Aprenda a ser pai sem perder a esperança com a parábola do filho pródigo e a lição de um pai que não desiste
Por Patrícia Esteves
“Não existe manual”. Essa talvez seja a frase mais repetida por quem se torna pai ou mãe. E, de fato, não há. Cada filho carrega um universo inteiro que desafia qualquer fórmula pronta. A cada geração, os pais se sentem mais perdidos, não só diante das transformações culturais, mas também diante das perguntas silenciosas que trazem na alma, “Estou fazendo certo?”, “O que Deus espera de mim como pai?”
Um dos dilemas mais comuns está na medida entre amor e disciplina. Amor demais pode sufocar. Disciplina em excesso, ferir. Mas se faltar amor, a alma adoece. E se faltar limites, o futuro se desestrutura. Pais caminham num terreno ambíguo, tentando equilibrar o cuidado com a formação, a presença com o limite, o afeto com a responsabilidade.
A parábola como espelho da paternidade
Jesus contou muitas parábolas ao longo do seu ministério. Mas uma delas, embora conhecida, carrega um aspecto que muitas vezes passa despercebido: a paternidade. Na parábola do filho pródigo (Lucas 15), vemos um pai que não responde como o senso comum esperaria. Ele não impede o filho de sair. Não o persegue. Não o ameaça. Também não lhe fecha as portas ao vê-lo retornar.
Esse pai se permite sofrer, amar e esperar em silêncio. Humanamente, seria fácil julgá-lo como permissivo ou até ingênuo. Afinal, o filho foi rebelde, ingrato, desrespeitoso. Desperdiçou a herança que não construiu. Deixou para trás tudo o que o pai havia feito por ele. Mas o pai da parábola, que representa o coração de Deus, não se deixa dominar pela mágoa. Ele continua vendo naquele jovem alguém digno de amor, não por mérito, mas por vínculo, em sua essência e com graça.
E quando os filhos não respondem?
É nesse ponto que a parábola confronta a realidade de tantos pais. Quando os filhos respondem bem, tudo parece encaixar. Mas e quando os projetos falham? Quando vêm os laudos médicos inesperados, os problemas de comportamento, as feridas familiares? Quando o filho se distancia daquilo que foi ensinado, ou mesmo da fé?
A paternidade, nesse contexto, não se revela em discursos, mas na permanência. Em não desistir. O modelo apresentado por Jesus desafia uma ideia de paternidade baseada em controle. Em vez disso, propõe uma paternidade baseada em presença. Uma presença que acolhe sem compactuar, que espera sem manipular, que ama sem perder a firmeza.
Um testemunho pessoal de fé e permanência
“Eu pude, ao longo dessas quatro décadas, ver esse pai da parábola encarnado na vida do meu pai, Amadeu Teixeira”, relata psicóloga Anisia Luite, Igreja do Nazareno em Mesquita, Rio de Janeiro/RJ. “Ele não teve um modelo de pai amoroso. Mas escolheu ser, mesmo assim. Exerceu sua paternidade com amor e longanimidade, tanto em casa quanto no ministério”, compartilha.
“Muitos filhos e filhas, alguns dentro da nossa própria casa, fizeram com ele exatamente o que o filho pródigo fez: romperam, feriram, desperdiçaram. Mas meu pai nunca deixou de crer, de orar, de receber. Alguns ele ainda espera até hoje”, conta.
Essa é uma herança espiritual silenciosa, que se transmite mais pelo exemplo do que por palavras. Um tipo de amor que não desiste. Uma fé que permanece, mesmo quando não há retorno imediato.
Não há manuais, mas há modelos. E Jesus oferece um, o do pai que ama com esperança, mesmo quando sofre; que corrige sem romper o vínculo; que espera sem exigir garantias. No silêncio desse pai, há uma força rara que não desiste daquele que ama, mesmo quando o amor é posto à prova. Talvez seja esse o convite para os pais de hoje, caminhar sem manual, mas não sem direção. E reconhecer, nas páginas da graça, um mapa possível.


