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segunda-feira, 30 novembro 2020

O discipulado hoje

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Especialistas defendem que boa parte da atual geração de cristãos não tem sido discipulada e que modismos ministeriais não vêm trazendo resultado satisfatório.

Jesus chama de discípulos todos aqueles que permanecem em Sua Palavra. E os apóstolos propagaram o Evangelho seguindo a receita dada pelo Mestre: discipulado é relacionamento. Os métodos de instrução e associação, que também são conhecidos como de ensino e comunhão, estavam presentes no ministério dos apóstolos e dos primeiros cristãos. “Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. E todos os dias, no templo e nas casas, não cessavam de ensinar e anunciar a Jesus Cristo” (Atos 2).

Amizade, comunhão e ensino sólido da Palavra de Deus debaixo da capacitação do Espírito Santo provocavam a sede pelo saber, a maturidade na fé e o entendimento da ordenança de Jesus: Ide e fazei discípulos de todas as nações. “O grande êxito alcançado pela Igreja Primitiva e Antiga deveu-se ao investimento feito no discipulado pessoal e comunitário dos novos convertidos e das novas lideranças”, explica o pastor Luiz Fernando dos Santos, da Igreja Presbiteriana Central de Itapira (SP).
Apesar das diferenças do contexto cultural da época dos apóstolos comparadas aos dias de hoje, os desafios permanecem os mesmos. “Trata-se da evangelização em um mundo que é indiferente e hostil aos ensinamentos de Cristo, somada à necessidade de arrependimento e crença em Jesus para a remissão dos pecados, como era a necessidade do mundo na época dos eventos registrados no livro de Atos dos Apóstolos são a mesma do mundo atual. O que está registrado nas páginas das Sagradas Escrituras é manual divino para todas as épocas, no papel de direcionar a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua tarefa de fazer discípulos de todas as nações”, explica o pastor Arleudo Kunsch, da Primeira Igreja Batista de Cascata, Serra.
Novo discipulado
Existe uma outra vertente de discipulado sendo adotada em muitas igrejas. De acordo com especialistas, a nova forma de discipular (se é possível ser chamada assim) difere do método bíblico tradicional de instrução pessoal do novo convertido seguindo duas abordagens: em uma, dá ênfase em usos e costumes da comunidade; em outra, está a crença na teologia da prosperidade e na confissão positiva.Esses dois tipos de abordagens, segundo lideranças eclesiásticas, são considerados arriscados, pois nenhum deles é eficaz em formar discípulos de Jesus. Há um grande risco de formar apenas seguidores de denominações e de lideranças carismáticas.
“A Igreja hoje não tem crise de quantidade e sim de qualidade, por causa da ausência de ensinamentos fundamentais da fé cristã como justificação, fé, graça, arrependimento. Por isso, o discipulado se faz tão importante”, afirmou o pastor Josué Campanhã, missionário do Serviço de Evangelização Para América Latina (Sepal).
Paul Freston, doutor em Sociologia da Unicamp (SP), explica que a fase do crescimento rápido das igrejas cristãs, iniciada nos anos 50, massificou a religião evangélica no Brasil.
“O que sempre acontece com as denominações de massas é que elas passam a se parecer mais com a sociedade. Em vez de transformar a sociedade, a religião é transformada por ela. Isso é normal numa fase inicial. No entanto, depois disso, devemos fazer o que Jesus fez quando começou a se tornar muito popular. Assediado pelas multidões, Ele passou a ensinar as demandas do discipulado, mesmo custando-lhe adesões”, destaca Freston.

O sociólogo ressalta ainda que a dificuldade da Igreja em cumprir Romanos 12 (não se conformar, mas se transformar) justamente porque a transformação não ocorre de maneira automática, sendo resultado de ensinamento. “Onde não há ensino, dificilmente a transformação acontece. O que vinga é a lei sociológica, que é a conformidade com a sociedade-ambiente. Perdemos a ética da fé transformadora da sociedade e da cultura. Em vez disso, temos o triunfalismo do crescimento numérico. Substituímos a ética protestante clássica da diligência no trabalho e frugalidade no viver e adotamos a teologia da prosperidade”, acrescenta.

A prática do discipulado é uma ferramenta importante na vida do Corpo de Cristo, sendo essencial para o crescimento qualitativo das igrejas cristãs.

O missionário Rubens Múzio, também da Sepal, declara que uma mentalidade de mercado tomou conta das igrejas. “A instituição Igreja no contexto mercadológico tem deixado de ser o ambiente do povo de Deus e assumido dimensões materialistas e consumistas. O ensino permanente da Palavra é a missão educadora da igreja”, opinou.

A Grande Comissão

O conceito de discipulado vem da Grande Comissão (Mateus 28:18-20). Nas palavras do pastor Jair Francisco Macedo, da Igreja Presbiteriana Pedra Viva (GO), trata-se de uma responsabilidade ordenada a cada discípulo de Jesus. O Ide responsabiliza o evangelista com cada pessoa que ainda não conheceu Cristo. “Não é uma tarefa dos líderes ou dos ‘profissionais’, mas de todos que já foram alcançados; é o trabalho cristão efetuado pelos membros da igreja, a fim de fazer dos novos crentes autênticos cristãos, cujas vidas se assemelham em palavras e obras ao ideal apresentado pelo Senhor Jesus Cristo”, ressalta o pastor presbiteriano.

