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domingo, 24 outubro 2021

O poder das refeições à mesa

Reunir a família para as refeições traz importantes benefícios para a convivência, a educação dos filhos e a saúde física e emocional de todos os familiares

Por Nadia Baptista

Os tempos mudaram, os hábitos mudaram e as famílias também. A correria e a falta de tempo da vida moderna acabaram fazendo com que muitas famílias perdessem um tradicional costume “de antigamente”: reunirem-se à mesa para as refeições. A perda deste hábito traz consequências incalculáveis para a estabilidade familiar, e também pode influenciar negativamente a educação dos filhos.

Retomá-lo, por sua vez, traz vitalidade para as relações familiares, melhora a convivência entre pais e filhos e ainda ajuda numa alimentação mais saudável para todos. Por que você não (re)começa agora a comer à mesa em família?

A hora das refeições foi por muito tempo um exemplo de união da família. Era comum que pais, filhos e até avós estivessem juntos se alimentando, trocando ideias e narrando fatos acontecidos durante o dia. Com o passar dos anos, esta atividade, importantíssima para a saúde física e emocional de todos na família, praticamente deixou de existir. Na Grã-Bretanha, uma pesquisa realizada pela empresa Mintel mostrou que as mesas estão se extinguindo naquele país.

O número de britânicos que não têm mesa de jantar chega a 25%, e 31% apenas a utilizam em ocasiões especiais, como o Natal e o Ano Novo.
Outras pesquisas, desta vez no Brasil, mostram que de 30% a 40% das famílias não jantam juntas em cinco a sete noites por semana. A hora do almoço em casa, junto com os familiares, há muito tem sido trocada por um sanduíche na lanchonete da esquina ou por uma refeição em frente à TV ou computador.

O diretor de Comunicação e Novos Negócios da Hortifruti, Fabio Hertel, é um defensor do hábito de fazer refeições em família. “O encontro à mesa é um importante acontecimento social, que precisa ser resgatado. Com as numerosas demandas e atividades que temos hoje, associadas a uma postura individualista, as famílias, por incrível que pareça, não se encontram nem criam laços afetivos profundos. A mesa é o melhor local para resgatar valores perenes. Dezenas de pesquisas comprovam que a harmonia pessoal e relacional aumenta quando sentamos à mesa com quem amamos”, afirma.

Os estudos atuais também mostram que as rotinas e os rituais familiares – como os almoços de domingo, Natal, Ano Novo e aniversários – podem trazer vários benefícios. Essas atividades têm sido relacionadas a uma maior satisfação conjugal, maior senso de identidade pessoal por parte dos adolescentes, crianças mais saudáveis, melhor desempenho acadêmico e fortalecimento das relações familiares, entre outros.
Um dos motivos que ajudam a explicar esses benefícios é que essas rotinas e rituais ampliam o tempo de convivência entre os familiares, possibilitando maior conhecimento mútuo e troca de experiências, formação ampliada de sua identidade pessoal e maior sensação de retaguarda social, o que daria a todos mais segurança em seus relacionamentos extra-familiares.

Benefícios comprovados por pesquisas

Um estudo publicado no Journal of Family Psychology em 2003 mostrou que, se uma família faz em conjunto três refeições por semana, por exemplo, terá passado algo como uma hora (cerca de 20 minutos por refeição) se comunicando pessoalmente sem a interferência de “ruídos”, como programas de televisão, por exemplo. Todos os que se sentam à mesa nestes momentos se beneficiam dessa interação de alguma maneira.

Também em 2003, foi publicada uma pesquisa no Journal of American Dietetic Association em que os pesquisadores da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, descobriram que as crianças entre os 11 e 18 anos de idade que realizavam as suas refeições em família comiam quantidades de frutas, vegetais, legumes e alimentos ricos em nutrientes maiores do que aqueles que se alimentavam isoladamente. Além disso, os adolescentes que tinham pelo menos sete refeições por semana em família consumiam menos comidas rápidas e snacks do que aqueles que comiam com frequência menor do que essa.

Em 2004, a revista Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine publicou um estudo com 4.746 crianças e jovens de 11 a 18 anos de idade mostrando que as refeições em família frequentemente estão associadas a um menor risco do desenvolvimento do hábito de fumar, beber e usar maconha, além de notas mais altas na escola e menor incidência de sintomas de depressão e pensamentos suicidas.

Convivência familiar

Mãe de dois filhos, um menino de nove anos e uma menina de cinco, Mônica Sartoretto conhece de perto todos esses benefícios. Em sua família, desfrutar desses momentos já virou tradição.

“No café da manhã eu não estou presente, pois saio cedo para trabalhar, mas o restante da família está reunida. Já na hora do almoço, todos os dias, todo mundo vem pra casa almoçar. Também é comum jantamos juntos, mas não obrigatório”, conta.

