Comportamento abusivo, espiritualidade fragmentada e os limites da mudança pessoal no narcisismo
Por Patrícia Esteves
Em comunidades cristãs, relatos de relacionamentos que começam sob aparência de cuidado espiritual e terminam em esgotamento emocional têm se tornado recorrentes. Pessoas que chegam organizadas em suas rotinas familiares e financeiras passam a conviver com conflitos constantes, perda de autonomia e instabilidade. O padrão se repete dentro e fora da igreja, levantando uma questão delicada: quando a linguagem da fé é usada como instrumento de controle, o problema deixa de ser apenas relacional e se torna espiritual.
O narcisismo e a dinâmica do abuso
O terapeuta comportamental Daniel Moura, da Igreja Presbiteriana de Limeira/SP, descreve que “uma pessoa narcisista, quando chega na vida de uma vítima, ela coloca a vida dessa pessoa de ponta cabeça”. Segundo ele, a presença do narcisista costuma vir acompanhada de abuso emocional, conflitos familiares e adoecimento psíquico. Moura associa esse comportamento a um padrão descrito na Bíblia ao afirmar que “parece que Paulo está descrevendo aqui o narcisista”, ao relacionar traços de egoísmo, arrogância e aparência de piedade dissociada da prática. Na leitura clínica e pastoral, o narcisista se aproxima de pessoas empáticas, justamente por identificar nelas aquilo que não possui, transformando a relação em um ciclo de exploração.
Espiritualidade, igreja e vida dupla
No ambiente religioso, esse comportamento ganha contornos específicos. “O narcisista vive uma vida dupla. Ele vive uma vida na igreja e uma vida completamente diferente fora da igreja”, afirma Moura. A fé, nesse contexto, não orienta escolhas nem limita ações, funcionando como discurso conveniente. A prática religiosa não se traduz em transformação de caráter porque, como ele observa, “aquilo que ele aprende na igreja, ele não coloca em prática”. O resultado é uma espiritualidade performática, que preserva a imagem pública enquanto mantém relações privadas marcadas por manipulação e mentira.
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A expectativa de mudança costuma recair sobre a ação divina, mas Moura recorre à parábola do semeador para deslocar o foco. “Veja que o problema nessa parábola não está na semente. A semente é boa. O problema está na terra”, afirma. Para ele, “o problema não está em Deus querer mudar. O problema está no coração”. A palavra não permanece porque encontra um terreno endurecido, estruturado para não ser confrontado. A mudança, portanto, não é impedida por falta de poder divino, mas pela ausência de disposição interna, já que “para mudar, uma pessoa precisa querer”.
Entre fé vivida e autoproteção
Essa compreensão tem implicações práticas para quem convive com o narcisismo. Moura alerta que “há um peso espiritual sobre essas pessoas e eles transferem esse peso espiritual para a vida das suas vítimas”. A orientação não é insistir na conversão do outro a qualquer custo, mas reconhecer limites e buscar ajuda. O afastamento, inclusive, aparece como medida de proteção quando a relação produz destruição contínua. A fé, nesse cenário, deixa de ser instrumento de tolerância ao abuso e passa a sustentar decisões de cuidado consigo.
O debate sobre narcisismo na igreja exige muito discernimento. Nem todo conflito espiritual é sinal de fraqueza de fé, nem toda permanência é virtude. Ao reconhecer que há comportamentos que resistem à mudança porque não admitem confronto, a comunidade cristã é chamada a proteger pessoas, não imagens. A espiritualidade, quando vivida de forma íntegra, não aprisiona consciências, nem legitima relações que adoecem.

