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sábado, 31 julho 2021

Movimento antivacina e sua relação com a Ciência e Fé

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Foto: Reprodução

A comunidade científica não é isenta de erros. Diferentemente da religião, a ciência tem que ser mutável e estar em constante mudança. É preciso equilibrar a fé com a racionalidade da ciência

O impacto devastador do Coronavírus no mundo é indiscutível. Contudo, um outro vilão cuja presença tem sido tão presente quanto – é o vírus da desinformação. É interessante notar que basta uma pequena dúvida para instigar um grande questionamento: é como se uma pequena fagulha originasse um grande incêndio. Neste âmbito, as vacinas têm sido alvo de um constante ataque mal intencionado de desinformação.

O movimento antivacina, alimentado pelo infame – já retratado e desacreditado, mas ainda vivo – artigo do ex- Dr Wakefield sobre a conexão da vacina MMR (a qual protege contra sarampo, caxumba e rubéola) com o autismo, continua alimentando a mente dos conspiradores e seus conspirantes. Indiscutivelmente, vacinas têm sido uma poderosa arma para combater inúmeras doenças em todo o mundo há anos.

Muitos argumentos dizem que é perigoso usar uma vacina desenvolvida em menos de um ano, mas tal visão é limitada e não contempla o avanço da tecnologia e a necessidade global de um tratamento preventivo e eficaz. O arsenal tecnológico combinado com a capacidade de produzir e disseminar conhecimento são massivamente maiores do que há 10 ou 20 anos atrás. Desta forma, é possível realizar o desenvolvimento rápido e, ao mesmo tempo, seguro das vacinas. Adicionalmente, as diversas vacinas existentes estão passando por processos rigorosos científicos e, aquelas que tentam pular alguma etapa, como por exemplo a vacina Sputnik V do governo Russo, são alvos de fortes críticas.

Ressalto aqui que a comunidade científica não é isenta de erros ou se faz surda/cega aos erros cometidos ou encontrados pelos seus pares. Diferentemente da religião, a ciência tem que ser mutável e estar em constante mudança. Portanto, é perfeitamente compreensível que o conhecimento atual possa ser destituído no futuro – o que é saudável e faz parte da natureza científica. Com o progresso do avanço científico, essa renovação do conhecimento tem sido cada vez mais rápida, bem como, às vezes, atropelada.

Em particular, no que tange aos estudos envolvendo o COVID-19, vemos um bom exemplo disso, pois uma grande parcela dos estudos é publicada inicialmente em servidores preprint, que não passam por revisão dos pares, o modelo atual de revisão científica, o qual não é perfeito e apresenta suas limitações. Desta forma, essa avalanche de conhecimento que uma hora aponta para um destino e dias ou semanas depois indicam uma outra direção – de fato gera – confusão entre os cientistas e desconfiança na população em geral. Mas, ressalto que isso é bem específico aos estudos relacionados ao COVID-19, devido à própria natureza emergencial que estamos vivendo.

Como cientista, treinado a interpretar evidências com bastante tranquilidade, vejo as vacinas como extremamente seguras. Tais movimentos de desacreditação devem ser fortemente combatidos em todas as esferas legais, pois o preço da desinformação pode culminar em mortes que seriam evitáveis. Aqui, ressalto que sou completamente contra a censura de informação, mas o debate deve ser realizado em nível científico com discussão e refutação de dados científicos, e não somente emissões de opiniões ou um “achismo científico”.

Recentemente, um artigo relatou uma associação entre o movimento Nacionalista Cristão (do inglês Christian Nationalism) com atitudes relacionadas ao movimento antivacina, o que significa que essa parcela dos cristãos está sujeita a desinformação, podendo representar até 25% da população dos EUA (1). É bastante discutível, nebulosa, míope e confusa a classificação desse novo “grupo”, a qual engloba protestantes e católicos e, a meu ver, representa uma visão limitada da complexa realidade das comunidades religiosas, as quais muitos pesquisadores não conseguem entender completamente a diversidade desses grupos e, portanto, criam-se rótulos que colocam todos em um mesmo pacote.

Certamente é o caso deste artigo. Ademais, a evidência presente demonstra que o fator principal associado com o comportamento antivacina é a raça, a qual em termos biológicos também é discutível, mas no campo sociológico é mais bem aceito. Todavia, os autores se debruçam exclusivamente sobre o movimento Nacionalista Cristão. Interessantemente, esse estudo foi realizado antes da pandemia, e portanto, uma dúvida ainda resta: qual será a fração atual que representa essas crenças antivacinas?

Diante dessas limitações levantadas, podemos olhar esse estudo e prontamente questioná-lo, porém, este pode apontar para uma possível realidade presente em alguns segmentos da comunidade Cristã nos EUA e, provavelmente, em outros lugares do mundo. Logo, como cientista cristão, sinto impelido a me posicionar.

Nesta linha, o respeitado cientista Dr. Francis Collins, diretor do Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos EUA, cujo tenho grande admiração como cientista e homem de fé, tem se direcionado ao público cristão e reafirmado a segurança das vacinas (2) nos eventos em que participa, demonstrando as evidências de segurança delas. Portanto, como cientista, equilibro-me na constante e benéfica mudança da ciência com a constância que encontro na completa soberania de Deus – amplamente descrita da Bíblia. Tenho sempre em mente que, embora homens sejam falhos, Deus está sempre no controle do seu Universo e criação. Com isso, reduzo o meu limitado conhecimento, perante a grandeza dEle, entendendo que somente equilibrando a fé e a racionalidade, em um exercício diário, é o caminho a ser seguido.

Leonardo VM de Assis é doutor em fisiologia com ênfase em biologia. Pesquisador associado na Universidade de Lübeck. Nomeado como um dos Jovens Cientistas pela Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular 

Referências a esse artigo


 

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