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domingo, 20 setembro 2020

O levita autêntico

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Através da história bíblica, vemos que a definição de “levita” não se aplica apenas para quem se dedica à música na igreja

Uma expressão que se tornou comum no meio evangélico é classificar o músico ou ministro de louvor como levita da casa de Deus. Assim como muitos outros termos que se popularizam sem a adequada base bíblica, o ministério levítico é bem mais amplo.

Os levitas descendem da Tribo de Levi. Aqueles que vinham da família de Aarão eram sacerdotes, por determinação de Deus, e os outros levitas tinham a função de cuidar do tabernáculo e depois do templo em Jerusalém. Esse grupo era santificado e reconhecido, pois passava navalha por todo o corpo. Era purificado com aspersão da água da purificação, além de ter suas vestes lavadas.

Também se apresentava a Deus, em culto de adoração, todas as manhãs e tardes. Os levitas não foram contados no recenseamento de Moisés. Só quando Davi instituiu Salomão como rei de Israel houve essa inclusão. E ali havia 39 mil levitas com mais de 20 anos. Seu trabalho consistia em cuidar do ofício do culto, dos sacrifícios e da prática da adoração no tabernáculo e depois no templo, montar e desmontar as peças da Aliança, durante a peregrinação, além de guardá-las (Nm 1: 50-51). Cada família do clã tinha uma função específica, como: transportar móveis, cuidar das cortinas e véus do templo e deixar tudo muito limpo após os sacrifícios dentro do Tabernáculo.

Para terem dedicação total e dar conta de todo serviço, que ainda incluía a preparação de pães e outras iguarias, os levitas moravam perto do Tabernáculo e eram isentos de outros trabalhos (I Cr. 9:33). Números 4 fala que começavam a trabalhar no Tabernáculo aos 30 anos; já no capítulo 8 citam-se 25 anos, e no 23, 20 anos. O certo é que, aos 50, paravam de trabalhar, para serem mentores. Davi escolheu 24 mil levitas para supervisionar a construção do templo, 6 mil para serem oficiais e juízes, 4 mil como guardas e 4 mil para louvarem. É aqui que alguns deles são separados para a adoração musical (Nm 23:3-4). Davi ordenou aos chefes da tribo para separar grupos de cantores e instrumentistas (1 Cr. 15:16). Embora a música sempre estivesse presente na vida do povo de Israel, tanto no Velho Testamento, como no Novo Testamento, esta não tinha destaque nas celebrações religiosas.

Além das tarefas rotineiras, eles construíam instrumentos, escreviam os cânticos e eram professores, como visto em Números 8. A jovem Alana Coelho trabalha na Igreja Batista Morada de Camburi, em Vitória (ES), na função de auxiliar administrativo. Para ela, além da atuação profissional é um privilégio atuar concomitantemente na obra do Senhor.

“Quando você trabalha em outro lugar é diferente de trabalhar na igreja, justamente porque nos sentimos literalmente servos durante todo o tempo. Mesmo quando minhas tarefas estão conclusas, procuramos sempre colaborar com outros setores. É servir em tempo integral”, afirma.

Os levitas não tinham terras, não eram agricultores nem trabalhavam com madeira ou ferro. Eles foram separados por Deus para o trabalho específico no Tabernáculo, logo eram sustentados por meio de dízimos, conforme vemos em Ne. 12: 47, 10:37 e Lv. 27:30. Após a destruição do tempo de Jerusalém, por volta de 70 d.C. as funções do clã passaram a ser as da sinagoga e coordenadas pelos fariseus.

Músicos X Levitas

Para o ministro de Integração e Pequenos Grupos da Igreja Batista da Praia da Costa, Vila Velha (ES), o conceito de ser levita era aplicado em um contexto judaico, no Antigo Testamento. “De modo geral, os levitas receberam a incumbência de zelar pela pureza ritual do tabernáculo, cuidando da manutenção, transporte e proteção do santuário”, explica.

O pastor Henry ressalta que no Novo Testamento há apenas duas menções de levitas: na parábola do bom samaritano e em Barnabé, um levita. Houve uma ruptura cristã. “Quando o véu se rasgou, na crucificação, compreendeu-se que Cristo passava a ser o único Sumo Sacerdote, e o acesso ao Pai era livre de intermediários”. E houve, também, expansão do Evangelho aos gentios, que possibilitou comunidades cristãs dirigidas e frequentadas por não judeus. Com base em Nm. 3, se fôssemos aplicar hoje o princípio do ministério levítico, nas funções do culto, na visão do pastor Henry, seria da ornamentação e limpeza, passando pela música até a pregação.

“A partir do princípio protestante do sacerdócio universal, todo crente é um ‘levita’. É possível, hoje, chamar o crente de levita se houver a compreensão correta de que não é uma pessoa mais ‘espiritual’ ou que desempenha uma função única na igreja, mas sim qualquer crente-ministro-sacerdote que serve a Deus e ao próximo com alegria e amor”, afirma o pastor.

Ser levita

Para o ministro de louvor do Ministério Hebrom, da Igreja Assembleia de Deus, em Cachoeiro de Itapemirim (ES), Amaury Bertoqui, dentro do contexto das funções, o músico pode sim ser um levita. “Toda pessoa que se envolve no ambiente do culto, com mão de obra voluntária, pode sim ser chamado de levita. No sentido literal, tinha como objetivo que o culto fosse brilhantemente celebrado”. Amaury comenta que os descendentes de Levi possuíam funções específicas, como mostra Nm. 4.

