituições ligadas à Convenção Batista Brasileira, Onesino entende que a igreja não deve assumir uma ideologia política, porque política e religião são realidades de naturezas distintas. “A política lida com a vida em sociedade, isto é, lida com a coisa pública, coletiva, temporal, enquanto a igreja lida com o ambiente espiritual, onde a pessoa cumpre a missão de adorar a Deus, cuidar de seu próprio ser e servir ao próximo”, explica.

Ele vê a doutrina da salvação como fundamental, nesse sentido, porque visa à restauração do mundo criado, incluindo a regeneração do ser humano para que alcance a plenitude da vida. “A pessoa regenerada tem a capacidade de viver segundo as leis que Deus plantou no ser humano. É a pessoa que, no exercício de sua liberdade, escolhe o seu caminho.

Liberdade com responsabilidade sobre o bem comum e o direito do próximo”, afirma. “Viver assim requer respeito, dignidade e integridade.”

Se é possível aproximar diferentes pautas no ambiente evangélico, também há condições de a igreja avançar no campo político. Ricardo Bitun observa que alguns crentes, inclusive pastores, são levados para esse segmento e aparecem como “teólogos públicos”, ocupando cargos de vereadores, prefeitos, governadores e até ministros – assim como José, Daniel e Neemias, na Bíblia.

São homens específicos para o campo político, da mesma forma que outros atuam nas áreas da saúde, da educação ou das mídias, por exemplo. “Há um papel, mas a igreja não é toda ela médica, a igreja não é toda ela ligada às pautas políticas, ou às pautas da ação social, ou qualquer outra coisa”, explica.

Sem romper relações

Um ponto que se sobressai é de que a polarização não deve ser motivo para romper relações com familiares, amigos e irmãos. Mesmo quando há posicionamentos divergentes declarados. “Obviamente, isso não deve nos levar a romper os laços com a nossa família. A gente precisa se posicionar e as pessoas precisam entender isso e, ao mesmo tempo, não romper os laços com a família por conta dessa posição”, observa o pastor Rodrigo Mocellin, salientando que é preciso “ter amor e paciência” e, talvez, evitar falar sobre certos temas “no almoço de domingo”, por exemplo.

Onesino Nascimento, que hoje lidera o movimento Paz Entre Nós, observa que a própria ética bíblica, que norteia o cristão, parte do conceito de resposta a Deus, em amor. “O que um cristão faz em favor do próximo deve ser uma extensão do amor que ele recebe de Deus. Recebe e compartilha”, ensina.

A partir dessa compreensão, portanto, não devem existir polarizações nos posicionamentos político-sociais, mas sim a participação em liberdade, com respeito, justiça e compaixão.

Segundo ele, a igreja proporciona o ensino para se viver em sociedade como bons mordomos dos bens e da vida. “Vivemos em cooperação e não competição. Cada pessoa deve ser um agente da paz com respeito, diálogo e busca de uma visão focada no bem comum”, incentiva.

Matéria publicada na edição número 317, de junho de 2024, da Revista Comunhão.  

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