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domingo, 23 junho 2024

André Mendonça contesta fala de Gilmar Mendes sobre “narcomilícia evangélica”

Algumas favelas cariocas exibem símbolos que retratam Israel. Foto: Reprodução redes sociais

A polêmica entre os ministros do STF começou após declarações generalistas sobre a relação entre narcotraficantes e a comunidade religiosa

Por Cristiano Stefenoni

O envolvimento de traficantes do Rio de Janeiro com igrejas evangélicas voltou ao debate esta semana, após uma declaração do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que afirmou – em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, na última segunda-feira (11), existir uma “narcomilícia evangélica” em atuação no estado. Em contrapartida, o também ministro da Corte André Mendonça divulgou nota, nesta quarta-feira (13), em que reprovou a atitude do colega e disse que a fala foi generalista e discriminatória, já que as igrejas não compactuam com o crime.

“Trata-se de fala grave, discriminatória e preconceituosa, pois dirigida a uma comunidade religiosa em geral. Se pessoas que se dizem ou se fazem passar por evangélicas estão envolvidas neste tipo de conduta criminosa, afirmo com total segurança que o segmento evangélico é o maior interessado na apuração desses fatos”, disse Mendonça na nota. 

Todo o embate se deu porque Gilmar Mendes teria citado uma reunião no Supremo, presidida pelo ministro Luís Roberto Barroso, em que se falou da existência de grupos de criminosos que usavam igrejas evangélicas como fachadas para cometerem crimes.

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André Mendonça contesta fala de Gilmar Mendes sobre “narcomilícia evangélica”
Bandeira de Israel hasteada na comunidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro. Foto: Reprodução redes sociais

“Recentemente, o ministro Luís Roberto Barroso presidiu uma reunião extremamente técnica sobre essa questão, e um dos oradores falou de algo que é raro ouvir: uma narcomilícia evangélica, aparentemente no Rio de Janeiro, onde já se tem um acordo entre narcotraficantes e milicianos pertencentes ou integrados a uma rede evangélica”, relatou Gilmar. 

Para evitar maiores transtornos, Mendonça disse que chegou a conversar com o colega sobre o assunto e que Gilmar reforçou a estima pelos evangélicos e destacou que em nenhum momento teve a intenção de constranger as igrejas e os seus membros.

Mesmo assim, a nota de André Mendonça não exclui essa possibilidade e ainda pede para que os fatos sejam apurados. “”Espera-se, assim, que eventuais condutas ilícitas dessa natureza sejam objeto de responsabilização, independente da religião professada de forma hipócrita e oportunista por quem quer que seja”, conclui a nota.

Problema do narcotráfico e as igrejas já foi alvo de estudo

A polêmica que envolve o tráfico e as igrejas não é de hoje. Tanto que um estudo já foi realizado sobre o assunto e virou um livro, intitulado “Traficantes evangélicos: quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus”. Nele, a autora, que é pastora e cientista da religião, Viviane Costa, narra suas experiências após anos de pesquisa sobre o assunto nas favelas cariocas.

Essas organizações criminosas também são chamadas por alguns pesquisadores como “narcopentecostalismo” ou “narcorreligião”. Em sua obra, Viviane destaca as comunidades Parada de Lucas, Vigário Geral, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau (chamadas de Complexo de Israel), que, segundo a autora, não só têm igrejas bancadas pelo tráfico, como também líderes religiosos que comandam o crime na região.

Um deles é Álvaro Malaquias Santa Rosa, mais conhecido como Peixão. Há mais de nove anos ele comanda o tráfico e também se identifica como pastor evangélico. Ele diz receber “instruções divinas” por meio de revelações e visões com estratégias para dominar o tráfico na região.

A situação ficou ainda pior em 2021, quando um inquérito da Polícia Civil revelou que havia sido fechado um pacto entre traficantes e milicianos na tentativa de fortalecer ainda mais o Complexo de Israel.

André Mendonça contesta fala de Gilmar Mendes sobre “narcomilícia evangélica”
A situação ficou ainda pior em 2021, quando um inquérito da Polícia Civil revelou que havia sido fechado um pacto entre traficantes e milicianos na tentativa de fortalecer ainda mais o Complexo de Israel. Foto: Reprodução redes sociais

Guerras do Antigo Testamento como inspiração

A pastora e pesquisadora também explica o porquê do livro do Antigo Testamento ser o mais utilizado por essas facções criminosas. Segundo ela, as histórias de guerreiros como Davi e Josué, designados por Deus para libertar o povo escolhido da opressão inimiga, é a narrativa perfeita para estimular as ações do tráfico.

Por outro lado, Viviane enfatiza em seu livro que, apesar de existirem igrejas que aceitam o dinheiro do tráfico e compactuam com o erro, há também pastores e denominações sérias, que não se envolvem com o crime, que possuem a chamada “blindagem moral”, termo utilizado para se referir aos que são considerados os verdadeiros “homens de Deus”. Eles são procurados pelos criminosos para receberem uma oração pela vida deles e pedir proteção para não morrer em um confronto.

A Comunhão está preparando uma série especial sobre esse tema. Aguarde!

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