A Palavra de Deus está repleta de exemplos que demonstram a importância de uma vida que permanece em comunhão com o próximo
Bom e agradável é quando os irmãos vivem em união. Muito mais do que uma virtude que estabelece a coerência e organização para relacionamentos saudáveis, a comunhão é o desejo de se viver e agir em conjunto mesmo em meio às dificuldades que se estabelecem no decorrer da vida. A comunhão é também o estilo de vida mostrado e desejado por Jesus para sua igreja, e tem o poder de superar as diferenças mesmo quando o ódio, a insegurança e a solidão tentam interromper esse processo.
Estar em comunhão pode trazer inúmeros benefícios, como receber e dar palavras de encorajamento para os desanimados; amadurecimento por meio dos relacionamentos, compartilhando a bagagem pesada que a vida muitas vezes oferece com ombros que estão dispostos a ajudar a carregá-la; e proteção para os indefesos, a exemplo dos apóstolos, que viajavam em equipe almejando mais segurança, como narra 2 Timóteo 4:11 – “Só Lucas está comigo. Traga Marcos com você, porque ele me é útil para o ministério.”
A Palavra de Deus traz consigo conselhos muito preciosos sobre relacionamentos saudáveis. Um deles se encontra no livro de Provérbios 18:1 – “Quem vive isolado se preocupa apenas consigo e rejeita todo bom-senso”. A partir desse princípio descrito nas Sagradas Escrituras, é preciso lembrar a importância de se estar rodeado de boas companhias, bem como os malefícios que podem advir das más companhias.
Para a pós-doutora em Antropologia e História pela Universidade de São Paulo e pós-doutoranda em Estudos de Globalização pela Universidade Aberta de Lisboa, Lídice Meyer, o autor da carta bíblica de Hebreus deixa um alerta sobre o perigo de se deixar de comungar com aqueles que têm a mesma fé. Ela também destaca que os cristãos primitivos apresentados em outro livro bíblico, Atos dos Apóstolos, procuraram viver isso com muita propriedade em sua caminhada cristã.
“Fomos criados para viver em comunidade. A comunidade da fé é o mais próximo que podemos ter aqui na Terra do propósito estabelecido por Deus para a humanidade. A família da fé é o local onde cada pessoa pode buscar apoio, compreensão e força nos momentos de insegurança e medo. Abster-se disso é abrir mão conscientemente de toda a riqueza emocional, social e espiritual que a comunhão com os irmãos na fé pode propiciar”, destaca Lídice, que é também escritora, palestrante, pesquisadora e docente no Mestrado em Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa, Portugal.
Diálogo é indispensável
A falta de diálogo é um problema que impede o estabelecimento de relacionamentos saudáveis. Assim, para uma boa convivência, a comunicação é essencial, pois é o meio mais eficaz para evitar conflitos, desentendimentos, provocações, intrigas, desrespeito, que tornam desagradáveis os relacionamentos interpessoais. Para Lídice, o pecado é a origem dessas divisões e sectarismos que podem estar presentes no ambiente familiar, no ambiente profissional e até mesmo em muitas comunidades de fé.
“Mesmo dentro da Igreja de Cristo vemos as divisões ideológicas e políticas se sobrepondo muitas vezes ao amor de Cristo que deveria nos unir. A igreja, que deveria ser o padrão de transformação para o restante do mundo, o sal, a luz, tem se misturado sem dar sabor e sem iluminar. A mudança só será possível se começar dentro de cada um de nós a partir do momento que nos percebemos como pecadores e necessitados da graça e do perdão de Deus”, completa a professora.
Para ela, o amor de Deus é a única cura possível para o ódio no coração humano, pois enquanto a igreja não reagir e combater a intolerância ao diferente, ela será parte do problema e não a solução. Logo, a Igreja de Cristo foi chamada para fazer a diferença, que só é manifestada quando há coragem. E nisso a palavra de Deus é muito clara no Evangelho de Mateus 5:44 – “Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem por quem os persegue”.
“Nossa identidade é formada em complemento à dos demais com quem convivemos. Quanto mais nos relacionamos com pessoas diferentes, mais também crescemos emocional, social e espiritualmente. Não só aprendemos pela observação dos outros como também nos transformamos através dessa convivência. Cada novo relacionamento que estabelecemos, seja bom ou mau, nos proporciona novas experiências de vida que não só nos fortalecem como nos capacitam a ajudar outros que porventura venham a necessitar dessas nossas experiências”, finaliza Lídice.
Lutando contra o sectarismo
Muitos são os desafios da sociedade atual. Ao observarmos de perto o Brasil e o mundo à luz dos acontecimentos políticos, religiosos e sociais constatamos que existem muitas divergências, pluralidade de ideias, e diferenças ideológicas quanto às crenças e valores que regem o bem-estar social. Permanece assim um ambiente conflituoso constante, explícito ou velado, em que as boas intenções e a tolerância são escassas.
