O teólogo e pregador revela o processo – entre oração, reflexão e subjetividade – por trás da escolha do texto, da ilustração e do foco de um sermão que costuma alcançar públicos diversos
Por Patrícia Esteves
A escolha do tema de um sermão muitas vezes passa despercebida. Porém, para o teólogo e pregador de renome mundial John Piper, a decisão é quase sacral, pois envolve oração, temor, experiência e uma sensibilidade que vai além da razão. Em episódio recente do podcast Ask Pastor John, ele abriu como aborda essa tarefa, especialmente em situações únicas, como pregar num presídio.
Piper explica que “a base para elaborar um sermão é construída sobre ‘a vontade de Deus’, definida como incluindo ‘uma aplicação espiritualmente discernida da mente de Cristo a uma situação particular’”. Ele sublinha que não basta o que se poderia chamar de “racional puro”. “Não é apenas racional; é mais do que racional”, afirma. Há, portanto, um convite para pensar a mensagem como resposta divina a circunstâncias humanas, não apenas como algo formulado pelo pregador.
O papel da sabedoria da experiência
Piper reconhece que o processo não está completamente sob seu controle. “Seria presunçoso da minha parte dizer que faço minhas escolhas em tais situações simplesmente porque sou sábio. Grande parte do processo está fora do meu controle”, explica. Ele menciona que “a sabedoria é permeada pelas influências subjetivas do meu coração, e não apenas pela mente tentando descobrir como aplicar um texto”. Esse movimento entre experiência de vida, oração e conhecimento desafia a lógica de um sermão puramente técnico.
Uma situação-limite
Como exemplo concreto, Piper conta que preparou um sermão para cerca de 120 detentos em um presídio de Minnesota e que a escolha do texto surgiu poucas horas antes da pregação. Ele relata que “inclinações extremamente subjetivas se misturavam com o pensamento racional” e que “a pura praticidade influenciava a dinâmica espiritual do momento”. Ele também conta que, durante dias, orou suplicando ao Senhor que o guiasse e mostrasse qual Escritura e qual abordagem seriam mais eficazes para a salvação.
A escolha de Romanos 8
No relato de Piper, ele compartilhou que escolheu a passagem de Romanos 8, mesmo tendo planejado trabalhar com Filipenses 3:13. “Minha primeira ideia era Filipenses 3:13. Mas meu primeiro pensamento foi: Romanos 8 é o maior capítulo da Bíblia. Eu o amo. Eu o conheço de coração”, conta. Em seguida, decidiu que “seria impactante” recitar o capítulo inteiro de memória para aqueles homens. A praticidade também falou mais alto: ele sabia que ter apenas quatro horas para preparar favorecia o texto que dominava.
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Implicações para a pregação
A escolha do tema não é apenas sobre “o que pregar”, mas “como e por que”, ou seja, a sensibilidade para a situação da plateia e para o mover de Deus. A prática da oração intencional também é parte decisiva da preparação. “Sou muito, muito grato por acreditar que Ele respondeu aquela oração”, afirma.
Precisa existir equilíbrio entre exposição bíblica e aplicabilidade concreta, segundo Piper. Mesmo em um contexto exigente, ele escolheu um capítulo que conhecia profundamente e que se encaixava bem no tempo e na audiência. O pregador também reforça a importância da humildade de reconhecer que não se trata apenas de técnica ou fórmula, mas de um processo que inclui o imprevisível, o “fora do meu controle”.
Ver o relato de John Piper é lembrar que pregar, ensinar ou comunicar a fé não é um processo mecânico e que a autoridade mais profunda não está na pose do púlpito, mas na vulnerabilidade de quem reconhece depender de Deus para a palavra certa no momento certo. A pergunta que fica não é apenas “sobre o que vou falar?”, mas “como e por que vou falar disso?”. E, sobretudo: “Que oração estou fazendo antes de abrir a boca?”.

