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terça-feira, 23 abril 2024

Na alegria ou na dor, em todo tempo ama o amigo

”Amizade é uma via de mão dupla que se constrói com o tempo” - Foto: Acervo pessoal

“A troca é que nos torna cada vez mais amigos”: Na amizade verdadeira temos prazer em ajudar o outro, estar à disposição sincera, sem interesse

A psicóloga Marisa Lobo (Paraná), que é evangélica, afirma que amizade é um relacionamento de amor entre pessoas que se identificam por afinidade. Ela classifica os amigos como verdeiros, falsos, tóxicos, aproveitadores e os de festa.

Para a psicóloga, amizade é uma via de mão dupla que nem sempre acontece, inclusive dentro da igreja. Segundo ela, não se faz mais amigos como antigamente e se inclui entre as pessoas que tiveram experiências de amizade que geraram decepções com as que a abandonaram em momentos difíceis.

Existe uma teoria da amizade que aponta níveis de conexão, ou seja, graus de amizade que crescem gradativamente. Essa teoria vai do pré-conhecido até se tornar amigo. É assim mesmo que funciona?

Claro, é imprudente considerar uma pessoa amiga no começo do relacionamento. Os níveis vão aumentando conforme a vivência, convivência, provas de confiança, lealdade e afinidades. Amizade se constrói com o tempo. E Jônatas fez um acordo de amizade com Davi, pois se tornara o seu melhor amigo, conforme relatado em 1 Samuel 18:3. O melhor amigo dos amigos é o tempo, a história.

Comunhão: Os cristãos têm mais facilidade para fazer amizade? Por quê?

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Sim e não. Muitos fazem amizades passageiras nas igrejas que inicialmente parecem ser intensas, mas se um dos dois sai, muda de igreja, a amizade esfria e muitas vezes acaba. Isso é um fenômeno que tenho observado ao longo da minha experiência na clínica onde atendo pessoas que se sentem só por terem sido abandonadas simplesmente porque deixaram a igreja que frequentavam para estarem em outra. Não quero gerar uma celeuma com essa resposta, mas infelizmente é o que acontece e não deveria, principalmente por ter sido uma “amizade” consolidada dentro de um ambiente de amor.

É normal ter mais afinidade com uns do que com outros dentro da igreja, ou isso configura acepção de pessoas?

Sim, é normal ter afinidade, se identificar mais com uma pessoa do que com outra, o que não significa ser o melhor amigo, e não creio que isto seja acepção de pessoas.

Entretanto, quando você usa essa identificação para menosprezar outras amizades, aí configura acepção e claro, não é amizade. Por isso digo, que ter muitos “amigos” não significa ter amizade verdadeira, pois há vários tipos de amigos que fazemos, mas os verdadeiros são os que ficam, os que temos histórias e principalmente os que compartilhamos os mesmos sentimentos e ações.

Se você se doa a um amigo que nunca te dá nada em troca, lamento dizer que está sendo amigo sozinho; pode até parecer anticristão dizer isso, já que aprendemos a doar sem receber. Isso é lindo para estranhos, para fazer o bem, mas quando falamos de relacionamento, família ou de amigos verdadeiros, é hipocrisia, porque a troca é que nos torna cada vez mais amigos e, se uma pessoa só recebe e nada te dá em troca você não está sabendo comunicar essa amizade.

Na amizade verdadeira temos o prazer em ajudar o outro, estar à disposição sincera, sem interesse, mas quando esse amigo nos recompensa quando não esperarmos nada em troca, ficamos felizes sim, somos humanos.

Existe uma “fórmula” para identificar os tipos de amigos?

Além do amigo verdadeiro, existem vários outros tipos de “amigos”: o falso, o tóxico, o aproveitador, o amigo de festa, mas estes são amigos de si mesmos. Para identificá-los peça dinheiro emprestado ou passe por um momento ruim, por um cancelamento, e conhecerá realmente quem é seu amigo.

Chamo atenção para o tipo tóxico: esse deixa você para baixo, porque na verdade ele tem baixa autoestima e para compensar precisa ser melhor do que você, e o único jeito é te sufocando, fingindo proteção, dando muitas lições de moral para se mostrar melhor, ele vai competir com você o tempo todo e controlar essa amizade. Muitas vezes é até “amor de amigo” mas devido a um possível transtorno de personalidade vai te sufocar porque sente insegurança e medo de te perder para outro amigo(a). Essa pessoa suga o outro para se sentir importante.

Nesse caso, como lidar com amizades tóxicas?

Quer um conselho? Se afaste. A amizade verdadeira se preocupa com o outro sem sufocar ou se intrometer na vida dele, mas aconselha. O verdadeiro amigo não é aquele que aceita tudo, mas o que às vezes exorta também sem expôr o amigo. O verdadeiro amigo é presente mesmo à distância, pois está à disposição e, se não pode ajudar no mundo físico, oferecer o ombro amigo e ora para que tudo dê certo para o outro.

Qual a influência da amizade no psiquê de uma pessoa?

