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domingo, 28 novembro 2021

Os passos para educar filhos sadios e felizes

Especialistas ouvidos por Comunhão dizem que é possível criar filhos emocionalmente equilibrados e com chance de serem produtivos e felizes

Por Syria Luppi e Priscilla Cerqueira

Felicidade… Chegou uma criança para o lar! Porém, ter filhos significa uma mudança de vida, uma nova postura, é mais responsabilidade. Os pais se vêem confusos diante da missão de criar e prover o sustento de uma criança. Uma tarefa desafiadora! Em outubro de 2004, na edição 85, Comunhão tratou do tema “Filhos, o desafio de cria-los”, na reportagem escrita pela jornalista Syria Luppi, agora resolvemos trazer o assunto de volta.

Com tanta informação e tecnologia disponível a nossa volta, mais o aumento da desigualdade social, a crise política econômica no país, que interfere na mesa, e desrespeito à família, o desafio é ainda maior para os pais em relação a criar seus filhos. Levando em conta que a população brasileira é formada por 1/3 de crianças, imagine quantos pais temos hoje e que precisam saber como cuidar, educar e administrar conflitos!

Talvez por despreparo, negligência e até desamor, muitas crianças crescem sem o mínimo de referencial paterno e materno. E isso tem custado caro para muitas delas, já que tornam-se jovens e adultos problemáticos, confusos em suas escolhas pessoais, profissionais, emocionais e até espirituais.

Todos os pais querem que seus filhos se tornem adultos equilibrados e responsáveis. Mas conquistar isso não é tão simples. Não existe uma fórmula mágica para criar bem os filhos, porém, tem uma regra que, se aplicada com critério, vai criar o ambiente favorável para que os filhos se transformem em adultos emocionalmente equilibrados e com chance de serem produtivos e felizes?

O psicólogo Laurence Steinberg, da Temple University (EUA), em seu livro “Os Dez Princípios Básicos para Educar os Filhos”, acredita ter chegado a um denominador comum em quase 50 anos de pesquisas. A conclusão básica de seu estudo e a noção que lhe deu a certeza de ter encontrado a síntese ideal do relacionamento com os filhos, vem do fato de que toda a ênfase é colocada sobre as mudanças de comportamento dos pais – e não das crianças.

As mudanças nos relacionamentos ocorridas durante o século XX, tanto nas relações humanas quanto na educação, tiveram enorme impacto no modo como convivem os pais. Para o psicólogo inglês, Steve Biddulph, se os pais têm conflitos no casamento ou traumas pela forma com que foram criados na infância, esses problemas vão repercutir na vida da criança a curto e a longo prazo. “Se ajudarmos os adultos a manter o casamento e superar as frustrações pessoais, eles vão criar melhor os filhos”, revela.

Fonte: Laurence Steinberg – (livro: Os Dez Princípios Básicos para Educar os Filhos)

Impor limites: um gesto de amor

Uma das maiores autoridades sobre a família dos Estados Unidos, John Drescher afirma que a maior necessidade de um filho é ser amado.

“A hora de amar é agora, amanhã pode ser tarde demais para balançar o bebê, amanhã o pequenino não estará fazendo perguntas, amanhã o escolar não precisará de ajuda na lição de casa, tampouco trará seus amiguinhos para brincar. Amanhã o adolescente já terá feito importantes escolhas e não sentirá necessidade de sua opinião. Amanhã, teremos a proximidade ou distanciamento de nosso filho, dependendo de como usamos agora o tempo com ele”, diz um trecho do seu livro “Sete necessidades básicas da criança”, editado pela Mundo cristão.

E um dos princípios do amor é saber impor limites para os filhos, pois eles são uma base segura para desenvolver bons relacionamentos, segurança e equilíbrio na vida pessoal. Isso é uma recomendação bíblica. Filhos que respeitam os limites e são obedientes aos pais poderão exercitar e obedecer aos limites externos impostos pela lei social, pela moral e pela ética sem maiores choques.

