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terça-feira, 27 julho 2021

O que esperar do novo governo em Israel?

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O acordo da coalizão que reúne oito partidos prevê que Naftali Bennett comande o país até setembro de 2023, quando Yair Lapid, ex-ministro das finanças, assumirá por dois anos

Por Magno Paganelli

Depois do sempre conturbado processo eleitoral em Israel, a Knesset, o parlamento nacional aprovou no último dia 13 novo Governo de coalizão que deverá ficar no poder nos próximos anos. O acordo da coalizão que reúne oito partidos prevê que Naftali Bennett comande o país até setembro de 2023, quando Yair Lapid, ex- ministro das finanças, assumirá por dois anos. Com isso, o agora ex-Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que teve Bennett como aliado em seu governo, deixa o poder após longos doze anos.

Naftali Bennett, 49, é o primeiro judeu usando yarmulke (kippah) a receber o comando do Estado judeu e é a primeira vez que um político que obteve apenas 5% dos votos (6 cadeiras no parlamento com 120 posições) assume o posto. Bennett, um sionista religioso comprometido com a ideologia de direita, é do partido ultranacionalista Yamina (“à direita”, em hebraico), se torna o 36º Primeiro-ministro de Israel.

A coalisão que o elevou ao cargo envolve o partido de centro direita de Yair Lapid, um liberal de Tal-Aviv firmemente secular cuja família (o pai foi político) se distancia dos ultra ortodoxos. Ambos, Bennett e Lapid, são diferentes em termos de temperamento. Bennett é precipitado, Lapid é moderado, mas mantêm traços e valores em comum, entre eles – e isso nos interessa, é o relativo interesse pelo afastamento da ala e das pautas ultra religiosas, que em geral são responsáveis por mais atritos na região do que por acordos bom para todos. Nesse ponto, os evangélicos brasileiros podem estranhar as relações com o Brasil, mas tudo ainda é incerto nos próximos movimentos do novo Governo.

Interessante nessa coalizão é a participação de um pequeno partido árabe, o Ra’am, liderado por Mansour Abbas, que obviamente trabalha pelos interesses da comunidade muçulmana no país, entre eles a proteção dos costumes islâmicos e mais recursos para cidades com boa presença árabe em Israel. Além disso, a coalizão aproxima o nacionalista de extrema-direita Avigdor Lieberman, sempre contrário a pautas não ideológicas de Israel e opositor ferrenho a qualquer concessão ou diálogo mais amistoso nos processos de paz com os palestinos. Além de polêmico, já deu a entender que se tomassem “medidas medievais” contra deslealdade de líderes árabes, como a decapitação.

Para “apimentar a relação”, compõem o novo governo esquerdistas ideológicos como Merav Michaeli e o trabalhista Nitzan Horowitz, do partido Meretz. Vale lembrar que os trabalhistas em Israel produziram mais rodadas de diálogo com palestinos, mas nem por isso se distanciaram completamente da ideologia da ocupação.

Em relação ao Brasil, a situação se coloca da seguinte maneira. Já há previsões de que o Presidente Bolsonaro acabou isolado de vez, já que ainda na campanha pela eleição, sinalizou sua aproximação ao agora ex-Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.  Teria restado a Bolsonaro o alinhamento com países “inexpressivos”, como Hungria, Polônia e Turquia. É preciso lembrar que Brasil e Israel não é equivalente a Bolsonaro e Netanyahu; as relações bilaterais envolvem outros setores do nosso Governo que, internamente, têm boas relações com certas instâncias do Governo do país do Oriente Médio. Além disso, a cooperação no setor de segurança nos aproxima de parte da indústria israelense, e isso não deverá ser afetado.

Quem deverá estranhar um pouco e sentir certo “esfriamento” no ego é a Igreja evangélica, a ala afeita aos costumes e tradições judaicas (não somente os neopentecostais, mas tradicionais que flertam com essa nova “plástica” litúrgico- teológica). No próximo mês de dezembro, por exemplo, esses evangélicos não podem mais esperar pelos vídeos natalinos como os que Netanyahu fazia cumprimentando seus  apoiadores evangélicos brasileiros. Mas isso se a nova coalizão sustentar o Governo até lá, já que na teoria haverá uma união nacional, mas na prática, tudo é muito incerto, apesar da esperança de um tempo melhor para todos.

Magno Paganelli é Doutor em História Social (USP), Mestre em Ciências da Religião
(Mackenzie), professor e escritor.

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