NVT e a “tradição das traduções”

O trabalho de tradução da Bíblia é um esforço contínuo. Cada nova tradução inevitavelmente busca inserir-se nessa valorosa tradição. É o caso da NVT

“Nenhuma tradução bíblica é uma ilha”. Isto é, nenhuma versão das Escrituras Sagradas é um texto isolado e autossuficiente, por mais bem realizado que seja.

Foi o que descobrimos no processo de tradução da Nova Versão Transformadora (NVT), que publicamos em 2016 e que, em três anos, já alcançou centenas de milhares de leitores. Embora a preocupação primordial dos tradutores tenha sido transmitir o sentido do texto original em hebraico, aramaico e grego, o diálogo com as demais versões existentes se mostrou necessário durante todo o projeto.

Isso acontece porque o trabalho de tradução da Bíblia é um esforço contínuo. Muitos tradutores da Bíblia ao longo dos séculos ajudaram a revelar novas perspectivas sobre o texto, até então ocultas e/ou inacessíveis para suas gerações. Além disso, é razoável presumir que os primeiros tradutores contavam com recursos linguísticos e culturais para entender as especificidades do período bíblico dos quais nem sempre dispomos hoje.

Assim, cada nova tradução inevitavelmente busca inserir-se nessa valorosa tradição. No trabalho da NVT, muitas vezes foram as versões antigas que ajudaram os tradutores a encontrar o significado de passagens mais obscuras. É uma fonte riquíssima, e seria negligência desconsiderá-la.

Não seria absurdo dizer que a própria redação original das Escrituras foi um trabalho de tradução. Trata-se, afinal, da revelação divina à humanidade, e o conteúdo precisava ser expresso numa linguagem acessível aos leitores do mundo antigo. Se escritos hoje, possivelmente os textos teriam características e estilos bem diversos. Mas isso é apenas especulação.

Foi no período do cativeiro, aliás, que se fizeram necessários os primeiros esforços de tradução. Mas a primeira tradução de fato do Antigo Testamento é a versão para o grego conhecida como Septuaginta, produzida em Alexandria durante os séculos 3 e 2 a.C. Segundo a tradição, o trabalho foi encomendado a 72 sábios judeus pelo rei do Egito Ptolomeu II, que planejava incluir a tradução na lendária Biblioteca de Alexandria. Por isso o nome Septuaginta, “setenta” em latim.

À medida que a Igreja primitiva alcançava diferentes povos, surgiu a necessidade de novas traduções. Com isso, ao longo dos primeiros séculos da era cristã, porções da Bíblia Sagrada, já incluindo o Novo Testamento, apareceram em línguas diversas, como o siríaco, o copta e o etíope. Para a Igreja ocidental, era de grande relevância uma tradução para o latim, a língua central do Império Romano.

A primeira tradução mais ampla da Bíblia em nossa língua também resultou do trabalho de um pastor reformado. João Ferreira de Almeida (1628–1691), verteu para sua língua nativa todo o Novo Testamento e boa parte do Antigo Testamento — concluído posteriormente por um colega holandês chamado Jakobus op den Akker. A versão completa, porém, só viria a ser publicada décadas após sua morte.

No Brasil, as traduções mais populares entre os protestantes e evangélicos se baseiam no texto de Almeida, sobretudo aquelas publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Periodicamente, essas versões passam por processos de revisão, a fim de aprimorar questões estilísticas e evitar arcaísmos inerentes ao português do século 17.

Mais recentemente, vimos surgirem novas tentativas de traduzir o texto bíblico diretamente do original. Alguns destaques são a Nova Versão Internacional (NVI), a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e a Nova Bíblia Viva (NBV). Embora com metodologias diferentes, todas elas têm em comum a preocupação em transmitir a mensagem bíblica numa linguagem acessível e ao mesmo tempo fiel aos originais.

Onde a NVT se insere nessa tradição? Em que ela contribui para dar continuidade a uma história tão gloriosa? Por ser a tradução mais recente publicada no país, a NVT se beneficia da tradição justamente por ter acesso às decisões tomadas por outros tradutores. Os caminhos já foram trilhados, e é possível confiar nas sinalizações no meio da estrada, bem como prever os principais obstáculos à frente.

Muitos dos recursos a que os tradutores da NVT tiveram acesso não estavam disponíveis outrora. A produção acadêmica atual referente a questões exegéticas não tem paralelos na história, e pesquisas arqueológicas recentes ajudam a esclarecer contextos culturais que impactam diretamente o entendimento do texto.

A própria evolução da língua portuguesa exige dos tradutores uma constante preocupação com a atualização do vocabulário e da sintaxe. Dada a velocidade com que isso acontece — o que era inteligível para o leitor há cinquenta anos pode ser totalmente incompreensível para um adolescente hoje —, novas traduções não só se farão sempre necessárias como, também, possuem data de validade.

Acreditamos, portanto, que a NVT surgiu na hora certa e no lugar certo. Ao incorporar o passado e fazer bom uso do presente, conseguirá avançar para o futuro, com uma dose equilibrada de respeito e ousadia. Nossa expectativa é que ela ajude a enriquecer a já valorosa “tradição de traduções” da Bíblia Sagrada, transformando vidas com a atemporal mensagem de Deus.

*Daniel Faria é Jornalista pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). É editor de livros e Bíblias da Mundo Cristão e coordenador editorial do projeto NVT


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