No contexto da Grande Comissão está a evangelização, a proclamação do Evangelho, que envolve algo mais do que simplesmente anunciar as boas-novas de salvação; mas também a concessão do fundamento doutrinário básico capaz de tornar a pessoa consciente do que representa ser um cristão. “Por causa disso, a evangelização já traz em si um discipulado, ou seja, um aprendizado”, afirma o pastor Abel Scabello, da Congregação Batista em Barcelona.

É fato que ninguém faz discípulos para si, mas para o Reino de Deus através de sua vida no lugar onde se está. “Regressar ao discipulado bíblico é uma exigência urgente em nossos dias, por se tratar de um retorno ao método primitivo do Cristianismo com toda a sua eficácia, sem necessariamente abrir mão dos meios modernos de comunicação”, afirma o pastor Josué Vieira Amorim.

 

Considerado por muitos o maior missionário que o mundo já teve, o apóstolo Paulo traz ensinamentos primordiais para os que tomam como essência do discipulado cristão o evangelismo pessoal. Suas viagens missionárias, o contato diário com as pessoas para fazer Cristo conhecido e a busca por entender mais e mais de Deus devem servir como aprendizado.

O escritor William MacDonald, em sua obra “Discipulado Verdadeiro”, Editora Mundo Cristão alerta para o risco de não fazer da evangelização prioridade destacada para o discipulado. “A nova vida em Cristo, que desponta como um recomeço triunfante, sem a árdua fundamentação do discipulado pode fazer de cristãos sinceros crentes medíocres”.

Discipulado na prática
O exemplo é a ferramenta mais poderosa do ensino. Um discipulador deve demonstrar que realmente aprendeu, e isso não quer dizer apenas assentimento intelectual, mas o tomar-se nova criatura de fato, ser um seguidor exemplar e amá-lo com intensidade.
“Às vezes, irrefletidamente se diz: ‘Não olhe para minha vida, pois sou cheio de falhas. Olhe para Jesus’. No discipulado não é assim, pois cada cristão tem de ser um exemplo a ser imitado na fé, aprendizado e resignação”, afirma o pastor Abel Scabello, da Congregação Batista de Barcelona, Serra. “Infelizmente, muitos crentes hoje não têm intimidade com a prática do evangelismo. Não conhecem a Bíblia profundamente e, se forem questionados nas ruas, se tiverem a fé contestada, não vão saber responder a muitas perguntas sobre a Palavra”.
Aos 37 anos, o pastor da Primeira Igreja Batista de Nova Rosa da Penha, Cariacica, Rogério Mattos Garcia, tem uma história inusitada sobre a sua experiência de conversão. “Toda quinta-feira, eu ia para o culto de oração, porque ao final o pastor entregava um saco de laranja. Eu costumo brincar que Deus me fisgou pelo estômago. Depois, meu primo Silas me convenceu a aceitar Jesus. Durante um ano, uma irmã da igreja (Maria de Souza) me discipulou. Ela me aconselhava, me dava diversos livros para eu estudar. Após a conclusão da faculdade de Letras, fui estudar para ser pastor. O discipulado aconteceu gradativamente em minha vida. É uma arma poderosa e eficaz. Afinal de contas, discípulo produz discípulo”, diz o pastor Rogério.
Há alguns anos, o método mais empregado era o de estudos nos lares. A aposentada Izabel Cristina, membro da Igreja Batista Central da Serra, relembra os tempos vividos com a experiência do discipulado. “Na época, eu trabalhava no Hospital das Clínicas e falava de Jesus para diversas colegas de profissão. De um grupo de seis pessoas, quatro se converteram à fé cristã”.

A iniciativa ainda persiste sob forma de grupos pequenos nos lares. “Com grupos reduzidos, sejam familiares, células ou reuniões de discipulado, a comunhão e o evangelismo ficam mais diretos e isso fortalece a igreja”, declarou Thalita Maia Badke, da Assembleia de Deus Resgate, em Vila Velha.

Foi exatamente isso que Barnabé e Paulo fizeram na igreja de Antioquia, a primeira formada por gentios na história da Cristandade. Como esses crentes não partilhavam das promessas de Deus, a exemplo dos judeus (Romanos 9:4,5), havia necessidade de instruí-los nas Escrituras, para que aprendessem o que é servir a Deus. Tinham, sim, se convertido ao Senhor, como pudera ser atestado por Barnabé, que percebeu terem eles, realmente, nascido de novo, terem sido alcançados pela graça de Deus e terem o propósito do coração de permanecer no Senhor (Atos11: 23). Mas isso era insuficiente para que pudessem transformar o propósito em realidade.

Mesmo com as mudanças no mundo e na realidade das igrejas, o caminho para ser salvo dos pecados não mudou. Com isso, seja através de estudos bíblicos em casas, nas ruas, em hospitais, em presídios, distribuição de panfletos nos sinais, mensagens enviadas por e-mail, postagens em redes sociais ou qualquer outra forma de propagação do Evangelho, o que importa é que a Palavra de salvação seja difundida sempre e intensamente, cumprindo a cada dia a missão essencial da Igreja: “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15).

A matéria acima é uma republicação da Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.
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