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quinta-feira, 25 DE julho DE 2024

“Narcomilícia evangélica”: teólogo diz que não dá para ser bandido e cristão

Escritor e Teólogo Gutierres Fernandes Siqueira. Foto: Reprodução / Instagram @gutierresfernandes.
Escritor e Teólogo Gutierres Fernandes Siqueira. Foto: Reprodução / Instagram @gutierresfernandes.

Gutierres Fernandes destaca que líderes e membros de comunidades evangélicas devem se posicionar e dizer com clareza que não há compatibilidade entre crime e fé

Por Daniel Hirschmann

O jornalista e teólogo Gutierres Fernandes Siqueira, autor do livro “Quem tem medo dos evangélicos? Religião e democracia no Brasil de hoje”, defende que líderes e membros de comunidades evangélicas devem se posicionar e afirmar com clareza que não existe compatibilidade entre crime e fé, pois não é possível ser cristão e ser bandido ao mesmo tempo, ou impor violência nas comunidades – inclusive a outros cultos religiosos – e se dizer servo do Senhor.

Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus – Ministério do Belém, em São Paulo (SP), Gutierres Siqueira comenta que a ligação entre traficantes e religião é uma questão cultural da América Latina mas que, no Brasil, existe preconceito contra evangélicos, que são alvo de generalizações – o que contribui para o surgimento de termos como “narcomilícias evangélicas”, dito recentemente pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em entrevista exclusiva a Comunhão, Gutierres Siqueira admitiu a relação entre alguns traficantes do Rio de Janeiro e igrejas evangélicas e apontou os perigos dessa situação. Confira a seguir.

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Comunhão – As estimativas indicam que, daqui a alguns anos, os evangélicos serão maioria no país. Quais serão os principais reflexos disso para o Brasil?

É difícil falar como será exatamente o Brasil evangélico, ou de maioria evangélica, algo que deve começar a partir da década de 2030, mas eu apostaria que a tendência, depois disso, é um platô, é um crescimento baixíssimo ou até uma estagnação. E que a gente ficará com uma composição bem clara no Brasil, de pessoas sem religião – um número grande –, uma quantidade grande ainda de católicos e um grande número de evangélicos, sendo maioria. O Brasil vai continuar sendo um país de cultura católica, porque a formação dos últimos 500 anos foi católica. Isso não vai se desfazer de uma hora para outra. Esse processo levará muito tempo ainda. O Brasil evangélico tende, sim, a inserir alguns valores cristãos na sociedade, como já vem inserindo. Um exemplo disso é a visão empreendedora que os evangélicos têm e que até se reflete na economia. Apesar disso, a alma nacional não vai se tornar evangélica, pelo menos não ainda. Isso vai requerer um longo processo.

Hoje, na sua opinião, quais são as principais percepções errôneas em relação aos evangélicos?

Eu creio que o principal erro de percepção da elite cultural brasileira é ler os evangélicos apenas como um grupo político. Embora a política esteja permeando boa parte do discurso público dos evangélicos, o que move o crescimento da igreja evangélica, isso nas últimas décadas, é uma percepção de que ela oferece uma mensagem de conforto e apoio espiritual. As pessoas não estão indo à igreja por causa de política. Pelo contrário, a política pode até eventualmente afastá-las. As pessoas estão buscando o Evangelho como um meio de conforto que elas não encontram em outros lugares.

Por que ainda há tanto preconceito contra os evangélicos, mesmo em um cenário de grande ascensão?

O preconceito sempre nasce do desconhecido. A elite cultural brasileira ainda nutre preconceito contra os evangélicos porque no seu ciclo social não há muitos evangélicos. Eles não os conhecem. Os evangélicos não são parte do grupo de amigos, de parentes, de professores, de pessoas que frequentam os mesmos restaurantes que eles. São pessoas que não são do seu convívio social, só têm aquela relação burocrática. Não é uma relação de amizade, não é uma relação de integração. Por isso, eu posso falar que são dois mundos completamente diferentes, ainda que habitem lado a lado.

