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segunda-feira, 1 junho, 2020

Mulher e a violência doméstica

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As mulheres evangélicas são 40% das vítimas de agressões físicas e verbais no Brasil. “A igreja cristã não pode se omitir perante a triste realidade da violência doméstica”, diz Lidice Meyer

A empresária e paisagista Elaine Perez Caparroz estava em seu primeiro encontro com Vinicius Batista Serra quando foi vítima de uma tentativa de feminicídio. O apartamento ensanguentado e o rosto inchado da vítima causaram indignação e reavivaram a discussão sobre o combate à violência contra a mulher.

Diferentemente do que ocorreu com a empresária, no entanto, a maioria das vítimas de feminicídio não estava em seu primeiro encontro, mas morava ou já morou com os assassinos. O último Dossiê Mulher, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, mostra que 65,8% dos assassinos nos casos de feminicídio registrados em 2017 eram os companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Uma pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgada no dia 26 de fevereiro apontou que uma em cada cinco mulheres vítimas de violência diz ter sido agredida por um vizinho. Nos últimos 12 meses, esse tipo de agressão cresceu e chegou a 21,1% dos casos relatados – na pesquisa anterior, de 2017, eram 3,8%.

A organização internacional Human Rights Watch destaca que a “violência doméstica continua generalizada” no Brasil e que “milhares de casos a cada ano não são investigados”. Publicado em janeiro desse ano, o documento aponta que, no final de 2017, mais de 1,2 milhão de casos de violência doméstica estavam pendentes nos tribunais do país.

Foto: Arquivo Comunhão

Segundo a antropóloga Lidice Meyer, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a violência contra a mulher não é um problema dos dias atuais. É histórico, mas ultimamente tem se mostrado com mais clareza.

“Entre as causas sociais e culturais estão o machismo, o patriarcalismo e a falta de habilidade para conviver com as mudanças nos papéis sociais exercidos pelas mulheres. Alcoolismo, uso de drogas e o desemprego dentro de uma sociedade de formação patriarcal tem elevado o índice de violência”, pontuou.

Leis de proteção

Mesmo tardia, legislação de proteção à mulher no Brasil é avançada. Segundo a pesquisadora Wânia Pasinato, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) permitiu que vários tipos de violência contra a mulher fossem denunciados. A socióloga afirmou que o atraso na publicação da lei foi uma espécie de trunfo para o Brasil.

“A Lei Maria da Penha demora, mas vem com uma vantagem: se inspirou no que há de melhor nas outras leis. Traz uma legislação que não é só do âmbito penal, mas que tem também um conjunto de diretrizes para orientar a política pública, que é a Política Nacional para Enfrentamento à Violência contra as Mulheres”, explicou.

Wânia lembra que conceber melhoramentos às leis de proteção aos direitos das mulheres levou tempo no Brasil.

“As leis eram muito voltadas à proteção da família, não se tinha um olhar muito cuidadoso para a situação das mulheres, das meninas. Isso começa a mudar a partir dos anos 2000. Revisa-se a legislação e, com isso, passa-se a mostrar que a desigualdade é a causa estruturante dessa violência. Era preciso abranger também a situação das mulheres no ambiente doméstico e familiar”, afirmou.

A mulher cristã

Os dados são alarmantes. As mulheres evangélicas são 40% das vítimas de agressões físicas e verbais no Brasil. A constatação é da  teóloga Valéria Vilhena, ao realizar uma pesquisa em março do ano passado para o curso de doutorado na Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo.

“A questão da interpretação da teologia, acaba fortalecendo ainda mais esse quadro de violência contra as mulheres no meio evangélico, porque a teologia que é passada é a da obediência ao marido. Normalmente, elas acabam culpando o satanás, o inimigo, o diabo, algo externo e não conseguem olhar para a própria relação de violência que vivem”, explicou.

No entanto, Lidice aponta que a mulher cristã pode fazer a diferença nesse contexto de violência. Onde quer que seja inserida, o papel dela é ser sal e Luz e que ela tem que lutar pelo respeito a si mesma e às demais mulheres. A professora sugere que se crie grupos de discussões até mesmo dentro na igreja.

“Além de ter a possibilidade de educar seus filhos para agirem dentro dos padrões bíblicos de respeito as diferenças de gênero e amor ao próximo, pode desenvolver grupos de discussão e de ajuda dentro e fora das igrejas”, explicou.

Lídice, que também é pós-doutora em História, também reforça a importância da instituição religiosa neste assunto, já que vários casos de violência doméstica são registrados dentro da Igreja.

“Cabe a liderança da igreja a vigilância, instrução e acolhimento de suas fiéis além de, quando necessário, intervir, denunciar o agressor e proteger a agredida. A igreja cristã não pode se omitir perante a triste realidade da violência doméstica”, exortou.

Dia Internacional da Mulher

Mais que uma festividade, o dia Internacional da Mulher é um estímulo à reflexão. No dia 8 de março de 1857, 129 mulheres e meninas trabalhadoras da indústria têxtil morreram carbonizadas dentro de uma fábrica enquanto reivindicavam melhores condições de vida e trabalho.

Em 1910, o Congresso Internacional de Mulheres, realizado na Noruega, escolheu a data desta tragédia para instituir o Dia da Mulher. Hoje, a data costuma ser celebrada com homenagens, bombons e flores.

As mulheres as recebem de bom grado. Mas querem também discutir e sonhar com novas e mais saudáveis relações entre homens e mulheres, numa sociedade justa e inclusiva.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.


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