Ter alguém para compartilhar comportamentos, sentimentos, confiança e lealdade durante a vida produz em nós hormônios do bem-estar, um deles é a produção de oxitocina que é o hormônio do amor verdadeiro. E o resultado é a confiança, é muito importante ter amigos e orar por eles e para Deus afastar os falsos, e não se surpreenda com a partida de alguns. O amigo ama em todos os momentos, o amigo é um irmão na adversidade. “Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão.” (Pv 17:17). Se não for assim, amigo não era.

Os relacionamentos na cultura popular se concentram principalmente no romance e nas relações sexuais. A Igreja se concentra nas famílias e no serviço ao próximo. Isso faz com que a amizade seja ignorada?

As amizades verdadeiras independem de causas sociais ou de bandeiras, entretanto é fácil arrumar “amigos” nas segmentações mas não são amizades e sim parcerias de causas, que são confundidas com amizades. Na igreja deveria ser fácil já que as causas são para Cristo e pregamos tanto amizade, carinho verdadeiro, empatia, falamos tanto em amor ágape que é o amor de Deus e mesmo assim há dificuldades igualmente em ter amigos, o que há é parceria e uma certa “irmandade”, um ensinamento comum, um cumprimento de uma ordenança de nos apoiarmos, ficarmos juntos, por amor a Cristo, independente das nossas diferenças, mas isso é relacionamento familiar, amizade familiar, nos amamos sim, nos toleramos sim, por pertencermos à mesma família. Mas a amizade além da família é a que escolhemos, independente de termos ou não uma causa em comum. A amizade verdadeira se concentra na empatia e no altruísmo.

Na alegria ou na dor, em todo tempo ama o amigo
Ter alguém para compartilhar sentimentos, confiança e lealdade produz hormônios do bem-estar”

Até que ponto preferir estar só é saudável?

Melhor só do que mal acompanhado, realmente essa frase é uma máxima, porém Deus nos alerta que não é bom que o homem fique só, essa é uma palavra que se refere principalmente a Adão e Eva, homem e mulher, mas podemos trazer isso para o campo do relacionamento amigo que é tão saudável. Por outro lado, é doentio não conseguir ficar só às vezes, temos que gostar da nossa companhia. Ressalto ainda que se você não consegue se divertir a dois (casal por exemplo) ou com seus pais e irmãos (família), preferindo estar com pessoas de fora, você terá muitos problemas.

Há uma tese popular que diz que quem tem amigos não precisa de psicólogo? O que pensa sobre isso?

Uma coisa não tem nada a ver coma a outra porque seu amigo é amigo, ele não tem uma escuta terapêutica para te ajudar, se você tiver realmente problemas emocionais mais sérios. É emocionalmente saudável ter amigos bons, leais, parceiros, não julgadores, ajuda muito, mas não eles não são profissionais terapeutas.

Sabemos que o perfil de comportamento de mulheres e homens é bem diferente, entre os homens não há um grau de intimidade ao ponto de convidar o outro para ir ao banheiro juntos por exemplo, mas nós mulheres fazemos isso porque somos mais intensas e normalmente quando temos uma grande amizade próxima contamos tudo, pedimos opinião até para escolha de roupas, sapatos. Homens não fazem isso, mas é uma questão de comportamento.

A mulher tem ciúmes das amizades, homens convivem com um número maior de amigos, mas no final os que sobram não dará para carregar o caixão no final da vida, precisarão da família onde estão os verdadeiros amigos apesar de todos os conflitos que possamos ter durante nossa vida.

Podemos dizer que estamos em recessão de amizades?

Sim, não se fazem mais amigos como antigamente. Hoje as amizades são mais superficiais, a tecnologias é boa mas entra no campo dos relacionamentos e isso pode ser desastroso. Os jovens têm preferido amigos virtuais por não confiarem no relacionamento pessoal, isso é muito prejudicial, vemos amizades por interesse, fúteis, essa é uma doença do século.
O ambiente competitivo é outro fator que prejudica a aproximação das pessoas e tem sido promovido pelas redes sociais, onde ter é mais importante do que ser, coisificaram tudo, os interesses estão acima do ser humano, isso é a realidade do século e do fim dos tempos: o texto bíblico “O amor de muitos esfriará (Mt. 24:12)”, está acontecendo.

A timidez é um agravante na hora de fazer amigos?

Sim, com certeza. Os tímidos têm mais dificuldade, mas quando fazem um amigo, essa amizade dura muito mais.

O que dizer sobre amigos que sentem ciúmes, possessividade e dependência do outro?

É natural ter um certo ciúme porque amizade é um relacionamento de amor e companheirismo, mas o ciúme deve ser dominado, pois a amizade verdadeira não se desfaz com a entrada de outro amigo. Então se esse “ciúme” passa dos limites talvez a pessoa seja tóxica ou dependente e isso pode fazer muito mal.

Para finalizar, é possível haver amizade entre humanos e animais ou a relação é outra, diferente de amizade?

Sim, existe amizade e parceria e quem tem um animalzinho principalmente um cachorro entenderá essa parceria fantástica. Contudo, é uma espécie de amizade que não substitui a que existe entre humanos porque diz as Escrituras: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.

Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu ordeno. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz.

Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu tornei conhecido a vocês (Jo 15:13-15).”

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