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quinta-feira, 18 agosto 2022

O perigo está dentro e não fora

Cuidado! É na mente de cada indivíduo que os perigos imaginários criam medos e doenças reais

Por Lília Barros

A respiração está ofegante, o coração disparou, mãos e pés não conseguem permanecer quietos e os pensamentos são catastróficos. A cena é assustadora, mas não há nenhuma situação intimidadora nem perigo iminente.

Os exames clínicos também não indicam qualquer doença, mas o sofrimento é de quem está prestes a morrer se nada for feito de imediato. Essa preocupação acima do normal com coisas que nem chegam a se concretizar está se transformando em pandemia da ansiedade, um transtorno generalizado que avança sem piedade contra todos os tipos de pessoas.

A terapeuta comportamental e membro da Igreja Metodista Central, em Cabo Frio (RJ), Keila Assis afirma que as características comuns desse transtorno são o medo e a ansiedade persistentes que se apresentam de forma desproporcional à situação que se enfrenta. “O ansioso subestima a capacidade de enfrentamento e superestima o perigo. Os sintomas incluem pensamentos sobre perigo ou coisas ruins acontecendo com as quais ele não será capaz de lidar adequadamente. Os pensamentos frequentemente começam com ‘E se?’ (e se eu contrair a doença? E se meu pai morrer? E se eu não conseguir o emprego? E se o avião cair?) e contêm o tema ‘algo terrível vai acontecer, e não serei capaz de enfrentar’”, ela explica.

“Paulo chegou a afirmar que passou provações duras e acima das forças, a ponto de perder a esperança até da própria vida” – Gilberto Celeti, escritor e teólogo

Quem experimenta isso na pele é o advogado e fisiculturista Guilherme Vasilakis. “É um sentimento de agonia, desespero, com taquicardia e respiração ofegante. O que eu penso sobre algo que pode vir a acontecer me causa esses sintomas. Faço psicoterapia e tomo remédio ansiolítico. Quando busco estar mais próximo de Deus, o coração se acalma e os níveis de ansiedade se estabilizam”, relata.

Segundo Keila Assis, nos últimos anos houve um aumento significativo de casos de ansiedade.

“De acordo com a Organização Mundial da Saúde, esses casos cresceram em 25%, sendo mais frequentes em jovens e mulheres. Isso se atribui ao estresse causado pelo isolamento social, perda de emprego, de vínculos com parentes e amigos e dificuldades no envolvimento com a comunidade. O medo de contrair a Covid, a solidão, a intensificação do luto e preocupações financeiras foram fatores que levaram à ansiedade e à depressão”.

Genética ou ambiente?

O transtorno de ansiedade pode ter fatores biológicos, de acordo com a psicóloga Jasmine Monteiro Vasilakis: “É comum que indivíduos da mesma família tenham um histórico de ansiedade entre as gerações. No entanto, o ambiente é o maior influenciador para desenvolver o transtorno de ansiedade, apesar do aspecto biológico. Dificilmente temos crianças ansiosas sem que seus pais também sejam”.

Bernardo (nome fictício) supõe que desenvolveu o transtorno de ansiedade aos 12 anos, quando mudou de cidade com a família. “Foi quando tive minha primeira crise, um sentimento de desespero que me deixa desfocado da realidade e só consigo pensar naquilo que me deixa ansioso”.

Jasmine afirma que as pesquisas científicas sobre o tema mostram que as mulheres tendem a sofrer mais de ansiedade do que os homens. “Os fatores ainda são desconhecidos, mas há indícios de que as questões hormonais possuem influência nessa predominância. Além disso, a mulher exerce inúmeras atividades, o que pode despertar crises de ansiedade e desenvolvimento do transtorno”.

Keila acrescenta que existem estudos que apontam que a hereditariedade responde por apenas 27% dos casos e que uma das influências ambientais mais importantes para as crianças é a família, pois fornece um contexto dentro do qual o comportamento ansioso pode ser modelado ou reforçado. As pessoas ansiosas têm mais probabilidade de prestar atenção seletiva a sinais de perigo ou ameaça, devido a pressuposições ou crenças particulares que elas adquiriam durante um período inicial de suas vidas.

“Algumas pessoas têm uma predisposição genética para o transtorno de ansiedade, mas não chegam a desenvolvê-lo. O que se sabe é que o neuroticismo (tendência a experimentar facilmente as emoções desagradáveis frente a eventos comuns da vida – raiva, medo, entre outros), inibição comportamental e timidez (quando esta impacta significativamente o funcionamento social) podem ser considerados como fatores de risco para o transtorno”, ela esclarece.

Aqui e agora

Especialistas afirmam que ao perceber o início de uma crise de ansiedade, o que o indivíduo pode fazer de imediato é buscar estar no momento presente, no aqui e agora. Isso significa focar no que está sendo feito, sem remoer o que aconteceu no passado, ou ficar pensando no que poderia acontecer no futuro. Uma boa maneira é prestar atenção a pelo menos um dos cinco sentidos para reforçar a conexão com o momento presente. Ouça os sons ao seu redor, das aves, pessoas, carros, cachorro por exemplo; observe o que acontece à sua volta; sinta as texturas do que está próximo a você; durante as refeições, aprecie o sabor do alimento.