Uma das pioneiras na discussão do papel dos limites na educação no Brasil, Tania Zagury afirma que o papel dos pais é de formar cidadãos, pessoas capazes de, pela postura ética, transformar a sociedade e que os limites devem ser aplicados na “medida”, em uma relação de diálogo, compreensão, amor e carinho. “Quando se diz “não”, é preciso explicar claramente o motivo. Senão, o castigo pode ser entendido como arbitrariedade e pode estimular rebeldia na criança”, argumenta em seu livro “Limites sem trauma”.

O que pode destruir?

A educação de uma criança vai além das muralhas familiares. Os pais precisam participar da formação do caráter dos filhos, pois isso pode evitar problemas futuros. Uma dificuldade na criação dos filhos é que, embora eles precisem de ajuda em todas as áreas, nem sempre você vai conseguir fazer o melhor. Os pais têm a responsabilidade de ajuda-los a desenvolverem os traços de caráter, mas a capacidade deles de fazer isso em cada área não é mesma.

“Por exemplo, você, pai ou mãe, é forte no entrosamento, mas fraco nos limites. Ou é extremamente competente, mas seu perfeccionismo atrapalha na hora de ajudar seu filho a lidar com a realidade. Assim, talvez seja preciso você resolver alguns problemas primeiro. É importante que o pai ou a mãe reconheçam suas falhas e procurem ajuda para tratar suas fraquezas. É uma forma de conseguirmos carregar os fardos uns dos outros, conforme Gálatas 6:2”, diz Henry Cloud e John Townsend, no livro “Criando filhos vencedores”, da editora Vida.

É aí que vem o perigo! Muitos casais frustram-se na educação de seus filhos por causa de suas próprias incoerências. Pais lideram pelo exemplo, a falta dele no ensinamento faz com que os pais percam a autoridade sobre seus filhos e, muitas vezes, provoca neles a ira (Ef. 6:4).

Fonte: livro “Eu Amo Meu Filho – Dê o que ele realmente mais precisa” (Jaime Kemp)

O pastor Paulo Lima, do ministério Família Debaixo da Graça, em Bragança Paulista (SP) afirma que uma educação errada com “mal exemplo dos pais arruínam a vida dos filhos”, e tem consequências na vida futura de uma criança. “Um exemplo disso é quando os pais são desonestos, pois eles também serão desonestos em ensinar, amar e implantar o caráter digno de serem copiados”.

Mas por que pais amorosos e bem intencionados têm filhos difíceis e mal ajustados? “Por que muitas vezes, inconscientemente, recompensamos os filhos por comportamento negativos usados para chamar atenção”, explica o pastor.

A Bíblia mostra exemplos de pais que tiveram dificuldades em disciplinar seus filhos. Um deles foi o profeta Eli, que mesmo sendo um tremendo juiz e profeta de Deus não conseguiu ter sucesso na criação de seus filhos. “Pois eu lhe disse que julgaria sua família para sempre, por causa do pecado dos seus filhos, do qual ele tinha consciência; seus filhos se fizeram desprezíveis, e ele não os puniu” (I Sam.3:12-13)”.

Educação com propósito e essência divina

A boa educação e instrução no lar resultarão no aperfeiçoamento do caráter dos filhos, no relacionamento sadio da família, num grande benefício para a sociedade como um todo. Por isso a recomendação bíblica: “Instrui o menino no caminho que deve andar e até quando envelhecer não desviará dele” (Provérbios 22:6).

“Se não queremos que nossos filhos se amoldem aos padrões desse mundo, precisamos ensiná-los, nós mesmos, os padrões que nossa família deve seguir, à luz da palavra de Deus” – Pastor. Paulo Lima. Foto: Reprodução

“É importante que os pais desde cedo se preocupem com a formação cristã dos filhos e os levem a Casa de Deus e os estimulem a conhecer Sua Palavra”, aconselha o pastor Paulo Lima. Ensiná-los a Bíblia é importante (Deuteronômio 6:1). Mas para que o ensino seja eficaz é necessário que esta Palavra esteja, primeiro, no coração dos pais que devem testemunhar do amor e dos feitos de Deus (Salmos 78: 4).

