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quarta-feira, 23 setembro 2020

Pai: exemplo para toda a vida

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Os pais são, indiscutivelmente, fundamentais à vida de seus filhos. O problema é que a ausência da figura paterna vem crescendo com o passar do tempo. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em uma década (de 2000 a 2010), dobrou o número de mulheres chefes de família no Brasil, indo de 9 milhões para 18,6 milhões. Esse salto reflete um novo cenário, em que a participação feminina está ainda mais intensa.

Diante dessa situação, é importante ressaltar que a falta do afeto paterno traz consequências diretas no desenvolvimento sócio afetivo da criança. Estudo de Ronald Rohner, da Universidade de Connecticut (EUA), aponta que ser amado ou rejeitado pelos pais afeta no desenvolvimento da individualidade dos pequenos.

No exercício diário, isso quer dizer que as relações na infância, especialmente com os pais e outros entes responsáveis, moldam as características da personalidade.

Esse novo trabalho indica que a figura do pai pode ser mais relevante. Isso porque, em geral, as crianças sentem mais se a rejeição vier do pai. Para o psicólogo e pastor David Hoffman Alencastre, da Igreja Batista da Orla, em Vila Velha, observa-se que, nos últimos anos, essa ausência masculina no ambiente doméstico tem representado grandes mudanças na organização familiar, e até na social. “Como destaca o estudo de Ronald Rohner, a figura paterna tem grande influência na constituição da criança como pessoa. O pai permite que a criança tenha uma melhor integração com seu mundo interior e com as pessoas ao seu redor. No entanto, não basta ter um pai presente em casa. Em muitos casos, pais agressivos ou omissos podem, ao invés de contribuir, prejudicar o desenvolvimento da criança. O que mais importa nesse caso é que ele cultive uma relação afetuosa com a criança, transmitindo-lhe valores e limites, contribuindo para o seu desenvolvimento”.

Relacionamentos sólidos

Quando o assunto é criação de filhos, não faltam correntes, regras, palpites e instruções – muitas vezes conflitantes – fornecidos por parentes ou amigos. Mas quem recebeu de Deus o presente de gerar uma vida quer garantir uma educação sólida em princípios e valores que não se deterioram conforme a cultura, as circunstâncias ou as opiniões pessoais.

Com isso, o especialista explica que é importante se basear nos conceitos bíblicos para formar cidadãos de caráter e, ainda, recuperar relações mal-resolvidas entre pais e filhos. “A paternidade envolve amor, cuidado, afeto, respeito, ensino, exemplo, limites, fatores que podem contribuir para que os filhos sejam adultos felizes, saudáveis, autônomos para fazerem as suas próprias escolhas. Baseados na Bíblia, aprendemos que devemos criar os nossos filhos ‘… na doutrina e na admoestação do Senhor’ (Efésios 6.4). Isso significa, primeiramente, que os filhos necessitam receber de nós o ensinamento para a vida, e no caso dos cristãos, o ensinamento emana do conhecimento bíblico, da doutrina cristã. Isso não deve ocorrer apenas de maneira formal, mas também por meio do exemplo, pois, para uma criança, mais importante do que ensinarmos com palavras, é o exemplo dos seus pais; que consolidará os ensinamentos e os valores aprendidos. O que ocorre hoje é que muitos pais terceirizam esse ensinamento à Igreja ou mesmo a outras pessoas ou instituições. Quando olhamos para o modelo bíblico de criação, vemos que é imputado primeiramente aos pais a responsabilidade de ensinar os filhos”, disse David.

Segundo o pastor e diretor nacional dos cursos de Paternidade da Universidade da Família, Dinart Barracas, as Escrituras são a melhor fonte para se educar. “A Bíblia é atemporal e extrapola culturas; ela foi escrita para o ser humano de todos os tempos e etnias. Voltar a crer nela, passar a praticá-la e dedicar-se a ensinar paternidade bíblica seria um grande serviço para nossa sociedade. Porém, a maioria diz que a Bíblia é a regra de fé e prática, mas poucos de fato acreditam que ela tenha algo relevante para dizer sobre as questões do cotidiano, principalmente na educação dos filhos. Nos atemos a ela nas questões religiosas, mas não nas de caráter pragmático ou relacional. O que acontece é que acabamos errando por dois motivos: ignoramos o que as Escrituras dizem sobre o assunto e buscamos alternativas fora do padrão bíblico, ainda que com roupagem cristã ou piedosa (Jeremias 2:13 e Mateus 22:29)”, pondera.

O papel da igreja

De acordo com Dinart, uma criação que tem a Igreja como “parceira” se desenrola melhor. “É preciso entender que a Igreja deve ser cúmplice dos pais, não substituta. Ela pode dar o ‘didaquê’ (doutrina), mas só o ‘oikos’ (família) é capaz de prover um desenvolvimento saudável. Inverter, acumular ou renunciar a esses papéis nos leva ao que vivemos hoje. Estima-se que, em cada 10 famílias cristãs, oito tenham um de seus membros desviado da fé. A Igreja tem que ser ponto de referência para os pais, e não para os filhos”.

