Como os “pecados de estimação” aprisionam e afastam da vontade de Deus

Práticas silenciosas e aparentemente inofensivas ganham espaço no coração e na mente humana, tornando-se intocáveis. O que fazer para se livrar da perigosa voz dos “pecadinhos”?

Por Lília Barros

Muitas pessoas ficariam horrorizadas se pudessem ver pecados espirituais operando à clara luz do dia. No entanto, pecados “intocáveis” estão se tomando cada vez mais aceitáveis nas comunidades cristãs. Instalam-se, sorrateiramente, e se infiltram sem causar o mesmo espanto. São práticas e delitos “invisíveis” na vida de quem não percebe a ameaça iminente que representam.

Seus efeitos são devastadores para as famílias, relacionamentos de amizade e igrejas.
Quais são e como agem esses perigosos e sutis “pecadinhos”? Existe uma medida de gravidade para cada um? Por que toleramos alguns e abominamos outros? Pecar escondido ou em público faz diferença? Como se proteger? No pacote estão fofoca, murmuração, ingratidão, gula, preguiça, egoísmo, orgulho, ciúmes, raiva e palavras de desestímulo. Nossos entrevistados desafiam os leitores a dar uma espiadinha dentro de si mesmos, a fim de elucidar como isso é nutrido no coração e pode explodir em sintomas patológicos e espirituais capazes de levar à morte.

Na avaliação do professor João Cesário Leonel Ferreira, do Instituto presbiteriano Mackenzie (SP), a ideia de que fazer algo às ocultas é menos danosa para o indivíduo do que a prática de ações públicas é um erro grave. “Pensar que a ilicitude só decorrerá quando outras pessoas souberem o que fazemos revela um problema sério de relação com Deus.

“Os pecados ‘invisíveis’ podem ser tão ou mais danosos do que os pecados explícitos, porque para estes, nos preparamos para as consequências. A nossa mente funciona como uma máquina fotográfica. O que ouvimos, vemos, fica armazenado até que, em algum momento, se manifesta” – Maria Juliana Vieira dos Santos, psicanalista

Se a maior preocupação é sobre o que pensam de nós e como irão nos julgar, então é mera religiosidade, e não cristianismo autêntico. O cristão compromissado, mesmo sozinho em uma ilha, terá o desejo de que seus pensamentos e ações expressem seu amor ao Pai. Não importa se outras pessoas o veem ou não”, observa. Davi sabia o quanto era impossível fugir da presença divina – “Para onde me irei do Teu espírito, ou para onde fugirei da Tua face?” (Sl 139:7).

Embora sempre existissem no mais secreto esconderijo da alma, alguns pecados foram culturalmente aceitos, como mais ou menos nocivos, após a criação de uma espécie de tabela que tem origem na descrição dos chamados “Sete Pecados Capitais”, catalogados pelo Papa Gregório no século VI. É o que lembra o escritor, pastor batista, filósofo, teólogo e pedagogo Gilson Bifano.

O apóstolo Paulo, entretanto, que nasceu provavelmente no ano 5 da era cristã, adverte sobre a existência de potestades invisíveis do mal que induzem ao pecado, na qual os crentes estão envolvidos durante todo o tempo em que vivem neste mundo – “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6:12).

A tolerância

Toleram-se alguns pecados em razão de dividirmos nossa vida em duas áreas: a sacra e a secular. A primeira é a vida religiosa, com práticas, ritos e valores. A segunda é vivida no cotidiano, no trabalho, na família, nos negócios, no trânsito. Nesse duplo cenário, é considerável o risco de se criar normas e valores diferenciados, alerta o professor. “Por exemplo, eu devo amar os irmãos. Então, trato as pessoas com as quais convivo na igreja de forma delicada, disponho-me a ajudá-las. Mas o mesmo princípio não se aplica à vida secular. Nesta, se puder, tiro vantagem nos negócios, brigo no trânsito, trato as pessoas com quem convivo no trabalho como adversários ou inimigos”, explica.

Essa diferenciação atenua ou agrava a importância dos pecados. “A mentira provavelmente será um pecado nas relações dentro da igreja, mas será aceitável no contexto profissional. Do mesmo modo, a pontualidade será uma exigência no meu trabalho, mas não será tão rígida em se tratando das reuniões da igreja.”

