O vício gera negligência com relação a responsabilidades do dia a dia e impacta os relacionamentos, o trabalho e a caminhada com Deus
Por Patricia Scott
O que parece uma simples brincadeira inofensiva pode levar à dependência. A curiosidade alinhada à facilidade do celular, além da vontade de ganhar dinheiro de forma rápida, tem levado milhares de brasileiros para os sites de jogos de azar, que são proibidos no Brasil.
Uma pesquisa realizada pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) aponta que o Brasil possui uma média de dois milhões de pessoas viciadas em jogos. Assim, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o jogo compulsivo é como uma doença, ao lado da dependência de álcool, por exemplo. O termo técnico para a patologia é ludopatia, um transtorno sério que afeta a vida pessoal, profissional e social das pessoas.
“O vício em jogos online é caracterizado por perda de controle sobre o tempo gasto jogando, negligência de responsabilidades, sintomas de abstinência ao não jogar e impacto negativo na vida pessoal, social ou profissional”, explica o psicólogo Alexandre Rivero. Ele acrescenta que a compulsão pode ser uma forma de compensação para lidar com sentimentos de insatisfação, estresse, solidão ou problemas emocionais, oferecendo uma fuga temporária e sensação de recompensa.
Dentro desse contexto, o especialista observa que o vício em jogos on-line pode causar problemas físicos como fadiga, dores musculares, distúrbios do sono, problemas oculares e sedentarismo. Além disso, consequências psicológicas como ansiedade, depressão, isolamento social, alterações no humor, irritabilidade e dificuldade em regular as emoções. “Prejudica a capacidade de concentração e a tomada de decisões”.
Nesse sentido, o psicólogo alerta também que esse tipo de vício, assim como os outros, reflete nos relacionamentos. Isso porque pode levar a distanciamento emocional, falta de comunicação, negligência de responsabilidades familiares e conflitos frequentes. “O resultado é a deterioração das relações familiares e a diminuição do suporte social”, salienta Alexandre.
Impacto nas finanças
O tratamento é indispensável. O psicólogo orienta a terapia cognitivo-comportamental (TCC), “que ajuda a modificar comportamentos e pensamentos negativos, além de suporte psicológico”. Alexandre indica, ainda, grupos de apoio e, em alguns casos, medicamentos para tratar comorbidades como ansiedade e depressão.
Na visão da psicóloga Rosângela Casseano, um dos aspectos mais preocupantes da ludopatia é a relação direta com problemas financeiros, além de dependência que gera o vício. “Muitas pessoas que desenvolvem o vício em jogos de azar acabam se endividando, comprometendo suas economias e até mesmo cometendo crimes para sustentar o vício”, explica a terapeuta cognitivo-comportamental e CEO da PsicoPass.
Esse aspecto socioeconômico torna a ludopatia um problema que afeta não apenas o indivíduo, mas também a sociedade como um todo, analisa Rosângela. “Também pode desencadear sérios problemas de saúde mental, como o estresse crônico e ainda a dificuldade de lidar com as responsabilidades do dia a dia”, adverte a psicóloga.
Campanhas de conscientização
Rosângela acredita ser fundamental que a sociedade e os meios de comunicação estejam atentos a essa questão, promovendo debates e campanhas de conscientização sobre os riscos da ludopatia. Ela destaca que é imprescindível que as autoridades governamentais implementem políticas públicas eficientes para o controle e a prevenção desse problema.
“Somente através do diálogo aberto, da informação e do suporte adequado, poderemos ajudar aqueles que estão lutando contra a ludopatia a reconstruírem suas vidas e encontrarem um caminho de recuperação e bem-estar”, conclui Casseano.
Visão bíblica
As Sagradas Escrituras não abordam os jogos de azar, mas citam que o crente precisa ser prudente com o dinheiro e também não aprovam qualquer tipo de vício. “Esses jogos são feitos para a pessoa perder ou, às vezes, permitem o ganho temporário, justamente para que o jogador queira ganhar mais e, por fim, acaba viciado”, avalia a pastora Rozimar Santos, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), em Vargem Pequena, Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Ela pontua que “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” e quem corre atrás de dinheiro fácil acaba caindo em muitas dificuldades, conforme 1 Timóteo 6.9-10: “Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos”.
Rozimar adverte que o cristão tem o poder de escolha. Afinal, Paulo afirma: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, porém eu não me deixarei dominar por nenhuma” (1 Coríntios 6.12). “Lembrando que as consequências virão, inclusive na área espiritual quando, muitas vezes, pode comprometer o dízimo e a oferta, por exemplo, e ainda comprometer a intimidade com Deus, já que o pecado separa o homem do Criador”.