Para Edvalson Lucindo, pastor da Assembleia de Deus da Arca, em Parque das Gaivotas, Vila Velha, a Igreja deve ser, sim, um base de apoio. “Considerando que o indivíduo é influenciado pelo meio onde vive, a Igreja é uma influência, mas não determinante na criação. A mais relevante é a base familiar. O indivíduo com um referencial familiar e apoio/referência de uma igreja, cuja base é a Palavra de Deus na sua essência, este sim, desenvolverá melhor o seu caráter. Eu, por exemplo, nasci em uma família cristã evangélica e me lembro muito bem de que, na minha adolescência, esse fator influenciou muito as minhas decisões e amizades”.

Dinart Barradas alega que é de vital importância a atitude dos pais de encaminharem seus filhos à Igreja. “Os pais não somente devem encaminhar, mas também caminhar com eles (Dt. 6) a rota proposta pela igreja local. Mas isso não é tudo, aliás está longe de ser tudo. O melhor que tenho ouvido até agora é que o que acontece em casa é mais importante do que aquilo que acontece na igreja. Filhos desviam da fé não por causa do que veem na igreja, mas por causa do que não vivem em casa”, alerta. O pastor José Benedito Frank, da Missão Internacional da Aliança, de Guaranhuns, Vila Velha, concorda e avalia que é tão desafiador manter os princípios básicos da vida, que uma boa orientação e o acompanhamento da Palavra de Deus são de extrema importância. “O pai ensina ao filho o caminho que ele deve seguir andando com ele, pois o ensino é 10% teórico e 90% prático. O líder de êxito ensina com a própria vida. O Mestre dos mestres nos deu o grande exemplo trilhando primeiro o Seu caminho”.

Relação pai e filho

Com dois filhos, o pastor Elias Moreira, da Igreja Evangélica Ágape, em Vila Batista, Vila Velha, é reconhecido como um pai que faz jus à função. Mesmo com a correria do dia a dia, ele está presente na vida dos rebentos. “Temos uma relação de amizade e de confiança. Meus filhos, hoje, são adultos, mas mesmo assim continuamos participando de suas vidas. Tudo o que acontece, somos os primeiros a saber, e isso flui naturalmente. Plantamos isso tudo na vida dos nossos filhos e hoje estamos colhendo. Conheço pais que deram todo conforto para seus filhos, tudo de material, porém não dedicaram tempo a eles, que é o que mais os filhos precisam: atenção”.

O pastor Elias conta que o fundamental na criação é amar, impor limites e mostrar o caminho de Cristo. “Participei da criação dos meus filhos os amando e colocando-lhes limites. Quando eles são pequenos, são mais fáceis de moldar, estão em processo de formação de personalidade e de caráter. Então, nós, os pais, somos responsáveis em torná-los adultos saudáveis e responsáveis. Criar filhos não é tarefa fácil, pois não existe uma receita pronta de como fazer. Tenho a consciência de que muitas vezes errei como pai, mas por isso precisamos pedir a Deus que nos capacite em todo o processo de criação. Nós, cristãos, temos a Bíblia, que precisa ser nosso ‘manual na criação’”.

Já Charles Simões Faria, da Igreja Batista Nova Betânia, em Anchieta, não teve a figura paterna presente em sua vida, o que o inspirou a seguir no caminho oposto, tornando-se pai exemplar. “Sempre digo que meu pai é um exemplo a não ser seguido. Muito boêmio, ele não foi participou da minha criação. Ele achava que, se tivesse o que comer e o que vestir, seria o suficiente. Diante dessa situação, faço o contrário com meus três filhos. Participo de tudo na vida deles, brinco, estudo, passeio, dou amor e carinho e, claro, corrijo e imponho limites, além da parte espiritual, que fazemos todos os dias juntos, lendo a Bíblia. Nesse momento, tiro as dúvidas deles e lhes ensino o caminho do Pai”, comenta Charles.

Segundo o psicólogo David Hoffman, o importante nisso tudo é que haja disciplina e limites. “Toda criança precisa de limites e, quando os limites são quebrados, precisa haver disciplina. São os limites colocados pelos pais que dão as condições necessárias para vivermos em sociedade e nos respeitarmos como pessoas”, alerta.

A importância do pai na vida de seus filhos em relação à sua autoimagem, às escolhas e ao comportamento
O estudo de Ronald Rohner, da Universidade de Connecticut (EUA), comprova que o pai pode contribuir de forma única para a vida de seus filhos. Quem desenvolve relacionamentos saudáveis com a figura paterna tem melhores autoimagem e autoestima, e isso influencia diretamente em suas escolhas na vida, na profissão, no casamento, etc. Tais pessoas apresentam mais capacidade de se relacionar com os outros de forma empática e maior resistência contra os problemas da vida cotidiana. O que não significa que filhos que não convivem com os pais ou não têm uma relação saudável com eles estão condenados a serem infelizes. Pelo contrário, podem desenvolver em si o desejo de constituírem uma família e serem para seus futuros filhos tudo aquilo que não tiveram em suas vidas.
A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.
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