23.8 C
Vitória
domingo, 14 agosto 2022

Marília de Camargo

Ela queria ser psiquiatra, mas Deus tinha outros planos para sua vida. Questionadora, curiosa, o gosto pela leitura e a grande facilidade para escrever, aliados à permanente vontade de entender a complexidade dos atos e fatos da existência humana, acabaram levando-a ao Jornalismo, onde fez uma brilhante carreira – após anos de serviços prestados ao jornal Gazeta Mercantil, desde 2000 ela integra a equipe do jornal econômico Valor, onde hoje é editora de suplementos especiais.

Os traços de sua personalidade e a escolha profissional lhe forneceram um caminho natural para enfrentar uma das situações mais difíceis que já viveu: após uma década congregando em uma igreja que parecia perfeita, ela testemunhou a repentina desagregação daquela comunidade evangélica e o linchamento moral de seu pastor. Atônita, ouviu cada irmão, buscando compreender como, da noite para o dia, tamanha tragédia se abatera sobre aquele grupo. Sua busca resultou no comovente ‘Feridos em Nome de Deus’ (Mundo Cristão, 2009), primeiro livro de Marília de Camargo César.

Na obra, lançada em junho, a jornalista, membro da Igreja Batista de Água Branca, do pastor Ed René Kivitz, aborda um fenômeno cada vez mais freqüente nas igrejas atuais, que ela conceituou como ‘abuso espiritual’ – situações em que líderes e liderados se envolvem sem perceber e que resultam em grande destruição emocional, moral e, por vezes, até mesmo material. Marília reuniu relatos reais de pessoas que tiveram suas vidas vitimadas por abuso espiritual – como abusados ou como abusadores – e, com a ajuda de renomados teólogos, pastores e outros especialistas, desvenda as raízes desse problema, que pode transformar a igreja de hospital em câmara de torturas. Acompanhe.

Seu livro esclarece o conceito de ‘abuso espiritual’ e ensina aos leitores como perceber se estão envolvidos nesse tipo de situação. Por que você escolheu esse tema?
Estava em busca de respostas. Fui membro de uma igreja durante dez anos, uma igreja interdenominacional, avivada, e ali construí muitas amizades e relacionamentos. De um dia para o outro, surgiram denúncias de abuso de autoridade contra um dos pastores. Muitos que andavam bem próximos dele passaram a acusá-lo de manipulação, abuso financeiro e daquilo que denominei abuso espiritual. No começo ficamos atônitos, sem saber o que estava acontecendo, as razões daquela divisão. Então, o instinto de repórter falou mais alto e eu fui investigar o que tinha dado errado. O livro nasceu assim.

Quais são as formas e as causas mais comuns de abuso espiritual?
O abuso financeiro é o mais óbvio – o líder usa a Bíblia para legitimar o autofavorecimento: abençoe o profeta do Senhor e você será abençoado, dizem essas figuras. A ovelha vê aquilo escrito na Bíblia e acredita que terá mesmo recompensa por favorecer um servo do Senhor. O assédio emocional e espiritual muitas vezes é mais sutil. O pastor humilha o fiel diante da congregação, tratando-o como um rebelde insubmisso apenas porque ele ousou questionar um pensamento, e depois, a sós, o pastor diz pra ele que fez isso por “zelo”, porque ele precisava aprender a se submeter à autoridade pastoral. Isso ouvi não uma ou duas, mas muitas vezes. O livro relata outras formas sutis de manipulação, todas igualmente devastadoras para quem está do outro lado do púlpito.

No livro, você fala sobre dois cenários, quase opostos, que os evangélicos normalmente encontram: uma igreja e culto tradicionais, “mornos” e com reduzido poder de atração, ou uma igreja e cultos mais emocionais e mais atraentes – onde, no entanto, o rebanho corre um risco maior de atribuir poder demais à figura do pastor. Existiria uma terceira via, mais equilibrada?
Certamente deve haver uma terceira via, e uma quarta e uma quinta. Há igrejas para todos os estilos de pessoas, creio eu. O problema, como escreve Osmar Ludovico em “Meditatio”, é quando as pessoas se tornam seletivas, ficam fazendo test drive com igrejas e passam a achar que não existe nenhuma à altura de sua espiritualidade, ficam procurando os defeitos e se tornam, assim, soberbas. Ora, igreja perfeita só quando a Noiva estiver pronta e adornada, ao lado do Noivo, glorificada. Isso é para depois. Aqui, sempre teremos que conviver com os defeitos de nossas comunidades e pastores. Acho que precisamos procurar um ambiente onde nos sintamos bem, onde sejamos estimulados a pensar, a questionar, e onde nossos defeitos combinem melhor com os defeitos da comunidade e da liderança (risos).