Os gersonitas eram encarregados de tarefas como: levar as cortinas do tabernáculo e do pátio, a tenda da congregação, a coberta, o reposteiro da porta da tenda da congregação e da porta do pátio que rodava o tabernáculo, o altar, as cordas e todos os utensílios usados no seu serviço. Já os meraritas eram encarregados das tábuas do tabernáculo, varais, colunas e suas bases, estacas, cordas e todos os utensílios usados no serviço. E os coatitas pelo cuidado das coisas santíssimas, mas não podiam tocá-las, só transportá-las. Os filhos de Arão é que cobriam o que era usado dentro do tabernáculo.

Amaury observa que embora o levita tocasse e cantasse, segundo 1 Cr. 15.16 e 16.5,e 2 Cr. 5.12 e 29.25, só estará, exclusivamente, envolvido em trabalhos musicais a partir da inauguração do templo. Para ele, a atitude de adoração demonstra uma entrega sacrificial, obediência até as últimas consequências, fidelidade a Deus. “Levitas ou não, todas as vezes que nossas atitudes são decididas com base no exposto acima, então estamos adorando”, afirma. Ele acredita que: “O ministério daquele que se sente um ‘vaso exclusivo’ está fadado ao fracasso”. Ser adorador, segundo 1 Cr. 25: 1, 6 a 8, é estar separado para o serviço, entender o significado do ministrar, ser realmente um profeta, ter aptidão dentro da sua vocação e chamado, ser submisso, disposição para se aperfeiçoar, buscar instrução e a unidade, buscando fazer discípulos.

Perigo do conceito

Para o ministro de música da Igreja Batista da Orla, Vila Velha (ES), Paulo Paraguassu, os músicos podem ser chamados de levitas de forma simbólica. Ele chama a atenção para o perigo de se usar essa nomenclatura como status e não como serviço a Cristo. “Hierarquicamente, os levitas tinham função humilde, eram zeladores, cuidavam, limpavam, não existia vaidade. Um músico a serviço de Cristo deve, mais do que título, buscar a dependência de Deus”. O ministro acrescenta, ainda, que simbolicamente também deveriam ser considerados levitas os que servem na casa de Deus, operando o som, o multimídia, a transmissão ao vivo, os coreógrafos, os grupos de dança e os atores, entre outros.

O músico, compositor e escritor Atilano Muradas, aponta que há mais levitas do que apenas músicos. “Em 1 Cr. 25.1, temos o ‘levita músico’, em 1 Cr 26.1, o ‘levita porteiro’, em 1 Cr. 26.20, o ‘levita tesoureiro’ e, em Ne. 8.7-9, o ‘levita professor’. As atividades levíticas se parecem mais com as do diácono do que com as do pastor”.

Santidade

Para Atilano, se fôssemos aplicar o conceito de levita na atualidade, essas atribuições são referentes a introdutores, mestres, porteiros e tesoureiros. “Não precisamos imolar animais, como nos dias de Moisés, mas o ‘espírito da lei’ continua o mesmo: os adoradores devem se apresentar diante de Deus em santidade, com sinceridade e fazendo ‘exatamente’ como Deus pede.

“O véu que separava o homem comum da presença de Deus foi rasgado pela morte e ressurreição de Jesus e todos adentram livremente o Santo dos Santos para adorar”, declara. Ele acredita que os levitas de hoje são os que se apresentam diante de Deus. “Uns estão no altar, tocando instrumentos, “Deve-se ter cuidado em usar o conceito de levita como status, isso é um perigo” – Paulo Paraguassu, ministro de música da Igreja da Orla, em Vila Velha cantando e administrando os cânticos e expressões de adoração, enquanto outros são os irmãos que estão no templo.

Enfim, todos nós, agora, somos levitas perante o Senhor que está no Santo dos Santos das nossas almas. A adoração é algo muito além de uma forma. Ela é algo espiritual que se processa no campo da alma e do espírito do adorador”. Atilano destaca o estar pronto para atuar na igreja. Da mesma forma que um pastor se prepara quatro anos, quem tem outra função de serviço também deve se capacitar. “Sou a favor de uma melhor preparação dos ministros de música, e não só na parte musical, pois felizmente a nossa liturgia cristã abriu as portas para a dança, a pintura, o teatro, a música instrumental, a expressão artística, e há necessidade de preparação para melhor administrar”, frisa Atilano.

Sentir-se levita

O conceito pode ser simbólico, mas o que importa é o grau de comprometimento de quem atua na área da música, acredita a fonoaudióloga Isabela Castro. Ela faz parte do louvor e é corista do Adorart, da Igreja Batista da Praia da Costa. Já cantou no grupo “Vencedores por Cristo” e diz que se vê como um levita. “A música faz parte da celebração do culto e serve de preparação espiritual e mental para se receber a Palavra. É um momento de expressarmos nossa admiração e adoração a Deus pelo que é, e faz”. Para ela, estar no ministério da música é estar adorando a Deus. “Ter essa responsabilidade na celebração me faz tomar consciência de que é preciso estar com a vida no altar”.

Em comparação à sua experiência, em 1983, nos “Vencedores por Cristo”, Isabela fala que era um tempo sem muitos recursos.“Chamávamos as pessoas, por meio da música, para ouvir sobre Deus”. Hoje, em alguns casos, a ministração da Palavra se perde, quando a imagem do cantor é mais valorizada do que a presença de Deus”.

Integrante do Coro Liberdade, da Igreja Batista da Liberdade, em São Paulo, Rosane Magno também se sente uma levita, pois busca pela música adorar a Deus. “Assim como Deus os separou na Antiguidade para servirem na casa do Senhor, devemos servi-Lo não somente com nossas vozes, mas com toda a sinceridade do nosso coração e com as nossas vidas”, disse.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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