A Anistia Internacional denunciou, no último dia 31 de julho, o que chamou de “discriminação extrema e institucionalizada” contra minorias religiosas no Paquistão. No relatório intitulado “Abra-nos e veja que sangramos como eles”, a organização destaca que a crença de que “trabalho impuro é reservado para não muçulmanos” tem condenado cristãos e hindus a funções perigosas e desumanas na limpeza urbana do país.
Segundo o documento, embora representem apenas 2% da população paquistanesa, os cristãos ocupam 80% dos cargos de lixeiros. O restante é formado por hindus. A Anistia destaca que, nos últimos cinco anos, ao menos 84 trabalhadores morreram em decorrência da precariedade das condições e da falta de infraestrutura para o saneamento básico.
“Suas vidas não valem o custo da modernização. O Paquistão precisa reconhecer a discriminação de casta como uma forma de racismo”, afirma o relatório, citando fontes locais.
Ainda que o sistema de castas não esteja oficialmente presente no Paquistão — ao contrário da vizinha Índia —, ele permanece na prática. Termos como “Chuhra”, historicamente associados a castas inferiores e atualmente sinônimos de cristãos, reforçam o estigma. Muitos muçulmanos que atuam nessas funções recusam-se a realizar tarefas mais degradantes, ocupando, em geral, cargos de supervisão.
Para a Anistia Internacional, a permanência desse sistema informal representa uma grave violação dos direitos humanos. “Muitos membros de minorias são forçados a esse trabalho por conta de preconceitos arraigados que lhes negam outras oportunidades. O sistema jurídico paquistanês ainda se recusa a reconhecer a discriminação por casta como racismo”, criticou Isabelle Lassée, diretora regional adjunta da entidade para o Sul da Ásia.
A organização pede que o governo paquistanês aprove uma lei específica que proíba expressamente a discriminação baseada em castas, e que adote medidas urgentes para garantir condições de trabalho dignas, seguras e equitativas. “Não estamos pedindo privilégios, mas respeito à dignidade humana e aos direitos fundamentais de todos os cidadãos, sem exceção”, conclui o relatório.
Testemunho de quem vive a realidade
Shafiq Masih, cristão de 44 anos, trabalha desde os 15 na limpeza de esgotos em Lahore, a segunda maior cidade do país. “Não há equipamentos, máscaras, às vezes nem luvas. Entro nos poços com as próprias mãos”, relatou à agência AFP.
Diariamente, Shafiq arrisca a vida em meio a gases tóxicos, esgoto e detritos. “É um trabalho difícil. Quando alguém desce (ao esgoto), primeiro tem que sacrificar todo o respeito próprio.” Ele contou ter sido atingido por dejetos enquanto pessoas lavavam roupas ou usavam o banheiro. “A sujeira cai direto em cima da gente.”
O caso de um trabalhador cristão que morreu asfixiado por gases em 2017, na cidade de Umerkot, gerou comoção após médicos muçulmanos se recusarem a atendê-lo durante o Ramadã por considerá-lo “impuro”.
A maioria dos cristãos no Paquistão descende de hindus de castas inferiores que se converteram ao cristianismo durante o período colonial britânico, tentando escapar da marginalização. No entanto, a conversão não os livrou da exclusão social, que persiste até hoje sob diferentes formas. Com informações Evangélico Digital


