Ouça e faça alguém feliz!

A arte de ouvir não é para qualquer um. Requer preparo e disposição. A falta de tempo nos impede de abençoarmos e sermos abençoados no simples gesto de ouvir o próximo

Na sociedade contemporânea é comum cada indivíduo desenvolver a sua própria verdade. O ato de parar a fim de ouvir as pessoas se tornou raro. A desculpa é falta de tempo, mas aprender a ouvir pode ser a chave de muitos conflitos. Aliás, ouvir sempre foi mais importante do que falar. Isso é bíblico.

Adão e Eva tiveram dificuldade de escutar Deus, que lhes deu uma ordem para não comer o fruto do conhecimento. Esta dificuldade em ouvir permanece com a humanidade até os dias de hoje. O Criador desejava ter com os seres humanos um tipo de relacionamento baseado no diálogo, mas o homem preferiu o caminho mais doloroso: o silêncio.

Ao longo da Bíblia é comum destacar várias orientações sobre a importância de se ouvir. O rei Salomão enfatiza no livro de Provérbios 18:3 que é tolice responder antes de ouvir: “Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha”. Dentre muitas citações sobre o assunto ao longo das Escrituras, Tiago reforça (1:19): “Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar”.

Ouvir é terapêutico

O maior dos exemplos sobre a arte de ouvir vem de Jesus. Em todo seu ministério Ele foi modelo no que fazia mantendo o hábito de dar atenção às pessoas e de parar para ouvi-las, independentemente do “grupo” a que pertenciam, para simplesmente criar uma ligação com elas, e então compartilhar a missão de que é chegado o Reino dos Céus.

Para o pastor João Freire Neto, do Ministério Internacional da Aliança (Mida), em Vila Velha (ES), saber ouvir depende não só do sentido da audição, mas de alguns fatores como: a formação familiar, emocional e “intelectual. “Ouvir bem é uma chave para bons relacionamentos. Existem pessoas com necessidade de encontrar alguém para ouvi-las”.

Nem sempre o divã de um terapeuta vai resolver o problema daqueles que só precisam falar sem que alguém tente interpretá-los, no que estão querendo dizer. “E a serenidade ao ouvir está ao lado do que pode ser a resposta que essa pessoa procura da parte de Deus”, orienta.

Ele lembra que a Bíblia é um livro completo e tem resposta para toda pergunta sem exceção. “O que precisamos é ouvir o que o Espírito tem a nos dizer na hora em que precisamos. Existem muitos textos bíblicos que fornecem base para falarmos da arte bem-sucedida de ouvir, com atenção e boa vontade”, diz.

O pastor exemplifica com o registro de uma história descrita em II Samuel 13 e 14. “Absalão mata o irmão Amnon por ter abusado sexualmente da sua meia irmã Tamar. Depois de ficar três anos ausente de Jerusalém ele retorna, porém o rei Davi, seu pai, não o recebe no palácio. Joabe, comandante dos exércitos do rei Davi, se tornou interlocutor entre os dois e arquiteta um plano para que Davi o receba. Joabe contrata uma mulher tecoíta e coloca as palavras que ela deveria usar na sua audiência com o rei. Se ler o texto em questão, vai descobrir que Davi acompanhou o caso com tanta atenção e cuidado que no final ele descobriu que aquela mulher estava lhe falando uma coisa, mas queria  dizer outra”, relatou o pastor.

O pastor exemplifica com o registro de uma história descrita em II Samuel 13 e 14. “Absalão mata o irmão Amnon por ter abusado sexualmente da sua meia irmã Tamar. Depois de ficar três anos ausente de Jerusalém ele retorna, porém o rei Davi, seu pai, não o recebe no palácio. Joabe, comandante dos exércitos do rei Davi, se tornou interlocutor entre os dois e arquiteta um plano para que Davi o receba.

Joabe contrata uma mulher tecoíta e coloca as palavras que ela deveria usar na sua audiência com o rei. Se ler o texto em questão, vai descobrir que Davi acompanhou o caso com tanta atenção e cuidado que no final ele descobriu que aquela mulher estava lhe falando uma coisa, mas queria dizer outra”, relatou o pastor.

Ofício ou ministério

No mercado para alguns a audição é uma ferramenta de trabalho. Existem profissionais treinados para ouvir, como é o caso dos psicanalistas, assistentes sociais e psicólogos. Para cada fim uma particularidade. Danielle Silvestre Domingues, da Comunidade Água Viva, Serra (ES), conta que no exercício de seu trabalho como assistente social é imprescindível a atenção ao que os outros falam.

“Quando o outro fala e estamos verdadeiramente atentos, conseguimos observar detalhes que nem mesmo as pessoas que falam conseguem perceber, ajudando-as então a identificar angústias, preconceitos e pré-noções que podem ser modificados”, comenta Danielle.
Porém, além de ser um ofício, a tarefa de pastor é um ministério. O gabinete pastoral é uma prática comum aos sacerdotes que procuram conduzir bem suas ovelhas. “Mas isto precisa se tornar uma prática mútua. Os mandamentos recíprocos dão uma mostra de que precisamos aprender a fazer isto como corpo de Cristo. Além disso, a igreja pode e deve estimular o surgimento de um ministério de aconselhamento que vá além do gabinete pastoral. Ministério que deve ser formado por pessoas treinadas para escutar”, destacou o pastor Gedimar Araújo, da Igreja Evangélica Ágape.

Ele avalia que um pastor amoroso desenvolve líderes amorosos e certamente atrairá pessoas. Os pastores têm como papel principal “equipar” os santos para que estes façam a obra do ministério e edifiquem a igreja. “Por outro lado um pastor que nunca tem tempo afastará suas ovelhas e fará com que estas procurem outros que as consigam ouvir. Os pastores não deveriam se preocupar em ‘ouvir’ bem as ovelhas, mas deveria ‘treinar’ outros para isto. Isto parte do princípio de Efésios: 4.11 e 12, que diz: ‘E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres; com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado’”, destaca Gedimar. A comunhão passa pela comunicação bem feita entre pais, filhos e o  diálogo em família.

O psicólogo e pastor da Igreja Batista Morada de Camburi, Vitória (ES), Erasmo Vieira, diz que ouvir é importante para uma vida de relacionamentos. “Deus mesmo começou isso, incentivando seus discípulos. Mesmo que estejamos batendo na tecla, muito bem usada, de que temos uma boca e dois ouvidos, ainda assim achamos, por questões egoístas, de baixa auto-estima ou de necessidade de grandeza, que falar é mais importante do que ouvir”.

Pastor Erasmo lembra que o livro de Gênesis leva a pensar que as tardes no Éden eram excepcionais. “Porque Deus e o casal passeavam gloriosamente com direito à conversas do mais profundo relacionamento. Na minha concordância bíblica encontro três páginas sobre ‘falar’ e seis sobre ‘ouvir’. Até nisso a Bíblia é extensiva e conclusiva. Achamos que não precisamos aprender a falar, mas precisamos aprender a ouvir. Engano. Se você quer aprender a falar, aprenda a ouvir. É um exercício. É um sacrifício. Mas vale a pena pelos relacionamentos”.

Até nos relacionamentos entre pais e filhos, marido e mulher, o ouvir é importante. Em síntese ouvir é terapêutico, didático e um ministério. Trata-se de uma arte que a própria igreja precisa dar estímulos para que a habilidade seja desenvolvida. Afinal todo mundo quer ser ouvido.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

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