Deve-se a esse preconceito, na sua opinião, a questão levantada recentemente pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, sobre as narcomilícias evangélicas?

Eu acho que a fala do ministro Gilmar Mendes foi descuidada, generalizante. Ele colocou ali um problema bem localizado do Rio de Janeiro de uma forma que parece ser um problema maior do que ele desenhou. A narcomilícia, de fato, é um problema, e as igrejas deveriam protestar contra isso, mas não é um problema necessariamente religioso. É um problema da situação da segurança do Rio de Janeiro, em que diversos grupos vão se formando em torno da violência e vão buscando a sua própria identidade. É bom lembrar que, no Rio de Janeiro, há milícias e tráfico de drogas há muitos anos. São ligados a grupos como jogo de bicho, escolas de samba e outras organizações sociais. Então, não é um problema necessariamente religioso. É um problema da organização social da cidade do Rio de Janeiro.

Quais são os principais problemas em relação a essa nomenclatura/classificação? Por que é uma fala preconceituosa e injusta?

Eu tenho dificuldade com o termo narcomilícia evangélica, ou traficantes evangélicos, porque “traficante religioso” é algo muito cultural, é da cultura latina. Vemos na mídia traficantes mexicanos que veneram santos, traficantes colombianos que se dizem católicos fervorosos. A máfia italiana até ajudava a construir igrejas. Antigamente, no caso do Brasil mesmo, no Rio de Janeiro, a ligação maior dos traficantes era com o candomblé, com as religiões de matriz africana, onde eles iam buscar proteção, o “fechamento do corpo”. Agora, eles estão buscando isso nas igrejas evangélicas, mas a ideia supersticiosa é exatamente a mesma. Então, isso é um problema, acima de tudo, cultural.

Quais os riscos dessa associação entre o tráfico e a religião evangélica no Rio de Janeiro? 

É claro que existem, sim, alguns traficantes que usam a linguagem evangélica, especialmente no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, o que é extremamente perigoso, porque usam, inclusive, o discurso de visões, sonhos, como o “escolhido de Deus” para uma determinada missão. Então, é claro que, embora isso não seja culpa diretamente dos evangélicos, o discurso evangélico, uma vez inserido em um contexto de poder e violência, é extremamente perigoso. E devemos ficar bastante atentos para que esse processo não saia, ou pelo menos não se expanda, além daquilo que já é, ou que já existe ali no Rio de Janeiro.

Como lideranças e instituições evangélicas devem responder à associação entre narcotráfico, milícias e fé?

Eu acho que a liderança evangélica, é claro, tem que se defender e mostrar que não é meramente um problema religioso a figura do “traficante evangélico”, entre aspas, mas também não precisa ficar só na defensiva. É preciso reafirmar os valores do Evangelho na sociedade. É preciso afirmar, com muita clareza, que não existe compatibilidade entre crime e fé, que não existe modo de ser cristão e ser bandido, que não existe modo nenhum de impor violência, impor inclusive violência a outros cultos religiosos nas comunidades, e se dizer um servo do Senhor.

Qual é a principal mensagem que o senhor gostaria que os leitores levassem em relação ao tema narcotráfico e “milícias evangélicas”?

Sobre o tema da milícia evangélica, os leitores devem ter ciência de que o problema existe, ele é bem localizado, em um contexto do Rio de Janeiro, e que esse problema deve ser combatido junto com uma revolução na segurança pública do Estado. É inadmissível termos, ainda, bairros e comunidades inteiras sob o domínio de bandidos, sejam eles religiosos ou não, sejam eles ligados à escola de samba ou a milícias de policiais.

Como autoridades governamentais, lideranças religiosas e sociedade civil devem abordar essa questão?

A questão é que o Rio de Janeiro precisa urgentemente rever o seu papel de Estado e se fazer presente em todas as sociedades, em todas as comunidades. Enquanto isso não existir, veremos barbaridades e situações bizarras como essa, como aqueles que são bandidos, literalmente, mas que se identificam com outros grupos sociais.

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