“Quando os pais são tementes a Deus e seguidores de seus ensinos, é fonte de vida e aqueles que conviverem com eles beberão das suas virtudes (Prov. 1:2-7)”, declarou o pastor Saul Rodrigues Pereira, da igreja batista de Cariacica (ES), ouvido na época da reportagem. Faz parte da educação dos filhos os pais estarem intercedendo por eles junto a Deus. “Precisa haver uma humilde submissão à soberana vontade de Deus e busca pela sabedoria para cumprir essa missão”, lembra.

É justamente isso que faz o casal Anúzia e Marcyus Barros. Membros da igreja batista em Jardim Camburi, Vitória (ES), eles educam as duas filhas, Maria Alice, de 4 anos e Letícia, 11 meses nos caminhos do Senhor. Eles não só intercedem, mas dão o exemplo para elas também. “É quase impossível ensinar algo que nós mesmos não vivemos. Priorizamos individualmente nosso tempo com Deus, nos enchemos d’Ele, e então isso transborda em nossa educação. A coerência entre o que ensinamos e como vivemos (o que priorizamos, como tratamos as pessoas, como lidamos com dificuldades, entre outras coisas) é essencial para um processo educacional que funcione”, disse Anúzia.

Jó “chamava por seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles” (Jó 1.5). Em Provérbios encontramos várias admoestações aos filhos para atentarem ao ensino de seu pai ou de sua mãe. Os filhos que ouviam seus pais, demonstrando um viver correto diante de Deus e dos homens, eram considerados sábios, pois seguiam conselhos de sabedoria.

“Muitos valores se perderam com o tempo, como por exemplo o ato de pedir benção aos pais – que são autoridades espiritual sobre os filhos. Deus mandou Abraão abençoar seus filhos. É importante o respeito do filho com os pais e vice-versa. Nossa sociedade sofre as penalidades da desobediência. Vemos jovens e adolescentes frios na fé justamente devido a frieza que há no lar, seja ela espiritual ou fraterna. Muitas mulheres, mães, têm deixado de cumprir seu papel no lar, e muitos homens também e o que vemos é crianças sendo educadas pela TV”, lembra o pastor Saul.

Em meio a um mundo tão tecnológico, virtual, onde todos estão hiperconectados como hoje, o desafio de criar os filhos tem sido ainda mais desafiador. Anúzia e Marcyus reconhecem essa dificuldade, mas o tempo das telas é limitado e o mais importante é estar juntos. Afinal, as crianças são nossas. Deus as colocou em nossas mãos e nos deu a responsabilidade de atender às suas necessidades.

“Educar de verdade consome mais que alguns minutos por dia, implica abrir mão de algumas coisas para ter mais tempo com nossos filhos investindo na instrução, no ensino, na disciplina, na correção, no exemplo, e no amor”.

Além disso, o casal estimula as filhas a estarem na casa de Deus e O conhecerem. “Se não queremos que nossos filhos se amoldem aos padrões desse mundo, precisamos ensiná-los, nós mesmos, os padrões que nossa família deve seguir, à luz da palavra de Deus”.

“Para educar seu filho e ensiná-lo o Evangelho do Reino de forma eficiente, é necessário: Conhecer as necessidades dos meus filhos, saber suprir suas necessidades e conseguir discipliná-los. Devemos evitar cometer os mesmos erros de Davi, Eli e outros e seguir o que diz o livro de Provérbios 19:18: ‘Discipline seu filho, pois nisso há esperança; não queira a morte dele’”, acrescentou o pastor Paulo Lima.

Nenhum ensino é mais impactante do que o exemplo paterno e materno. Se os pais não amam, ensinam aos filhos que não é necessário amar. Se os pais não perdoam, eles também terão dificuldade em perdoar. E se os pais não dão valor às coisas de Deus, é isto que ensinam, mesmo que seja sem palavras.

“Ensinar a criança não é uma opção que Deus dá como pais, mas acima da obrigação deve ser um privilégio, uma alegria e uma grande satisfação poder participar da formação dos filhos. Muitos pais se escondem atrás da Escola Bíblica achando que cabe a eles ensinar sobre o Reino de Deus. Isso é um triste engano”, acrescentou Saul.

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista Comunhão – outubro/2004, produzida pela jornalista Syria Luppi e atualizada em 2021 (Priscilla Cerqueira). Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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