Para o pastor e escritor Lisânias Moura, da Igreja Batista do Morumbi, em São Paulo, ter comunhão é correr o risco de nos tornarmos vulneráveis, sendo vistos pelos outros como realmente somos, pois por meio dela é possível compartilhar alegrias e tristezas, permitir-se estar acessível para vivenciar momentos de exortação e agir de maneira intencional para ajudar o próximo.
“A individualização é o oposto de como a Trindade Divina vive. O foco em si mesmo ou em si mesma, em vez de pensar no que outro ou a outra precisa. Se não vivemos em comunhão deixamos de saber o que outro precisa e, se não sabemos, não temos como repartir. Também a falta de comunhão nos torna mais vulneráveis ao erro ou pecado”, destaca o pastor.
Para ele, o isolamento pode ser fruto de um coração altivo, que não querer ser visto em suas fraquezas. Sendo assim, o isolamento reflete o medo da rejeição e cria uma falsa sensação de que a pessoa se basta a si mesma, que é o orgulho. Portanto, por detrás da solidão existem medo e altivez, fatores prejudiciais para uma boa comunhão, que pode ser restaurada por meio do amor incondicional de Deus e que tem o poder de proporcionar liberdade e libertação do isolamento e demais sectarismos.
“A comunhão gera riscos, especialmente o risco de sermos vistos pelo outro como realmente somos. Ao nos deixarmos ver pelo outro como somos, seremos amados como somos e não pelo que fazemos. Como poderemos ser rejeitados? Se formos rejeitados, com certeza estaremos no lugar errado para desfrutar comunhão. Sem este aspecto, não viveremos em comunhão, mas em mero relacionamento superficial”, afirma Lisânias.
Ao citar a Trindade Divina que reflete a pessoa de Deus, em que diferentes pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, são uma só, diferentes papéis, mas uma só essência, ele afirma que a comunhão começa no próprio Deus e deixa explícito o exemplo de que o amor cristão implica amar como a Trindade se ama entre si, e servir a exemplo da Trindade. Uma passagem bíblica que ilustra isso é narrada em 2 Coríntios, que registra que as igrejas da Acácia se unem para fazer uma oferta para suprir as igrejas de Jerusalém.
O exercício da comunhão
A Palavra de Deus descreve a igreja como um corpo e que cada um exerce sua função na família de Deus, a exemplo do que ensina a carta de Romanos 12:5b – “Somos membros diferentes do mesmo corpo, e todos pertencemos uns aos outros”. Essa mesma interdependência apresentada entre a família de Deus deve automaticamente combater os inimigos que se levantam contra a comunhão.
Para o crescimento e amadurecimento do corpo de Cristo de maneira saudável deve existir o equilíbrio de tudo aquilo que é exigido para um crescimento natural. À exemplo do que acontece conosco, em que infância, adolescência e juventude são definidas por meio de fases e equilíbrio, assim também deve ser a igreja, desenvolvendo suas habilidades em busca de um objetivo comum descrito em Efésios 4:13 – “Até que todos alcancemos a unidade que a fé e o conhecimento do Filho de Deus produzem e amadureçamos, chegando à completa medida da estatura de Cristo”.
Para o pastor Luciano Estevam, da Primeira Igreja Batista de Aracruz, a comunhão descrita na Palavra de Deus requer interdependência dos membros, que estão ligados uns aos outros e comandados pela cabeça, que é Cristo. Sendo assim, a comunhão vertical e o relacionamento com Deus são essenciais para dar o equilíbrio necessário e promover os fatores que o Corpo de Cristo necessita para uma boa saúde.
“A comunhão deve ser exercitada. Perdemos a comunhão com Deus ou dela nos afastamos quando deixamos de ouvir a voz do Senhor e não conversamos com Ele. Se você não se relaciona com as pessoas, não adquire ou perde a intimidade, se é que existia”, destaca o pastor Luciano.
A partir dos conselhos descritos na Palavra de Deus, que deixam um grande exemplo e incentivo para que bons relacionamentos com Deus e com o próximo sejam construídos e mantidos – ou até mesmo reconstruídos, se danificados -, é necessário entender que cada um pode fazer a sua parte e dar o primeiro passo para estabelecer, por meio de suas ações, uma caminhada em direção à mudança e ao aprofundamento das relações com o próximo e com Deus.
“A família da fé é o local onde cada pessoa pode buscar apoio, compreensão e força nos momentos de insegurança e medo” – pós-doutora em Antropologia e História Lídice Meyer
“Se não vivemos em comunhão, deixamos de saber o que outro precisa e, se não sabemos, não temos como repartir” – Pastor Lisânias Moura