De acordo com Mônica, esse hábito precisou ser retomado. “Eu e Paulo, meu marido, morávamos em São Paulo. Mesmo quando ainda não tínhamos filhos, por conta da correria quase nunca conseguíamos estar à mesa juntos. Mas, quando solteira, sempre tive o hábito de comer com meus pais. Quando nos mudamos para o Espírito Santo, eu e Paulo passamos a cultivar esse hábito. É muito importante um momento nosso, de estarmos juntos”, defende.

Na casa dela, o período normalmente é usado para conversar sobre como foi o dia de cada um. “A gente conversa sobre como foi a escola, o que cada um fez, o que aconteceu na parte da manhã. É um momento de diálogo, que também usamos para orientar, quando percebemos que algo está errado com as crianças, e tentamos ensinar-lhes como agir corretamente”, explica.

Para a psicóloga e psicoterapeuta Vânia Márcia Ayres, é preciso que tais momentos sejam muito mais do que simples refeições. “Tão importante quanto ter um horário para se alimentar é fazer desse momento uma reunião familiar informal e dinâmica. A característica primordial é conversar, falar dos acontecimentos na escola, no trabalho, e desta forma emitir e transmitir valores. Esse encontro familiar diário pode ser utilizado para partilhar experiências e opiniões dos componentes do grupo ou mesmo tecer comentários sobre reportagens e notícias”, aconselha.

A união na hora das refeições promove o fortalecimento das relações familiares, além de ser um momento para criar e desenvolver intimidade. Segundo a psicóloga, “o importante é que o grupo familiar adote medidas ao longo do dia para ficar junto, conversar e se apoiar mutuamente”.

“O importante é que o grupo familiar adote medidas ao longo do dia para ficar junto, conversar e se apoiar mutuamente” – Vânia Mária Ayres, psicóloga

Alimentação mais saudável

Os pais servem de exemplo para os filhos. Por isso, estar à mesa é uma ótima oportunidade para ensinar-lhes a comer alimentos mais nutritivos. A família que se reúne e conversa durante o café da manhã, o almoço ou o jantar e oferece um cardápio variado e equilibrado incentiva os pequenos a experimentar novos sabores e a descobrir o mundo fantástico dos alimentos.

Já as crianças que se alimentam sem os pais ficam sem exemplos concretos de uma boa alimentação e, inevitavelmente, vão para a frente da televisão enquanto comem, vivenciando um sentimento de solidão e tendência à obesidade. A criança que come assistindo TV não sabe o que come, nem tem noção da quantidade ingerida.

Isso não faz parte da realidade da família de Mônica Sartoretto, que está sempre atenta ao que os filhos estão comendo. Por trabalhar fora, não é ela quem prepara as refeições, mas está sempre de olho no que a cozinheira irá preparar. “Estamos sempre controlando o que as crianças irão comer, se está faltando alguma coisa na alimentação ou até mesmo o que está sobrando e precisa ser mudado. Houve um período em que estávamos comendo batatas fritas todos os dias. Frituras em excesso fazem mal para a saúde, por isso, instituí aqui em casa o ‘dia da batata frita’, que é a quarta-feira. Nesse dia, as crianças já chegam em casa sabendo que vão poder ter batata frita no almoço”.

Hábitos cultivados

Mônica reconhece o bem que faz a toda a família estar junta nestes momentos. “Investir tempo nesse hábito vale muito a pena, porque nos aproxima. Às vezes, são só poucos minutos a mais que você precisa, mas é um momento único, sem interferência externa, para trocar experiências e também transmitir bons hábitos e valores. É nessas horas que orientamos os filhos sobre atitudes erradas, como mastigar de boca aberta, por exemplo. Não é só hora de comer, mas também um momento para desenvolvermos o relacionamento”, afirma.

Já Fabio Hertel acredita que este é um hábito a ser cultivado progressivamente. “Tome uma decisão firme de resgatar este hábito, que tem que ser um ritual combinado com todos. Seja flexível nos horários (café, almoço, lanche ou jantar), mas firme no propósito de estar junto à mesa com a família. Aumente gradativamente, e não se contente com as reuniões de domingo apenas. O tempo de um lanchinho pode ser mais impactante na vida de seu filho do que a excitação de uma grande reunião entre familiares. Invista seus talentos para tornar este momento bem legal. Crie brincadeiras, ‘telefone sem fio’, jogo da velha, forca etc. Tudo pode ser muito significativo se você colocar o coração nessa prática”, ensina.

Incentive a criança a ter prazer com o que come. Aos poucos, ela vai aceitando as novidades, aumentando o repertório de alimentos e aprimorando o paladar, desenvolvendo uma relação cada vez mais saudável com a comida. E não se esqueça de resgatar a mesa em seu lar, seja ela de jantar ou uma simples mesinha de cozinha. Reunir sua família em torno dela mais vezes por semana com certeza tornará a vida de todos mais feliz e saudável.

Esta matéria é uma republicação exibida na Revista SAMP, em 2012, produzida pela jornalista Nádia Baptista e atualizada em 2021. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi originalmente escrita.

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