A Pesquisa Juventudes Negras e Empregabilidade Desigualdade revela que há um descompasso estrutural entre escolarização e inclusão profissional
Por Cristiano Stefenoni
A nova edição da Pesquisa Juventudes Negras e Empregabilidade, apresentada nesta semana durante a 4ª Conferência Empresarial ESG Racial, em São Paulo, revela um cenário preocupante: mesmo com o avanço do acesso de jovens negros à educação, essa evolução não tem sido acompanhada pela mesma abertura no mercado de trabalho. Elaborado pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial em parceria com a Fundação Itaú, o levantamento aponta um descompasso estrutural entre escolarização e inclusão profissional.
O estudo utiliza o Índice ESG de Equidade Racial da Juventude Negra (IEERJN) para medir esse descolamento. Em 2023, os níveis mais elevados de formação apresentaram os piores resultados: -0,38 na Pós-Graduação e -0,29 no Ensino Superior. Quanto menor o índice, maior a desigualdade. Já as etapas iniciais da vida escolar mostraram indicadores menos distantes da equidade, como o Fundamental Completo (-0,01) e o Fundamental Incompleto (+0,15).
Para o diretor-executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial, Gilberto Costa, o efeito é paradoxal. “O Brasil está formando uma geração de jovens negros altamente qualificados, mas o mercado ainda não os absorve com equidade. Isso representa não apenas uma injustiça social, mas também uma perda econômica: estamos desperdiçando produtividade e inovação”, afirmou.
A pesquisa aponta que a exclusão racial se intensifica justamente nas carreiras de maior retorno financeiro — como engenharia, direito e tecnologia. Um dos achados mais marcantes revela que jovens negros com menor escolaridade permanecem mais próximos da equidade ao longo dos anos, enquanto aqueles que avançam nos estudos enfrentam obstáculos crescentes para ingressar em áreas de maior prestígio.
É um movimento que reforça a segregação ocupacional, mantendo a população negra concentrada em funções de baixa remuneração e pouca ascensão. Costa observa que a educação, embora essencial, não rompe sozinha esse ciclo.
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Recorte de gênero acentua o cenário
Quando o foco recai sobre as mulheres jovens negras, a desigualdade ganha contornos ainda mais profundos. Elas seguem concentradas na base da pirâmide salarial, acumulam maior carga de trabalho doméstico não remunerado e enfrentam taxas mais altas de gravidez precoce — fatores que impactam diretamente sua trajetória profissional.
Os índices do IEERJN para mulheres negras, analisados pela RAIS em 2023, reforçam essa tendência: -0,33 na Pós-Graduação, -0,31 no Ensino Superior e -0,37 no Ensino Médio. Apesar do quadro, o estudo observa que, quando conseguem acessar e concluir a universidade, essas jovens apresentam trajetória de ascensão mais sólida do que nos demais níveis avaliados.
“Historicamente, as mulheres negras recorrem ao empreendedorismo como forma de sustentar as suas famílias, diante das dificuldades encontradas no mercado formal. Mesmo quando elas conseguem concluir o ensino superior e conquistar maior mobilidade social, não necessariamente estão em uma situação favorável. Muitas vezes, ainda precisam lidar com salários menores e dificuldade de acesso a cargos de liderança”, destacou Costa. Com informações da Agência Brasil