“O pecado é um grande dano por qualquer atitude que ofenda o conceito moral e legal estabelecido nos códigos de ética tanto da Palavra de Deus como das leis civis que regulamentam o comportamento social. Muitos são afetados diretamente e não são poucos os casos de membros de famílias que estão hoje no mundo do crime e das drogas” Cláudio Oliveira da Silva, teólogo e diretor-presidente do Instituto Ponte para a Vida

Gilson Bifano diz que a aceitação dessas práticas se deve ao fato de não terem tantas consequências sérias, como as do matar, do adulterar e de tantas outras. “Mas essa ideia não tem nenhuma base bíblica, pois pecado é pecado. A palavra ‘pecado’ no hebraico significa ‘errar o alvo’. Como humanos, podemos tolerar, mas Deus nunca tolera qualquer tipo de pecado, porque todos entristecem o Seu coração.”

Teólogo e diretor-presidente do Instituto Ponte para a Vida, Cláudio Oliveira da Silva resume que a tolerância a algumas falhas desse tipo se define “pela falta organizada de um conceito ético e moral que esteja alinhado com a Palavra de Deus”.

Ele narra uma situação que, embora não intencional, mostra a falta de sensibilidade cuja consequência foi o afastamento de um membro bastante atuante na obra. “Atendi um rapaz muito envolvido com a igreja, líder de um ministério.

Ele precisou calçar um chinelo de dedo para ir ao templo, em razão de uma fratura no pé. Após o culto, em tom de brincadeira, o seu pastor o abraçou na frente da igreja e sorrindo apontou para o seu pé e disse: ‘Olha aqui um verdadeiro líder pé de chinelo’. O rapaz precisou de ajuda e atendimento a fim de perdoar, pois nunca mais conseguiu ter uma vida normal. Saiu da igreja e ficou com aquelas palavras durante anos presas em sua memória emocional. É possível que um estado depressivo se estabeleça pela falta de compreensão dos fatos.”

Os danos

Alguns pecados levam à pena de prisão, estragam relacionamentos, causam doenças, destroem a carreira profissional, provocam reações visíveis e imediatas. Já outros “apenas” abatem a alma e desanimam uma pessoa, roubando-lhe a alegria, o desejo de ler a Bíblia, de orar, de ir à igreja. Arrancam o motivo e a vontade de viver, deixando cicatrizes profundas, em alguns casos, irreversíveis.

O pastor Joares Mendes afirma que todo ato pecaminoso é grave, pois ofende a santidade de Deus, quebra a comunhão e traz consequências maléficas. “A tolerância a certos tipos de pecado é uma tradição infeliz que se desenvolveu com o tempo. Práticas registradas em Gálatas 5:16-21 são equivocadamente consideradas menos graves, mas não deixam de ser pecados e exigem arrependimento. No entanto, precisamos reconhecer que existe diferenciação das consequências. Alguns geram danos enormes, duradouros e irreparáveis que podem atingir muitas pessoas, enquanto outros criam situações menos complicadas e de reparação mais fácil.”

“Pensar que a ilicitude só decorrerá quando outras pessoas souberem o que fazemos revela
um problema sério de relação com Deus” – João Cesário Leonel Ferreira, professor do Instituto Presbiteriano Mackenzie

O professor João Leonel reforça que Deus não se entristece mais com um desvio de conduta do que com outro. “Mesmo aqueles que consideramos mais íntimos sempre terão uma repercussão social, por menor que seja. Por exemplo, quando uma pessoa assiste a vídeos pornográficos na internet, isso não é apenas um pecado pessoal. O vício nesse tipo de conteúdo irá gerar um tipo de pensamento e de comportamento em relação a pessoas de outro sexo que trará consequência.”

O Altíssimo tratará tais delitos da mesma forma e trará juízo sobre os praticantes para que se arrependam e confessem. Quando isso se der, Deus, em Cristo, perdoará e tratará o pecador amorosamente.

Cláudio Oliveira da Silva, do Instituto Ponte para a Vida, afirma que pode ocorrer “um grande dano por qualquer atitude que ofenda o conceito moral e legal estabelecido nos códigos de ética tanto da palavra de Deus, como das leis civis que regulamentam o comportamento social. Muitos são afetados diretamente e não são poucos os casos de membros de famílias que estão hoje no mundo do crime e das drogas”.

Nenhum pecado é cometido sem ocasionar consequências espirituais. “Purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne, como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2 Co 7:1).

Sutis e mortíferos

Assim como os vírus, bactérias e substâncias tóxicas são invisíveis aos nossos olhos, mas a sua atuação é sentida pelo nosso corpo. Os sintomas são os sinais que nos mostram que alguma coisa está errada, assim também ocorre com os pecados “intocáveis”.

