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sábado, 15 maio 2021

O desafio de contar a maior história do mundo: o cristianismo

Um relato crítico da origem, progresso e desenvolvimento do testemunho cristão e sua influência no mundo sob a ótica de Pablo Gueiros, em a História Global do Cristianismo

Que tal saber mais sobre a história mais fascinante do mundo? Estamos falando do cristianismo, que ao longo dos séculos tem sido um relato inspirador. É disso que retrata uma obra que acaba de chega ao mercado evangélico pela editora Vida: “História Global do Cristianismo”. O livro foi escrito pelo renomado Pablo Deiros, que se dedica ao evangelho há mais de 50 anos.

Pastor, professor e escritor reconhecido por seu compromisso com a fé em Cristo, Pablo é filho de missionários argentinos, nasceu no Paraguai e ingressou no Seminário Teológico Batista Internacional, em Buenos Aires, quando tinha 17 anos. Após concluir o curso de Teologia, casou-se com Norma Haydée Calafate. Desde então, a dedicação aos estudos e ao ministério não parou.

Autor de mais de 65 títulos publicados em espanhol e inglês, sendo algumas de suas obras também traduzidas para outros idiomas, incluindo o português, o pastor sente-se orgulho ao apresentar uma obra de tamanha relevância para a igreja evangélica mundial. Para ele é a concretização de um sonho que começou a ter há mais de meio século.

Em entrevista exclusiva à Comunhão Pablo contou como a obra foi elaborada, o desafio de contar a maior história da humanidade, as realizações do evangelho pelo mundo, os detalhes sobre a implantação e disseminação do cristianismo pelos países e as reflexões disso para a igreja, no sentido de congregar e cumprir o Ide de Jesus. Confira!

Comunhão – Como sua obra sobre a história do cristianismo foi elaborada?

Pablo Deiros – Este livro é o resultado de 45 anos de prática de ensino sobre a história do cristianismo. O livro foi sendo ampliado ao longo de várias edições (anotações de aulas, ensaios, manuais, livros parciais etc.). A edição final compreende toda a experiência acumulada ao longo desses anos, principalmente do ponto de vista pedagógico e didático.

Qual é o objetivo de retratar a história cristã?

A história do testemunho cristão ao longo dos séculos é um relato fascinante e inspirador. Cada geração de cristãos deveria reler essa história com o objetivo de extrair dela os elementos que podem ajudar melhor o testemunho e o compromisso cristão de hoje. A variedade de situações humanas vividas permite ver como cada geração de crentes, em cada lugar, soube superar as dificuldades e contribuir de forma significativa para o avanço do Reino de Deus. O poder de Deus que se manifestou de forma maravilhosa no passado é o mesmo que se manifesta hoje para a redenção da humanidade.

Qual a diferença desta para suas outras obras sobre a história do cristianismo?

O foco global e a compreensão do evangelho cristão como mensagem integral a respeito da pessoa humana como um todo e seus relacionamentos sempre foi o meu alvo ao tratar do passado do testemunho cristão. Em História global do cristianismo, esse foco é o fator dominante. No entanto, esse olhar para o passado acontece do ponto de vista latino-americano, que é muito diferente de outras perspectivas, principalmente em relação às mais difundidas no mundo, como as do Atlântico Norte (Estados Unidos e Europa Ocidental).

A obra fala de um ‘processo de globalização da fé cristã’. Segundo a ótica do evangelho, o que seria isso exatamente?

Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, o cristianismo evangélico foi marcado por um perfil norte-americano como consequência das missões modernas. Hoje, essa forma de ser cristão foi enriquecida pelas contribuições do Mundo da Maioria (América Latina, África, Ásia y Oceania). Atualmente, a fé cristã não é definida por uma cosmovisão moderna ocidental, ou por ideologias como a do “Destino Manifesto” ou a “carga do homem branco”, ou, ainda, por um movimento de Leste a Oeste (de Jerusalém “até os confins da terra”, passando pelos Estados Unidos).

Hoje o cristianismo é vital mais no hemisfério sul e daí está alcançando o mundo todo. O interessante é que esse cristianismo pós-moderno e globalizado se reveste de uma forma mais parecida com a do Novo Testamento do que com a de qualquer outra época no hemisfério noroeste.

Qual é o maior desafio ao contar a história do cristianismo?

Devemos, de uma vez por todas, reduzir o relato da história do cristianismo a uma história institucional, denominacional, constantiniana e comprometida com o paradigma da cristandade. Uma história do cristianismo global não está interessada em reis, bispos, papas, credos, hierarquias clericais, catedrais, número de convertidos, educação teológica formal, prestígio, riqueza, influência, entre outros fatores. Uma autêntica história global do cristianismo busca, em termos metodológicos, seguir os passos do historiador Lucas em seu Evangelho e em seu relato no livro de Atos. Ou seja, procura reconstruir os fatos redentores divinos em meio aos fatos propriamente humanos. Essa história está mais interessada em observar o impacto do evangelho no mundo e avaliar o impacto do mundo no evangelho. A experiência de Cristo na dimensão espaço-temporal é a matéria-prima dessa história.

Foto: Arquivo pessoal _ Pablo Deiros

Quais as diferenças na implantação do cristianismo nos países?

O pior inimigo do cristianismo ao longo dos séculos foi o paradigma da cristandade inaugurado pelo imperador romano Constantino, no início do século IV. Isso levou a igreja a ser uma instituição mais ao serviço do poder político, econômico, social e cultural. O cristianismo deixou de ser uma fé no Senhor Jesus Cristo para se transformar em uma instituição constituída em torno de um credo e mantida por uma hierarquia clerical que ostentava o poder.

