Reflexões sobre o que acontece conosco quando os pais que sempre cuidaram de nós começam a precisar de cuidado no processo das transformações da velhice
Por Patrícia Esteves
A perda de um pai ou de uma mãe é uma das experiências mais universais e temidas da vida, e ainda assim pouco falada. É difícil imaginar que um dia vamos cuidar daqueles que cuidaram de nós. Para muitas pessoas, não há aviso, manuais nem cursos que nos preparem para esse momento inevitável.
Essa angústia e essa lacuna existencial são centrais no livro de memórias da comentarista política e escritora Molly Jong-Fast, How to Lose Your Mother (Como perder sua mãe). Filha da renomada autora Erica Jong, ela narra o declínio cognitivo da mãe, diagnosticada com demência, enquanto lida com outras crises familiares e pessoais. Para ela, a experiência não foi breve, mas prolongada e emocionalmente exigente.
A marcha silenciosa do envelhecimento
Molly recorda que, quando a mãe começou a apresentar sinais de demência, sua vida já estava em tumulto. O mesmo ano marcou o diagnóstico de um câncer raro de seu marido, Matthew Adlai Greenfield, e, pouco depois, seu padrasto foi diagnosticado com Parkinson. Ela também se viu responsável por manter pais, filhos e até um cachorro idoso sob o mesmo teto durante o período da pandemia.
Esse relato quebra o silêncio sobre uma realidade que muitos evitam por receio ou vergonha. Para Molly, existe um estigma ligado ao envelhecimento que é tão forte quanto aqueles que envolvem dependência e doenças crônicas.
“Eu acho que existe muita vergonha em torno do envelhecimento. É simplesmente uma marcha constante em direção à morte, e ninguém sabe o que acontece depois disso”, disse.
Ela compara essa aceitação gradual do fim da vida com a sobriedade que conquistou aos 19 anos. “Falo sobre estar sóbria o tempo todo. Eu bebo demais, eu tenho uma doença, eu não sou uma pessoa ruim. Eu posso conseguir ajuda”, são palavras que usa para desestigmatizar tanto seu passado quanto a fragilidade humana do envelhecer.
Culpa, laços complicados e responsabilidade
Na conversa que teve com com Katty Kay, em entrevista à BBc News, Molly também aborda a complexidade da relação com a mãe, pois havia, no passado, mais glamour do que intimidade. Erica Jong era uma figura literária marcada pela fama, e essa referência pública influenciou profundamente a dinâmica familiar.
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“Não se sintam mal pelas coisas. O resto do mundo pode fazer você se sentir mal, ok? Mas não faça isso com você mesmo”, declara para outras pessoas que estão passando pelo mesmo dilema.
Sentido em meio à dor
Além de lidar com sentimentos pessoais, Molly confessa que esse processo a levou a grandes questionamentos. “O que eu achei mais interessante foi como ela me levou inevitavelmente a muitos questionamentos: por que estamos aqui? Qual o sentido de tudo isso? O que deveríamos tentar tirar dessa experiência humana antes que seja tarde demais?”, destaca.
Ela entende que seu sofrimento é também coletivo. Sua recuperação, construída sobre a sobriedade, ensinou-lhe que compartilhar a própria vulnerabilidade pode amparar outras pessoas. “Se você passa por algo e compartilha a experiência com alguém, você pode ajudá-lo. É quase uma psicologia junguiana; existe um sofrimento coletivo que pode ser compartilhado e amenizado”, diz.
Um legado de perdão, responsabilidade e honestidade
O livro de Molly Jong-Fast é mais do que um relato íntimo de perda e luto, é um convite à reflexão. Ao assumir seus sentimentos mais difíceis, ela abre espaço para que outras pessoas encarem suas próprias dores. A espiritualidade, para muitos, aparece exatamente nessa vulnerabilidade.
A Bíblia lembra que “ele dá força ao cansado, e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor” (Isaías 40:29). Essa força, no caso de Molly, vem da coragem de dizer a verdade, de não fingir que está tudo bem e de permitir que outros se aproximem de seu luto. Com informações de BBC News.