De uma forma ou outra, o dinheiro está presente na base da maioria dos conflitos narrados no livro. A que atribui isso?
Muitas pessoas que são abençoadas pelo pastor ou líder querem retribuir com presentes a atenção, o carinho, as orações ministradas. É natural. O problema é quando isso passa dos limites e quando o líder começa a se ver como merecedor desses agrados, passando até a pedi-los – e isso acontece com alguma frequência. Se sou jornalista ou balconista, o presente que poderei dar a meu pastor será talvez um livro, uma camisa. Mas e se eu for um grande empresário, uma celebridade? Vou querer abençoá-lo com um carro, uma casa nova. Isso acontece, na prática, e as igrejas não estão prontas para lidar com esse tipo de situação. Eu sugiro no livro que os estatutos das igrejas contemplem um código de ética que defina um valor para esses presentes, como fazem algumas empresas. Seria um jeito de proteger o próprio pastor de uma situação que pode resultar, eventualmente, em constrangimento.

Você mostra que a necessidade de seguir um líder, com medo da responsabilidade trazida pelo livre arbítrio, fragiliza o crente diante de uma liderança espiritual abusiva. Fale um pouco mais sobre isso.
É muito mais fácil ter um guru, um pastor-consultor para assuntos diversos, que lhe diz sempre o que você tem que fazer, do que gastar tempo de joelhos, lendo a Bíblia, se aquietando – nossa!, como dá trabalho ter que se aquietar diante de Deus, eu diria que é uma das coisas mais difíceis nesta vida louca que levamos hoje. As pessoas adoram respostas prontas, soluções tipo fast food, “liga pro pastor, pergunta se deve ou não deve” e o pastor diz: deve, e você vai lá e faz. Se der errado, a culpa é do pastor, claro, e não da sua própria imaturidade. Isso está acontecendo demais nas igrejas, o rebanho imaturo perguntando ao pastor sobre os detalhes de suas resoluções cotidianas e os pastores adorando assumir esse papel de manda-chuva. Isso é um terreno fértil para a ocorrência de abuso, infelizmente.

Entre os aspectos que podem facilitar que o crente seja vítima do abuso espiritual você aponta a educação autoritária. No entanto, há décadas que a educação vem-se liberalizando, ao ponto de, hoje, muitos atribuírem alguns dos graves problemas que a sociedade vem enfrentando à falta de limites dados pelos pais às crianças e jovens – ou seja, uma postura cria abusados e a outra, abusadores. Como ultrapassar essas duas posições?
Tenho duas filhas pequenas e entendo que amor e firmeza trazem muita segurança para a vida delas; muito amor e muita firmeza. Quando se tem convicções, é necessário transmiti-las aos filhos, mas com muito amor. Não significa omissão e indisciplina. Minhas filhas sabem, pelo meu tom de voz, quando “pisaram na bola”, e em alguns momentos, tirar algo que seja importante para elas é uma lição mais dura que uma “varada”. A educação autoritária, violenta, que não permite questionamento, onde a criança tem medo de se expressar, ajuda, sim, a criar indivíduos mais tolerantes ao abuso na vida adulta. Esta é a opinião dos profissionais da mente e um traço comum nas histórias que narro no livro.

Você acha que o propósito para o qual escreveu o livro foi ou está sendo alcançado?
Creio que os resultados superam todas as expectativas, muitas pessoas escrevem contando como puderam fazer uma autoanálise depois de ler o livro e entender onde elas também falharam no relacionamento com o líder. Entendem que foram ingênuas, que transferiram responsabilidades ou que simplesmente se meteram com as pessoas erradas, o que acontece. A maioria dos que escrevem no blog do livro (www.feridosemnomededeus.com.br) afirma ter sido ajudada pelos relatos e análises, e isso é uma grande recompensa para o meu trabalho. Agradeço demais a Deus por estar usando essa obra para curar tantos corações partidos e restabelecer a fé de muitos.

Qual a mensagem que gostaria de deixar para os leitores de Comunhão?
Sempre costumo enfatizar que só existe um Pastor perfeito, aquele que sofre conosco quando estamos sofrendo as dores e as feridas feitas por pastores imperfeitos – todos os demais. Nada no mundo pode nos separar desse amor. Sei que cada um tem um tempo para recuperar-se das feridas causadas pela igreja, pelo legalismo, pelo farisaísmo. Mas oro para que as pessoas não percam o tempo certo de voltar aos braços do Senhor. Agradeço a revista pelo interesse no livro e que vocês possam sempre ajudar a divulgar o ministério da reconciliação, que é dado a todos os cristãos.

Entre para nosso grupo do WhatsApp

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Entre para nosso grupo do Telegram

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

- Publicidade -

Matérias relacionadas

Comunhão Digital

- Publicidade -

Fique Por Dentro

- Publicidade -

Plugue-se