Pedofilia: o triste silêncio dos inocentes

Todos os anos, milhares de crianças são vítimas de abuso sexual. E na maioria dos casos, os agressores são pessoas “acima de qualquer suspeita”

Por Rafael Ramos

Patrícia Vergasta era uma menina muito feliz ao lado da família. Mas essa harmonia se quebrou quando a irmã mais velha foi internada no hospital e precisou ser acompanhada pelos pais. A caçula, então, ficou sob o cuidado de parentes em um ambiente seguro… Pelo menos era isso que todos pensavam.

Aos 4 anos, a pequena garota jamais imaginaria estar a caminho da experiência que a marcou para sempre. Certo dia, enquanto brincava com os dois primos no quintal da tia, um tio de consideração apareceu. Primeiramente de forma gentil, mas aí começaram beijos que a deixaram confusa. “O que estava acontecendo?” e “Por que ele fazia aquilo comigo e ainda me ameaçava se contasse o que fazíamos em segredo para alguém?” eram algumas das perguntas que passavam pela mente da criança.

“Ele me perseguia onde eu estava. Eu era uma criança dócil e carinhosa e fiquei muito retraída. Quando fiz 10 anos, comecei a entender o que ele fazia comigo e me senti culpada. Durante anos e anos, esse fantasma assombrou minha alma”, relembra Patrícia.

O trauma sofrido na infância acompanhou-a por um longo tempo. Na adolescência, os problemas ressurgiram no início dos namoros. “Tive dificuldade. Achava que todo homem me violentaria. Não gostava de contato físico. Abraços me incomodavam. Minha vida sentimental foi prejudicada e marcada.”

Foto: Arquivo pessoal

Hoje, aos 45 anos de idade, casada e com uma filha, ela conta que não foi fácil se livrar das cicatrizes provocadas pelo tio e dos sentimentos de baixa autoestima.

“Já adulta, quando contei à minha mãe, ela ficou estarrecida, mas, graças a Deus e à ajuda psicológica, hoje sou uma mulher realizada, forte e amada.

As cicatrizes são para lembrar que Deus nos põe na cova dos leões, mas fecha suas bocas”, resume a gestora de Recursos Humanos e membro da Igreja Cristã Nova Vida em Nova Iguaçu (RJ).

Infelizmente, Patrícia não é a primeira nem será a última pessoa a ser submetida a essa violência e carregar tais baques. Dados do Ministério dos Direitos Humanos apontam que mais de 180 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes foram registrados no Brasil entre 2011 e o primeiro semestre de 2018 . Entre esses episódios, há vítimas de abuso sexual (carícias nas genitais), estupro, exploração sexual e pornografia infantil.

Falta de dados

O primeiro passo para a criação de políticas públicas contra esse crime hediondo é pôr fim à falta de dados centralizados no Brasil. É impossível encontrar soluções diante de um quadro precário de informações sobre a real amplitude do problema, sobre o modus operandi de aproximação do algoz contra suas “presas”, sobre os estados do país com maior incidência e sobre questões culturais que devem ser combatidas.

Delegado Lorenzo Pazolini. Foto: Renato Cabrini

O único indicador nacional que se tem vem do Sistema Único de Saúde.

Em 2016, o SUS registrou 22,9 mil atendimentos a vítimas de estupro no Brasil. Em 57% desses casos, as vítimas tinham entre 0 e 14 anos, o que representa mais de 13 mil deles.

Desse montante, cerca de 6 mil crianças tinham menos de 9 anos.

Referência nacional no trabalho com crianças, o delegado Lorenzo Pazolini, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente do Espírito Santo, destaca que 95% das vítimas são meninas entre 11 e 17 anos. A unidade recebe cerca de mil ocorrências por ano. Infelizmente, muitas dos que sofrem nas mãos de pedófilos têm medo de se expor por causa da vergonha e da culpa.

Fonte: Ministério Público Federal

“A vítima não consegue se expressar porque o agressor faz com que ela sinta vergonha pelo abuso. Ele coloca em sua cabeça que ela procurou por isso e é responsável. Isso acontece principalmente a crianças com menos idade, até quando adquirem a consciência de que aquilo é um abuso”, explica Pazolini.

Mestre em Psicologia pela PUC-SP, Andréia Coliath aponta se tratar de um distúrbio comportamental no qual um adulto sente desejos sexuais por uma criança, e a consumação de tais vontades é crime previsto em lei – a pena pode resultar em reclusão de oito a 15 anos.

A psicóloga alerta que os abusadores – geralmente indivíduos discretos, acima de qualquer suspeita e manipuladores – convivem com a criança, o que dificulta a suspeita ou identificação. Por isso, orienta, mesmo que os cuidadores dos pequenos sejam pessoas de estrita confiança, os pais devem sempre questionar os filhos sobre o período em que ficaram ausentes.

