A presença ativa dos pais nas brincadeiras fortalece vínculos, previne lacunas emocionais e contribui para o desenvolvimento saudável das crianças, destaca Cris Poli
Por Patrícia Esteves
Quando a presença dos pais em casa deixa de ser prioridade, o impacto não se restringe à rotina doméstica. Ele alcança a formação emocional das crianças e a maneira como elas constroem vínculos ao longo da vida. Para a educadora Cris Poli, da Escola do Futuro Brasil, a ausência dos pais não é um detalhe do cotidiano, mas um problema com consequências. “O grande desafio dos pais é conseguir estar com os filhos. A ausência deles é um erro tremendo. Traz um buraco emocional enorme”.
Cris Poli observa que a dificuldade de estar com os filhos não se resume à falta apenas de tempo. Mesmo quando há espaço na agenda, o cansaço emocional e físico costuma afastar os adultos da convivência com as crianças. “Hoje os pais dispõem de pouco tempo para ficar com os filhos. Essa preguiça tem a ver com a quantidade de trabalho exigido pela sociedade, que deixa pouco tempo para os filhos”, explica.
Segundo ela, esse cenário gera um distanciamento progressivo. “Esse pouco tempo estão cansados e estressados. Então, isso faz com que eles tenham esse cansaço de entrar na vida dos filhos”, explica. Entrar na vida dos filhos, conforme Cris Poli ensina, significa ir além da supervisão, envolve disponibilidade emocional, atenção e participação no cotidiano infantil, inclusive criando momentos de brincadeira com os filhos.
Brincar como linguagem de vínculo
Ao tratar da relação entre pais e filhos, Cris Poli aponta que o brincar não é apenas lazer, mas uma forma essencial de interação. “Uma brincadeira, por exemplo, de pega-pega, pique-esconde, ioiô, amarelinha, tudo isso que dá uma interação muito importante entre pais e filhos, hoje se perdeu”, afirma

Ela defende que o tempo compartilhado precisa ser vivido de forma intencional. “Quanto mais tempo tiver para estar com os filhos, melhor, mas que esse tempo seja um tempo de qualidade. Que esse tempo seja para brincar com eles, se sentar no chão, conversar, conhecer os filhos profundamente”, detalha a educadora.
Brincar deixa de ser algo acessório e passa a ocupar um papel estruturante na educação, cria memória afetiva, fortalece a confiança e comunica à criança que ela é vista, ouvida e valorizada dentro da família. O tempo de brincar aparece, na leitura de Cris Poli, como um espaço de conhecimento mútuo. É nesse chão compartilhado, nas conversas despretensiosas e nas brincadeiras simples, que pais deixam de ser apenas figuras de autoridade e passam a acessar o universo emocional dos filhos.
Ao defender que o tempo de qualidade seja usado para “brincar com eles, se sentar no chão, conversar, conhecer os filhos profundamente”, a educadora aponta para uma verdade muitas vezes ignorada de que pais só educam plenamente quando também se permitem conhecer quem os filhos estão se tornando. Brincar não é perda de tempo, mas uma das formas mais diretas de presença, escuta e construção de vínculo dentro da família.

