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sexta-feira, 28 janeiro 2022

“Para tudo há uma solução, menos para a morte”

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Quando olhamos para o início da frase escorregamos para o campo das imperfeições humanas

Por Jovino Araújo

“Para tudo há uma solução, menos para a morte”. Se você já ouviu esta frase, que é repetida em mantras e aceita universalmente, sabe que ela representa o fator inexorável para a vida e nos impulsiona para a crença transcendental da vida eterna. A solução para a finitude biológica é o espírito.

Mas quando olhamos para o início da frase, “para tudo há uma solução”, escorregamos para o campo das imperfeições humanas, incluindo aqui o falacioso sentimento de onipotência para corrigir a imperfeição e a incompletude do ser humano.

A doença orgânica ou mental, sempre foi uma ferida narcísica para o homem, que, através da ciência ou das crenças, mantém a pretensão de dominar a longevidade e a higidez perfeita. O progresso científico é visível nos dois últimos séculos, e podemos dizer que temos suporte técnico incomparavelmente mais robusto que no século XIX, com instrumentos de diagnóstico, de tratamento e de cura que dá ao ser humano perspectivas de mais conforto, maior expectativa de vida e de controle sobre a própria saúde. Mas a doença e a morte persistem e vão continuar persistindo como manifestações próprias da existência.

A doença mental, com conceitos, diagnósticos e tratamentos que também evoluíram de forma grandiosa nos últimos 200 anos, parece seguir uma caminhada à parte na necessidade de ser incorporada à cultura humana moderna como um problema de saúde. Apesar de todas as bases científicas que legitimam a abordagem dos problemas psíquicos pelos especialistas, nossa cultura teima em negar sua existência, discriminar o tratamento especializado, discriminar o próprio doente e buscar soluções que seriam mais coerentes de serem utilizadas na Idade Média, tempo em que as trevas científicas vinculavam o adoecimento mental às manifestações terrenas do espírito do mal.

A sobreposição dos conceitos espirituais com a ciência gera conflitos que parecem não ter fim. Ainda hoje vemos movimentos estruturados para a defesa da ideia de que à Terra é plana, de que vacinas não devem ser aplicadas, de que pandemias são “castigo dos céus”, e de que os delírios e as alucinações dos loucos representam vozes de espíritos.

Na Grécia Antiga, interpretavam-se as falas dos psicóticos como transmissão terrena dos deuses, até que Hipócrates, no século IV A.C. formulou explicações que traziam aquelas ocorrências para o campo científico, expressando a conotação de doença. Explicou com as limitações do conhecimento da época, que os desvios da mente eram resultados de alterações nos humores internos. A bílis alterava o comportamento e provocava a loucura. Também era a bílis que mexia com o cérebro e dava início ao pânico.

Platão, e muitos outros filósofos, especularam teoricamente em torno da doença mental. Na ideia platônica, o doente mental tinha em desequilíbrio as mentes racional, emotiva e instintiva. E assim, por muitos e muitos séculos, o lado psíquico do homem foi objeto da filosofia, mas mudou de campo teórico na Idade Média.

Com a ajuda dos teólogos dos primeiros séculos da era cristã, a doença mental se transferiu da interpretação filosófica para o campo moral, e as expressões do sofrimento emocional eram tidos como um castigo para aqueles que, de forma explícita ou oculta, não seguiam a vida correta conforme os mandamentos. Em resumo, a psicopatologia era um desvio moral e as soluções iam do degredo à morte nas fogueiras.

Com o fim da Idade Média e os prenúncios do Iluminismo os loucos continuaram a ocupar a posição de párias do “homem normal”, e eram sumariamente encarcerados, excluídos com a sentença de “perda da razão”, equiparado a um animal. Somente no século XIX se acumularam bases teóricas para melhorar o entendimento da doença mental, e a partir do século XX passamos a ter os instrumentos de tratamento mais eficazes, os medicamentos.

As últimas décadas da psiquiatria ofereceram informações de neurociências, da genética e da farmacologia suficientes para podermos entender o doente mental absolutamente fora do campo da moral e dos espíritos. Temos hoje instrumentos para diagnosticar e para tratar com eficácia a maioria dos indivíduos que apresentam sofrimento emocional.

Apesar de toda a evolução, nossa cultura ainda demonstra o ranço do atraso, da discriminação, da ignorância e da desumanidade que priva os adoecidos de uma assistência adequada, tecnicamente correta, que afasta o paciente dos grandes riscos que a doença traz: o sofrimento, a disfuncionalidade, a segregação, o suicídio e, algumas vezes, o homicídio.

Se um paciente comunica para a família ou para outras pessoas que conversa com Deus, não pode ser visto como um privilegiado. Ele está delirando e/ou alucinando. Ou se ele informa que recebe comandos do Diabo, da mesma forma não pode ser visto como possuído. São expressões mais do que claras que necessita, com urgência, de atendimento psiquiátrico.

Negar a assistência adequada ou buscar mecanismos fora da ciência, tanto fez que sejam chás e unguentos “naturais” ou orações bem intencionadas, é reviver os atrasos seculares que estão documentados na história como parte da ignorância humana. Dar tratamento adequado ao doente mental é concordar com a dignidade humana, exaltar o dom da vida, reforçar o sentimento igualitário de que somos todos valorosos, perfeitamente imperfeitos.

Jovino Araújo, médico psiquiatra e psicoterapeuta

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