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domingo, 5 dezembro 2021

Missões: um legado feminino

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No livro dos Atos dos Apóstolos vemos que estes sempre tiveram a ajuda de mulheres na evangelização e na manutenção das igrejas formadas

Por Lidice Meyer

Quando pensamos em missionários, frequentemente nos vêem à mente figuras como Livingstone ou Simonton, mas é interessante lembrar que a primeira vocação missionária na Bíblia foi atendida por uma mulher anônima: a samaritana. No livro dos Atos dos Apóstolos vemos que estes sempre tiveram a ajuda de mulheres na evangelização e na manutenção das igrejas formadas. Esta é ainda a mesma realidade no campo missionário cristão de hoje. As mulheres, solteiras ou casadas, representam a grande maioria deste time em campo. Mas a aceitação das mulheres no campo missionário só ocorreu após o século XIX, embora tenha sido também delas a maior parte das iniciativas na criação de instituições de apoio ao trabalho missionário desde o século XVIII.

Até então, as mulheres no campo missionário eram vistas como apenas esposas dos missionários sem nenhuma atuação no campo evangelístico. Muitas destas faleciam precocemente e por isso eram tidas como frágeis e mais suscetíveis às doenças causadas pela falta de saneamento. A grande responsável pela mudança desta visão foi Ann Hasseltine Judson (1789-1826). Numa época em que não era dado à mulher transpor os limites da esfera doméstica, Ann desenvolveu um ministério próprio paralelo ao de seu marido, o missionário Adoniram Judson. Ela mostrou que não era uma mera esposa de missionário e sim uma missionária e esposa.  Em seu diário registrou: “Sou uma criatura de Deus, e Ele tem o direito indiscutível de fazer comigo como parece bem aos seus olhos. Alegro-me por estar em suas mãos – por Ele estar presente em todos os lugares e poder me proteger em um lugar ou em outro. . . quer eu passe meus dias na Índia ou na América, desejo passá-los a serviço de Deus e estar preparada para passar a eternidade em sua presença.”

Ann trabalhou com o marido na Índia e na Birmânia (atual Mianmar). Escreveu livros sobre o trabalho missionário e sobre aspectos culturais da Birmânia. Foi autora de um catecismo em birmanês além de traduzir os livros de Daniel e Jonas para esta mesma língua e o evangelho de Mateus para o Tailandês. Seu esposo a encarregou especialmente da evangelização das mulheres, algo impensável na época em seu país de origem. Ann também criou e manteve uma escola e manifestou-se ativamente contra a prisão do marido na guerra Anglo-Birmanesa, protestando à porta da prisão por meses. Faleceu precocemente de varíola aos 37 anos mas seus escritos despertaram em muitos o interesse por missões.

Pouco tempo depois as missionárias solteiras eram não só aceitas como também desejáveis às juntas de missões pela sua facilidade no trato com mulheres e crianças e sua atuação no ensino e na área de saúde. Em 1909 havia 4.710 mulheres solteiras no campo missionários e desde então este número só cresceu. Entre casadas e solteiras, as mulheres permanecem sendo a principal mão de obra de Deus para a evangelização, seja no mundo urbano ou rural. O crescimento do Reino de Deus desde os primórdios do cristianismo deve muito à sua atuação e dedicação em meio às dificuldades físicas, sociais e econômicas. Se seus nomes são desconhecidos de muitos, como o da samaritana, eles estão com certeza escritos com tinta indelével no Livro da Vida.

Lidice Meyer Pinto Ribeiro é Doutora em Antropologia, Professora na Universidade Lusófona em Lisboa, Portugal

 

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