A Reforma do século XVI tentou romper com esse sistema, mas não conseguiu. Pelo contrário, terminou criando igrejas territoriais com um perfil marcadamente nacional. A segunda Reforma (séculos XVII e XVIII) também fracassou, especialmente nos EUA, onde se desenvolveu primeiramente a ideologia do denominacionalismo que, através das missões modernas, contaminou a cristandade evangélica em todo o mundo com sua cosmovisão moderna, seu racionalismo, suas teologias sistemáticas e novas formas de institucionalismo e clericalismo.

O pentecostalismo, no século XX, bem como o movimento carismático, também terminou rendendo-se ao denominacionalismo e perdeu o frescor inicial. No entanto, com a pós-modernidade, com a crise global do institucionalismo e do denominacionalismo, parece haver indícios do início de expressões mais neotestamentárias do testemunho cristão. Talvez na economia divina esse horizonte de esperança seja uma antecipação da gloriosa volta de Cristo e do estabelecimento definitivo de seu Reino.

O que é mais fascinante na história do cristianismo?

Não há dúvida alguma quanto a isso: é a obra poderosa do Espírito Santo em cada geração de cristãos fiéis, que deram testemunho de Jesus Cristo em todos os lugares fossem quais fossem as circunstâncias. O grande protagonista dessa história é o Espírito. Se considerarmos a ótica de Lucas, veremos o Espírito Santo atuando sempre de maneira poderosa através de homens e mulheres cheios dele, nas condições mais surpreendentes.

Em que essa história se reflete na prática atual da igreja?

Lamentavelmente, o pior da história do cristianismo é o que mais se vê na prática da igreja hoje. Ao longo dos séculos, fomos perdendo muito da essência do evangelho e assimilando muitos elementos pagãos elementos desvinculados da fé autêntica em Cristo. Até mesmo muitos livros de história do cristianismo manifestam uma ausência quase total de sentido crítico e acabam exaltando elementos e episódios que não pertencem ao evangelho do Reino. Muitas dessas histórias são responsáveis por sacralizar coisas que não têm nenhuma relação com o evangelho do Reino, teologias mais próximas a heresias que à sã doutrina cristã e práticas sincretistas que passaram a ser tradições absurdas, as quais não honram o evangelho proclamado por Jesus.

O livro aborda a igreja primitiva, apresentada na Bíblia como um modelo. Como os cristãos devem congregar segundo a Palavra de Deus?

O problema de muitos evangélicos hoje não é a boa intenção de querer ser como a igreja do Novo Testamento (NT). Na realidade, esse tem sido o desejo de cada uma das gerações de cristãos ao longo dos séculos. O problema é pensar que uma imitação ingênua e acrítica seja a garantia de fidelidade. Primeiro, isso é impossível; segundo, é perigoso. Não é possível seguir o “modelo” porque tal modelo não existe. O que temos é uma variedade assustadora de modelos, cada um dos quais contextualizados em seu tempo e lugar.

Além disso, esses modelos são lidos, imitados e adotados segundo nossas próprias pressuposições. Um episcopal, um presbiteriano, um congregacional e um pentecostal encontrarão, cada um deles, apoio suficiente no NT para sua eclesiologia em particular. Isso também é perigoso, já que a maioria das seitas nascidas nos séculos XIX e XX nasceu a partir dessas tentativas. O NT é um guia poderoso, desde que o leiamos criticamente e sob a orientação do Espírito Santo, com a perspectiva da nossa própria situação. Em outras palavras, há princípios poderosos no NT que podem nos ajudar a orientar nossa elaboração teológica, nossos critérios éticos, nossa eclesiologia e nossa missiologia.

Qual é a maior lição desta linda história?

Apesar das falhas humanas, da desobediência das comunidades de fé e da infidelidade dos crentes, Deus sempre age de forma que possa levar adiante seu propósito de salvação para toda a humanidade. A árvore da vida foi cortada e podada muitas vezes, mas continua brotando e dando fruto de vida sempre que é regada pela água viva do Espírito Santo que nasce do trono do Senhor. Aliado a isso, é um fato observável a afirmação bíblica de que a palavra do Senhor não volta vazia, mas que sempre, mais cedo ou mais tarde, produz fruto de salvação.

Quantos livros já publicou? Qual mais o impactou?

Já publiquei cerca de 90 obras. A História global do cristianismo (como também a História do cristianismo na América Latina) me deram muita satisfação. No entanto, a minha obra mais relevante (opus magnum) foi a edição da Bíblia Nova Reforma e do Comentário do Novo Testamento, este último em fase de preparação e edição (em 15 volumes). Ambas as obras são a concretização de um sonho que comecei a ter há mais de meio século.

Além de escritor, o senhor é professor de Hebraico e Antigo Testamento, e exerce o pastorado. Qual dessas funções mais gosta?

Fui professor de hebraico e Antigo Testamento há muitos anos. Deixei o campo da Bíblia para entrar no campo da história do cristianismo, no qual atuei como professor por 45 anos. Recentemente, voltei ao campo da Bíblia, principalmente na produção de livros como a Bíblia Nova Reforma e o Comentário do Novo Testamento. Como pastor, tenho servido há 50 anos (dos quais sete estive fora do ministério pastoral). O meu chamado e ministério foi e é duplo: pastorado e ensino. Em ambos os casos, escrever e publicar materiais equivalem a uma forma singular de cumprir esses dois ministérios. Sempre me alegrei e continuo me alegrando com ambos, e o Senhor tem me dado grandes oportunidades e desafios como pastor e mestre.

Sobre o livro

História Global do Cristianismo
Autor: Pablo A. Deiros
Editora: Editora Vida
Idioma: Português
Páginas: 1.788 

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