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sexta-feira, 19 agosto 2022

O segredo da autoestima de Marguerite Porete

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A obra de Marguerite Porete é um espelho de sua vida, mulher culta que resolveu dedicar-se a prática pública do bem e da caridade

Por Lidice Meyer Pinto Ribeiro

Autoestima é a percepção que temos de nós mesmos que gera um juízo de valor positivo ou negativo. Há momentos em que nos sentimos mais confiantes com nosso desempenho e há outros em que nos sentimos mais fracos.  Mas, autoestima e fé andam juntas. O autor do livro de Provérbios já alertava: “Se te mostras fraco no dia da angústia, a tua força é pequena” (Pv 24.10) A autoestima positiva é fruto da fé que temos em Deus e em seus propósitos para a nossa vida.  É confiar que aquele começou a boa obra em nós irá também completá-la (Fp 1.6). Mas só conseguimos desenvolver esta autoestima à medida em que buscamos o conhecimento e a presença de Deus em nossas vidas, pautando nossos dias em uma vida digna do nome de Cristo.

Marguerite Porete, uma beguina[1] na França do século XIII, é um exemplo de como a convicção de estar sob a vontade de Deus gera uma autoestima que ninguém consegue destruir. Marguerite escreveu sua grande obra “O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas e que Permanecem Somente na Vontade e no Desejo do Amor” em francês antigo. Ela compreendeu que o antídoto para a ansiedade que tenta baixar a autoestima estava em 1 Pedro 5.6,7: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” E a partir desta convicção escreveu que “a alma aniquilada, amorosa de Deus lançando-se ao nada, recebe tudo, mais saber do que o contido nas Escrituras, mais compreensão do que a que está ao alcance da razão, ganha a liberdade perfeita e torna-se capaz de experimentar a ‘paz de caridade’. Sendo transformada por Amor em Amor, a alma que acolheu a maior humilhação adquiriu alta nobreza. Ela não procura mais a Deus porque se encontra transformada em Deus”.

A obra de Marguerite Porete é um espelho de sua vida, mulher culta que resolveu dedicar-se a prática pública do bem e da caridade, ao invés de entrar para um convento, o que ela considerava uma vida infeliz de martírios e ascetismo. Seu livro foi rapidamente traduzido para outras línguas e seu conteúdo divulgado no meio cristão, tendo sido aprovado por teólogos de seu tempo como Godfrey de Fontaines. Isto não tardou a chamar a atenção de alguns que julgavam impossível que uma mulher pudesse ter essa compreensão da Bíblia ou de Deus e ainda mais escrevendo em francês. Marguerite foi considerada uma herege e seu livro deveria ser queimado em praça pública. Foi presa e entregue ao pior inquisidor da época, Guilherme de Paris. Marguerite durante o julgamento recusou-se a retratar suas ideias, confiante que havia sido inspirada por Deus para escrever seu livro. Condenada, foi queimada na fogueira com seu livro em suas mãos, em 1 de junho de 1310. A multidão que acompanhou sua morte na praça de Paris, chorou ao testemunhar a calma com que enfrentou sua morte. Marguerite demonstrou sua autoestima mesmo no pior dia de angústia, mostrando em sua força, a grandeza de sua fé. Seu segredo? Uma vida em total entrega a vontade de Deus: “já não sou mais eu quem vivo, mas Cristo vive em mim.” (Gl 2.20)

Com Marguerite aprendemos que: somos criados à imagem e semelhança de Deus, de uma forma única e especial e que Deus tem um propósito para cada um de nós. A autoestima cresce na medida em que temos a certeza de viver sob o propósito de Deus.

Lidice Meyer Pinto Ribeiro é doutora em Antropologia, Professora na Universidade Lusófona, Portugal.

[1] As beguinas foram mulheres solteiras e casadas que buscavam o estudo da Bíblia, a oração e a prática da caridade, sem a necessidade de assumir os votos nos conventos. O movimento começou no séc. XII na Europa e cresceu muito na Alemanha, França e Bélgica.

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