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domingo, 5 dezembro 2021

O valor de Uma esposa de Pastor

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Deve a esposa do pastor dedicar-se integralmente à igreja, não podendo ter um emprego secular?

 Por Lidice Meyer

Quem é a esposa do pastor? Que mulher é esta de quem muitos esperam uma atividade igual ou semelhante ao esposo? Algumas casaram-se com seminaristas ou pastores ordenados, mas outras convivem com a vocação tardia de seus esposos. Surgem as perguntas: A vocação pastoral é para o casal? Deve a esposa do pastor assumir as funções de líder do trabalho feminino, professora da classe dominical, regente do coral, pianista, conselheira, entre outras? Deve a esposa do pastor dedicar-se integralmente à igreja, não podendo ter um emprego secular? Como Katharina Zell, a primeira esposa de pastor da história pode nos ajudar com estas questões?

Katharina tinha 21 anos quando ouviu pregar em sua cidade, Estrasburgo, o sacerdote reformado Mateus Zell, em 1518. Katharina havia aprendido a ler e escrever na infância, coisa rara em seu tempo, e era ávida leitora da Bíblia. Quando ouviu a pregação de Mateus obteve respostas para perguntas que tinha há tempos. Converteu-se ao protestantismo e alguns anos mais tarde, de ovelha tornou-se esposa de pastor.  Mateus Zell foi o primeiro sacerdote reformado a se casar. Como reprimenda, foi excomungado. Katherina não deixou por menos! Escreveu ao Bispo com um texto centrado na Bíblia defendendo a possibilidade de sacerdotes casarem-se. Seu casamento foi uma verdadeira relação de cumplicidade. Seu marido a tratava como ministra/pastora assistente. Katharina certa vez afirmou que eram “uma só mente e coração…o que nos unia não era ouro ou prata. Possuíamos algo maior: nossos olhos estavam sempre em Cristo.”

A residência do casal tornou-se a primeira casa pastoral da história. Diz ela: “Já no início de meu casamento recebi pessoas excelentes e eruditos aos quais confortei como Deus orienta: apoie e sustente os de joelhos fracos.” Certa vez chegou a hospedar 80 refugiados protestantes ao mesmo tempo e escreveu às suas esposas estimulando-as a permanecer firmes na fé. Entre os que passaram pela casa pastoral dos Zell estavam Brucer, Zwinglio, Oecolampadius e João Calvino. Quando Lutero e Zwinglio discordaram sobre a santa ceia, Katherina escreveu a Lutero exortando-o de que o amor cristão deveria estar acima de qualquer desavença.  Durante a peste cuidou de muitos ficando conhecida como a “mãe dos pobres e doentes.” Escreveu muitos textos teológicos, estudos bíblicos e panfletos de divulgação da Reforma.

Pregou três vezes: na morte de seu amado esposo e no sepultamento de duas mulheres anabatistas, cuja cerimônia havia sido recusada pelos pastores por considerarem-nas hereges. Devido a estas pregações públicas foi acusada pelo pastor que sucedeu ao esposo, Rabus, de “perturbadora da ordem”. Katharina respondeu: “Você chama de perturbar a ordem que, ao invés de gastar meu tempo em frivolidades eu tenha visitado doentes e carregado seus mortos? Visitei encarcerados e condenados à morte. Muitas vezes fiquei sem comer ou dormir por três dias. Nunca subi num púlpito, mas fiz mais do que muitos pastores. E isso perturba a paz da igreja? Vocês pisam nos túmulos dos primeiros pastores de Estrasburgo e punem todos que discordam vocês.”

Katharina mostrou que uma esposa de pastor não precisa ser uma pastora, mas uma companheira, cúmplice e colaboradora no ministério do esposo. Exerceu sua vocação social com dinamismo e entrega e acima de tudo buscou viver uma vida digna do Evangelho no amor de Deus que não faz acepção de pessoas.  Mesmo assim, sofreu críticas. Mas não se deixou intimidar em defender o esposo, seu ministério e a igreja. Hoje a realidade das esposas de pastor pode ser bem diferente, mas todas podem fazer o mesmo que Katherina. Ser esposa de pastor não é um dom, mas é uma tarefa que exige responsabilidade, cumplicidade, coragem e necessita de amor e apoio de todos que a cercam e da igreja.

Lidice Meyer Pinto Ribeiro é Dra. Em Antropologia, Professora na Universidade Lusófona em Lisboa, Portugal

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