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quinta-feira, 22 abril 2021

Luto!

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Foto: Reuters/ Bruno Kelly/ Direitos reservados

O luto induz-nos a uma reflexão sobre a transitoriedade da vida, a ponto de ser praticamente impossível dissociá-la da morte

Por Clovis Nery

A morte, sem dúvida, é o tema mais badalado nos meios de comunicação. Com seu aguilhão, está na espreita. Quase todos os dias, ficamos sabendo da partida de alguém querido. Temos a sensação de que estamos na fila esperando a nossa vez.

A vida é bela e maravilhosa, mas lega-nos períodos de aflições como os atuais. A cada segundo tem gente ingressando na viagem sem volta, muitas vezes, sem despedida, e sem velório.

Mergulhamos numa “escura noite” com estrelas opacas. Ao amanhecer, atônitos, e com copiosas lembranças da pessoa amada que retornou ao pó, experimentamos inusitada agonia. Sangramos por dentro. É o luto! Mas, extraindo força da fraqueza, a dor atroz impulsiona-nos a ir em frente, apesar da desmedida turbulência, agravada com incertezas quanto ao futuro.

Comigo foi assim: se no início, com o excesso de introspecção, passamos por intensa “anedonia”; depois, por longo tempo, experimentamos uma tristeza profunda, beirando à melancolia e, como uma árvore que, se arrancada do solo, deixa marcas, “perecemos” um pouco. Finalmente, assimilando a irreversibilidade do ocorrido, ficamos mais resilientes.

Aqui, permito-me alongar a respeito da “lágrima contida”, o que não é bom. Vertê-la alivia a tensão emocional gerada pela perda. É fato que não economizamos palavras para dizer que amamos nossos irmãos. Somos bons com declarações afetivas, mas é no mínimo curioso como nos omitimos com as atitudes. Iniciamos e terminamos nossos velórios com os olhos secos. Tenho visto pouco ou quase nenhum choro nos enterros, mas já ouvi mensagens nestes termos: “Estamos felizes porque nosso irmão (fulano), agora, está no Céu”.  Jesus não ensinou isso.

Negar a nossa humanidade nada tem a ver com espiritualidade. É dissimulação ou, em certos casos, orgulho espiritual. Esconder o sofrimento implica na retenção das energias negativas, entravando a elaboração do fato. Jesus não se comportava assim. O nosso Mestre era real. Ao ver o túmulo de Lázaro “Jesus chorou” (João 11: 35).

Quando foi mesmo que eu e você choramos por um irmão nosso ter partido? “E o que dizer do excesso de flores em nossos funerais? Será que nos servem de consolo por não terem sido entregues em vida?” Se não somos reais em nossas relações intrapessoais e interpessoais como seremos nas espirituais? Ah se entendêssemos que atos sinceros de condolências e solidariedade não custam quase nada, mas impactam vidas extraordinariamente, inclusive a nossa própria!

Voltando ao luto, ele induz-nos a uma reflexão sobre a transitoriedade da vida, a ponto de ser praticamente impossível dissociá-la da morte, pois ambas interagem sobre a face da terra. Assertivamente, diz Deepak Chopra: O contrário da morte não é a vida. É o nascimento. A vida é o continuum”, ou seja, é a etapa que ocorre no intervalo entre ambos. E nesse intervalo há mistérios. Para clarificar sua compreensão, parafraseio o cronista Osmann de Oliveira: precisamos passar por um hospital, uma prisão e um cemitério. No hospital aprendemos valorizar a saúde; na prisão, a liberdade; e, no cemitério “entendemos que um dia o nosso chão será o nosso teto”.

Portanto, é indispensável viver aos pés do Mestre, de forma tal que, após nossa partida, continuemos “vivos” por meio de um legado que direcione outros no caminho do amor fraternal. Em outras palavras, devemos “escrever”, da melhor maneira possível, o livro de nossas vidas, porque, agindo com pureza e fé, triunfaremos sobre a morte.

Clovis Rosa Nery é Psicólogo e escritor

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