Missionária da Coreia do Norte relata perseguição a cristãos

Foto: Divulgação/Portas Abertas

“Pela primeira vez estou livre para adorar a Jesus em campo aberto”, conta missionária refugiada.

Desde 2002, a Coreia do Norte aparece em primeiro lugar na Lista Mundial da Perseguição a Cristãos. Presidido por Kim Jong-um, a nação, de mais 25 milhões de habitantes, conta com cerca de 300 mil cristãos. A população é totalmente proibida de seus direitos à liberdade de pensamento, religião, expressão e informação.

De acordo com a Missão Portas Abertas, os cristãos enfrentam níveis de pressão extremos em todas as áreas da vida, combinados com alto grau de violência. Nem mesmo a participação da Coreia do Norte nos Jogos de Inverno na Coreia do Sul, em fevereiro de 2018, mudou a realidade da igreja perseguida no local. As revistas para identificar e extirpar cidadãos com pensamentos divergentes aumentaram.

É nesse quadro que viveu a missionária Hea Woo, de 74 anos, há seis anos. Atualmente ela está refugiada em outro país desde que conseguiu fugir do campo de concentração, onde foi forçada a trabalhos pesados na Coreia.

Hea Woo tem uma vida marcada por perdas. Nos anos 50, foi obrigada a caminhar durante dois meses até a fronteira da China, quando a guerra assolou sua terra natal, de 1950 a 1953. Na época, a norte-coreana perdeu o pai, que trabalhava como médico para o exército; a filha mais velha, por causa da fome; e o marido, que foi preso e morto por se tornar cristão.

O testemunho do marido

“Fiquei chocada ao saber que meu marido havia se tornado cristão. Mas instintivamente percebi que ele havia encontrado a Verdade, enquanto eu ainda estava vivendo uma mentira. Eu tinha certeza: nossos líderes não eram absolutamente divinos. Então fugi para a China. Eu estava procurando por parentes que moram lá, mas eles foram embora. Então eu me refugiei no único santuário que encontrei: uma igreja cristã”, relembra Hea.

Não demorou muito para a norte-coreana decidir seguir a Cristo. Remontando ao seu passado, Hea lembra que sua mãe, falecida em 1990, sempre foi cristã. Além de carregar um colar com uma cruz em volta do pescoço, ela costumava orar enquanto fazia o café da manhã para a família. “O mais profundo pesar da minha vida é que nunca consegui falar sobre fé com minha mãe. Eu não sei porque ela nunca mencionou Jesus para mim, nem mesmo quando me tornei adulta. Provavelmente é porque eu era tão falante e impossível de guardar segredos”, lamenta.

O campo de concentração

Enquanto se acostumava com sua nova fé, Hea Woo não imaginava o que viria a acontecer. Certa noite, dois norte-coreanos, que ficavam na mesma casa que ela enquanto vivia na China, foram detidos por policiais chineses em um bar e deram o endereço de seu esconderijo. Quando os policiais chegaram ao local, apenas a missionária estava na casa.

Woo ficou presa durante dez meses e, em seguida, foi condenada a alguns anos em campos de trabalhos forçados. “Quase morri na prisão. Os guardas eram implacáveis. Eles me bateram com paus e me chutaram. Eu estava tão desanimada que comecei a duvidar de Deus. Quando voltei para a cela, senti-me completamente sozinha. Então ouvi uma voz alta que dizia: ‘Minha amada filha, você está andando sobre a água’. Durante os anos que passei na prisão e no campo de trabalho, ouvi a voz algumas vezes. Cada vez foi Deus me encorajando”.

Na cadeia, Hea Woo experimentou de perto a ação sobrenatural de Deus. Em um desses episódios, ela ficou muito doente e o médico lhe deu apenas três dias de vida. Certa de sua fé, ela orou a Deus para não morrer e prometeu contar ao mundo sobre a Coreia do Norte e a fé que aprendeu com seu marido. “Havia sete guardas cruéis e eu pedi a Deus para usá-los para me ajudar, mesmo que eles fossem parte do exército de Satanás. Um milagre aconteceu. Porque os guardas sabiam que eu estava prestes a morrer, eles me deram comida extra. Lentamente eu me recuperei. Depois de cinco meses eu estava completamente curada. Certamente foi Deus quem me manteve viva”.

“Não tente escapar, você será morto!”

Em uma de suas lembranças dos campos de trabalho, Hea Woo lembra do dia em que um grande caminhão levou os prisioneiros para as montanhas. Ao chegar ao barracão que dividiria com 50 mulheres, a enorme cerca trazia o aviso “Não tente escapar! Você será morto!”.

No barracão, as camas ficavam lado a lado e o dia começava às cinco da manhã. O café era um simples copo com 3 ou 4 colheres de arroz e os presos trabalhavam na agricultura até o almoço. “Era a mesma quantidade de comida tanto no café da manhã, como no almoço e no jantar. Entre as refeições não havia pausa ou descanso. Ao final do dia, eles voltavam à prisão e participavam de uma sessão onde nós tínhamos que criticar uns aos outros, contando o que o outro fazia de errado durante o dia. Depois disso, era treinamento ideológico até as 22h. Tínhamos que ficar acordados e prestar atenção ou éramos punidos”.

“Apesar de tudo, permaneci fiel e Deus e isso me ajudou a sobreviver. Não só isso.
Ele me deu um coração para evangelizar outros prisioneiros”

Woo resume os dias nos campos como “sofrer todas as dez pragas do Egito ao mesmo tempo”. O cenário era de desespero. Pessoas morriam, seus cadáveres eram queimados e suas cinzas espalhadas pela estrada. E foi nesse cenário que ela começou a cumprir a promessa que fez a Deus quando o médico lhe deu apenas três dias de vida.

“Senti em meu coração para evangelizar outros prisioneiros. Mas, como Deus poderia me pedir para contar aos outros prisioneiros sobre Jesus? Deus me mostrou quais prisioneiros eu deveria abordar. Então, eu ia até a pessoa e contava a ela o que está em Atos 16.3, que as pessoas têm que crer em Jesus e que elas e suas famílias serão salvas. Era uma mensagem encorajadora para os prisioneiros, que caminhavam à beira da morte todos os dias. Eles facilmente criam e se convertiam. Não só por causa do que eu dizia. Eles viram o Espírito Santo trabalhando em mim”.

Sobrevivendo na fé

E foi o trabalhar do Espírito Santo que deu forças a Hea Woo até o dia de sua liberdade. Hoje em dia, a missionária percorre o mundo levando a Palavra de Cristo a quem precisa e despertando a igreja para a realidade nua e crua dos cristãos que sofrem perseguição. Apesar do pesadelo vivido na Coreia da Norte, ela consegue sorrir e comemorar sua libertação. “Estou livre! Livre para ir onde eu quero, para fazer o que eu quero e para adorar a Jesus em campo aberto”.

Na maioria dos livros e filmes sobre campos de concentração, o autor tirou Deus da equação – como se esses lugares infernais e Deus fossem incompatíveis. O herói ou heroína tenta tirar o melhor proveito da situação, mas está completamente entregue à tirania dos guardas, até mesmo da própria vida. Não há Deus a quem recorrer. Mas não é assim nesta história real de Hea Woo (nome fictício)


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