“Quando a criança apresentar alguma alteração em seu comportamento, é importante investigar. Comportamentos que demonstram angústia, medo e isolamento podem indicar algum tipo de distúrbio psicológico, inclusive pedofilia. O importante é investigar o quanto antes para evitar prejuízos psíquicos”, explica.

Sobreviventes
Foto: Reprodução

No cenário da música cristã, o tema pedofilia ganhou notoriedade após a cantora Marcela Taís vir a público contar sua história sobre ter sido vítima de abuso aos 10 anos.

Motivada pelo trauma que sofreu, a artista uniu forças com o também cantor Pregador Luo, que luta contra a depressão, e juntos lançaram a canção “Sobrevivi”, para ajudar quem passou por situações traumáticas.

Em seu Instagram, Marcela publicou a hashtag #EuSobrevivi e relatou: “Aconteceu, e veio por onde menos se esperava. Sofri um abuso sexual. Não foi estupro, mas carícias indevidas e invasivas diversas. Fiquei com medo e confusa, entrei em pânico, não consegui reagir. Demorei três anos para contar. Por ser um parente, quis poupar a esposa e os filhos do homem. Não façam isso”, escreveu em seu post.

Fonte: Childhood – Pela Proteção da Infância

Encorajadas com o exemplo, muitas pessoas resolveram compartilhar sua dor para, a partir daí, reunir disposição necessária para o recomeço. Uma delas é Raquel Bernardes, 47 anos. Membro da Assembleia de Deus – Ministério de Madureira, em Palmas, Tocantins, ela sofreu abuso aos 7 anos de idade por parte do avô. “No início eu nem entendia o que estava acontecendo, mas não gostava. Pedia para parar, sentia medo, chorava muito, e ele me ameaçava com um canivete. Dizia que, se eu não concordasse, mataria meus irmãos. Até pouco tempo podia sentir aquelas mãos imundas me tocando e aquela respiração nojenta em meus ouvidos.”

Raquel desenvolveu um quadro de depressão. Chegou a casar aos 17 anos, mas o relacionamento não durou. Hoje, diz que as cicatrizes ficaram, mas a situação a deixou mais forte. “Decidi mudar minha história. Precisava reagir. Mudei de cidade e fui transformada pelo poder do Espírito Santo de Deus. Perdoei a todos, porque entendi que era preciso liberar o perdão dentro do meu coração para voltar a viver.”

O silêncio dos meninos

Registros feitos pelo Disque-Denúncia apontam uma média diária de 13 ligações relatando abuso de meninos. Nos Estados Unidos, um estudo revelou que um em cada seis homens sofreu algum tipo de abuso antes dos 16 anos. Entretanto, o silêncio tende a ser maior quando a vítima é do sexo masculino.

O cantor Gabriell Junior, de 20 anos, ousou romper o silêncio. Membro da Assembleia de Deus em Firminópolis, Goiânia, ele foi abusado aos 6 anos de idade. O jovem não deu muitos detalhes sobre o caso, mas em suas redes sociais contou ter sido mais de um agressor, todos indivíduos aparentemente de confiança.

“Se eu soubesse que iria acontecer aquilo, nunca teria me tornado amigo deles. Se eu soubesse, nunca teria aceitado ir àquela casa e nunca teria chamado pra brincar na minha. Achei que eles eram boas pessoas, eu era inocente, não sabia que iria acontecer, mas aconteceu. Por causa disso, desenvolvi a depressão na adolescência, mas sobrevivi. Eu tinha muito medo e vergonha de falar sobre isso. Mas que, das minhas feridas, saia poder pra curar”.

A psicóloga Andréia Coliath destaca que esses traumas podem gerar complexos e influenciar negativamente a construção da psique. “A infância é o período no qual o indivíduo está construindo a sua estrutura psíquica, e qualquer inadequação pode promover consequências indesejáveis”.

Por isso, a especialista alerta que toda a ajuda para superar tais complexos é necessária, principalmente o amparo psicológico, que não deve ser negligenciado. “A psicologia possui ferramentas cujo objetivo é reduzir ao máximo os traumas e os complexos gerados pelas experiências inadequadas, proporcionando ao indivíduo um conforto psíquico e uma reestruturação do eu para lidar com essas vivências negativas de forma a minimizar os prejuízos emocionais”.

Assim, é extremamente necessário que os pais estejam sempre alertas aos menores sinais demonstrados pelos filhos. A qualquer indício de abuso, deve-se procurar ajuda e dar apoio à vítima para superar esses momentos. “A família precisa ser orientada por profissionais habilitados, tanto no campo da saúde mental como na área jurídica. A vítima não vai se recuperar necessariamente 100%, mas é possível obter ótimos resultados.”


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