A psicanalista Maria Juliana Vieira dos Santos adverte para o perigo dessa sutileza. “Os pecados ‘invisíveis’ podem ser tão ou mais danosos do que os pecados explícitos, porque, para estes, nos preparamos para as consequências. A nossa mente funciona como uma máquina fotográfica.

Fonte: entrevistados

O que ouvimos, vemos, fica armazenado até que, em algum momento, se manifesta. Palavras duras, críticas, falta de amor, negações, complexos, medos são incutidos, causando traumas e uma vida longe de ser abundante. Portanto, devemos tratar o pecado invisível com o mesmo grau de relevância que lidamos com os outros pecados.”
Há outros elementos que também devem ser recusados.

São imaginações vãs, ocas, insignificantes. Embora talvez não as consideremos abomináveis em si mesmas, ainda assim elas nos afastam de algo bem melhor. Como a água que corre ao lado do moinho, cada pensamento que não nos ajuda a fazer o trabalho de Deus é desperdiçado. A abelha não vai pousar numa flor que não tenha néctar. Nem deveria o cristão abrigar um pensamento que não alimente seu espírito (“O Cristão com Armadura Completa”, por William Gurnall). “Os pecados do coração são tão pecados quanto os outros: o pensamento do tolo é pecado” (Pv 24:9).

Mas, se tudo é tão sutil, como saber se já pecamos ou se estamos sendo apenas tentados? Quando pensamentos maus ou impuros começam a invadir a mente, o pecado ainda não se instalou. Por enquanto, foi apenas o trabalho sedutor de Satanás.

Entretanto, basta dar mais um passo à frente estabelecendo com ele uma conversa educada, para que haja cumplicidade na participação do mal. Em pouco tempo, esses pensamentos ou intenções encontrarão abrigo no coração.

O fracasso é certo porque as promessas de não ceder às tentações não são páreo para Satanás. “Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis” (Ef 6:13).

Como um escorpião

O escorpião se abriga principalmente dentro de casa. Escolhe locais escuros como calçados, roupas, armários, gavetas e potes. E isso pode pegar de surpresa qualquer um. Com uma picada aparentemente não intencional, causa problemas sérios ao injetar o veneno que produz. Se houver falta ou demora de atendimento médico, o risco de morte eleva-se, especialmente para pessoas sensíveis como crianças e idosos.

Danos similares são causados à vida cristã pelo veneno destilado pelos “pecadinhos” que escolhem o lugar escuro da mente e do coração para se abrigarem até surpreenderem com sua ação aparentemente inofensiva. São dolorosos e estragam a vida dos mais frágeis e desavisados. Se não tratados de forma rápida e correta, as chances de morrer aumentam – neste caso, morte espiritual.

“Pecado é pecado. A palavra ‘pecado’ no hebraico significa ‘errar o alvo’. Como humanos, podemos tolerar, mas Deus nunca tolera qualquer tipo de pecado, porque todos entristecem o seu coração” – Gilson Bifano, escritor, pastor batista, filósofo, teólogo e pedagogo

O teólogo Claudio lembra que vida e morte estão no poder da língua (Pv 18:21). “O pastor Jorge Linhares escreveu o pequeno livro ‘O Poder das Palavras’, que aborda a força destrutiva ou construtiva daquilo que sai da nossa boca. É comum ouvir pais chamando seus filhos de ‘burro’, ‘vagabundo’ ou ‘preguiçoso’, e a destinação destes fica determinada pela palavra investida.”

Em um depoimento emocionante, a dona de casa Cecília (nome fictício) narra como ela e as duas filhas sofreram até se darem conta da presença de dois “pecadinhos” morando dentro da própria casa. “O egoísmo e o ciúme do meu marido nos tornaram antissociais, enclausuradas. Minhas filhas desenvolveram síndrome do pânico e gritavam, tinham crise de choro. Eu tive depressão, enxaqueca e psoríase.

Só consegui entender a gravidade disso depois de fazer um curso de cura interior na igreja e levar minhas filhas ao psicólogo. Quando a pessoa age silenciosamente, é mais difícil lidar com a situação. Um pecado pode levar mais tempo para se mostrar, mas a destruição é certa. Ainda não está fácil, mas teremos vitória.”

A boa notícia para Cecília é que a morte foi tragada pela vitória (I Co: 15), e o Filho de Deus veio para desfazer as obras do diabo (I Jo 3:8).


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