A terapeuta Keila Assis considera que, na maioria dos casos, a ansiedade se desenvolve dentro do contexto das pressões, demandas e estresses da vida diária. “Se estamos tão apreensivos que deixamos de viver o momento presente, se estamos sempre pensando no depois, na próxima tarefa, precisamos acender o sinal de alerta e procurar ajuda de um profissional.

A própria Bíblia nos orienta assim, em Provérbios 4:23 “Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos”. Portanto, examine a validade das interpretações que o levam a experenciar a ansiedade e o medo: elas podem não ser válidas e, muitas vezes, não o são. Quando fizer interpretações exageradamente catastróficas, revise! Dê-se o benefício da dúvida: o que estou pensando pode ser, mas também pode não ser. Vou aguardar mais informações”.

Jasmine explica que durante a crise inúmeros pensamentos bombardeiam a nossa mente, mas “Deus disse para eu me preocupar ou para eu confiar? Deus disse para eu me agitar ou para eu descansar? Lembrando que não somos apenas espírito, temos uma alma e um corpo que precisam de cuidados. Muitas pessoas acabam espiritualizando demais as coisas. A Psicologia estuda as emoções e elas estão em nossa alma que, quando adoecida, precisa de tratamento. As crises de ansiedade começam com os pensamentos”.

O escritor e teólogo Gilberto Celeti, de São Paulo, aponta um texto bíblico para aliviar os pensamentos ansiosos: “Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, seja isso o que ocupe o pensamento” (Fp 4:8).

Ele lembra os momentos de ansiedade e tribulação vividos pelo apóstolo Paulo e por Jesus. “Paulo chegou a afirmar que passou provações duras e acima das forças, a ponto de perder a esperança até da própria vida” (2 Co 1:8). Você pode imaginar o quanto ele deve ter ficado ansioso?  Jesus também falou: ‘No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo’” (João 16:33).

Os impiedosos

Cada um possui suas próprias limitações, por isso, as situações podem ser diferentes para cada pessoa. O problema se agrava quando, em vez de oferecer conforto, se julga ou subestima alguém que afirma estar ansioso diante de um cenário considerado normal. 

O pastor e missionário na Universidade da Família, em Pompéia-SP, Dinart Barradas, dá exemplos clássicos de ansiedade sem gravidade, como a sensação nos dias que antecedem as férias, um discurso de formatura, o início de um novo trabalho.

“Cada pessoa tem seu limite, sua capacidade de suportar pressão e adversidade em graus diferentes” Dinart Barradas, pastor e missionário

“Tão logo esses eventos aconteçam, é de se esperar que a ansiedade desapareça. O texto de Filipenses 4:5 usa o verbo ‘andar’ no sentido de estado permanente de ansiedade. Este é o problema. Vivemos em um ambiente cristão que facilmente perde a empatia com quem sofre e rotula impiedosamente todo e qualquer comportamento que não se encaixa no estereótipo do ‘é só vitória’. Cada pessoa tem seu limite, sua capacidade de suportar pressão e adversidade em graus diferentes. Tentar minimizar a dor e o sofrimento alheios está desprovido do princípio bíblico de ‘chorar com os que choram’, ou seja, ter empatia. Prefiro oferecer o ombro para amparar, o coração para compreender quem sofre de ansiedade, a permitir que esse quadro evolua para a sensação de abandono, indiferença e julgamento, o que em hipótese alguma ajuda a quem sofre. Eli errou na sua avaliação sobre Ana ao julgar que ela estava embriagada. Os amigos de Jó erraram ao tentar diagnosticar a causa do sofrimento extremo de Jó. Nenhum deles sofria de problema espiritual, embora estivessem em profundo estado de sofrimento. Nem toda ansiedade é patológica ou espiritual”, argumenta.

Saúde pública

Uma das formas de reduzir o número crescente de pessoas com ansiedade é a educação para a gestão das emoções, que se configura como um pilar essencial na vida a ser priorizado por todos, inclusive pelo poder público. A psicóloga Jasmine defende o tema saúde emocional em outros ambientes que não sejam apenas os consultórios.

“O ambiente afeta significativamente a saúde emocional das pessoas. Se eu moro, trabalho ou estudo em um ambiente com pessoas ansiosas, a chance de eu desenvolver ansiedade é maior. Podemos ensinar inteligência emocional nas escolas, inserir na grade curricular. Temos excelentes profissionais que não conseguem gerenciar suas emoções nem ter bons relacionamentos interpessoais e isso afeta todo o resultado final. Temos jovens extremamente estudiosos e dedicados a passar em um vestibular, concurso ou em um exame da OAB, por exemplo, porém não conseguem controlar suas emoções e não têm sucesso nas aprovações, apesar de saberem todo o conteúdo.”

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