Israel Belo: “Sem missão, somos pagãos”

Foto: Arquivo pessoal

Autor de mais de 60 livros cristãos, jornalista, pastor e conferencista Israel Belo de Azevedo diz que “as igrejas ainda são um oásis para o crescimento pessoal”.

Autor de uma vasta literatura cristã, mais de 60 já publicados. E conhecido pelas mensagens devocionais diárias “Bom dia amigo” e notas inspirativas para Bíblias de estudo, o pastor Israel Belo de Azevedo lançou recentemente mais uma obra: “Boa noite – leituras diárias para aquietar a alma”.

Jornalista, escritor e conferencista nacionalmente conhecido, pastor Israel lidera Igreja Batista Itacuruçá, no Rio de Janeiro e segue defendendo a importância da missão. “Onde está o teu tesouro, lá também está teu coração”, afirmando que “sem missão não dá” e que “sem missão, somos pagãos”.

Em entrevista à Comunhão, ele fala de suas publicações na área cristã, o papel da liderança das instituições religiosas e que “as igrejas ainda são um oásis para o crescimento pessoal”. Confira!

Comunhão – O senhor lançou recentemente o livro devocional diário intitulado “Boa noite”. Pode nos contar como foi o desenvolvimento deste trabalho?

Israel – Escrevo desde 2009 o devocional diário ‘Bom dia amigo’, primeiro no site depois em livro (2014) e há três anos via WhatsApp e aplicativo ‘Minha jornada’. A editora Mundo Cristão me convidou para escrever ‘uma noite’ numa pegada mais meditativa, numa dimensão voltada para a quietude. Eu não consegui para 2018, mas, para minha grande alegria, consegui esse ano e a editora fez um belo trabalho. A edição ficou esplêndida. Como método de trabalho, ao me assentar para escrever a cada dia (porque enviei via WhatsApp para os meus milhares de contatos) eu passava em revista minhas experiências com pessoas desde a manhã. Foi uma experiência marcante para mim.

Como surgiu o desejo de expressar seus pensamentos por meio da escrita?  

Entrei na escola aos 9 anos, em Campo Grande, na região metropolitana de Vitória (ES). Eu era doente dos ouvidos (sou surdo de um deles) e não podia ir para a escola, mas irmã, Dulcineia, podia e ela me trazia as lições. Quando fui para a escola, sabia ler razoavelmente. Quando completei 9 anos, ganhei um livro: “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, e em seguida esteve em Campo Grande o o poeta Avelino de Souza, que meu deu o seu “Canções da Primavera”. Comecei imitando o Avelino. Comecei poeta, mas sou sofrível no gênero. Nunca parei de escrever. Nunca parei de ler, sobretudo os poetas brasileiros e Machado de Assis. Quando nos mudamos para o Rio, onde meu pai foi estudar no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, fundei um jornal no Ginásio Instituto Batista Americano, chamado “Fatos em Fotos”. Era impresso num mimeografo a álcool.

O senhor tem uma vasta literatura, mas qual dos livros que já escreveu que foi o mais prazeroso de escrever, que mais te impactou e teve mais resultados espiritualmente falando?

Foto: Arquivo pessoal

Todo o autor diz a mesma coisa: “gosto de todos” ou “cada um tem uma história”. Mas devo ter publicado uns 60 livros em diferentes áreas. Meu primeiro, “As cruzadas inacabadas: introdução à história na América Latina” foi muito trabalhoso, na pesquisa e na edição, que eu mesmo fiz .

Os leitores da área acadêmica me falam muito do minha “A celebração do individual: história do pensamento batista”, que foi minha tese de doutorado. Nutri grande esperança com minha série para crianças “Era uma vez na Bíblia”, (em seis volumes), mas a tiragem não foi expressiva. Fiquei muito feliz também com a “Bíblia Sagrada Bom Dia”, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil.

Muitos comentam o impacto sobre suas vidas, mas nada supera o “Bom dia amigo”, que publico desde 2014, com 365 meditações diárias. As últimas edições alcançaram 130 mil cada e minha meta é chegar a 500 mil, falando a cristãos e a não cristãos. E agora estou preparando uma Bíblia voltada para inspirar pessoas em situação de desespero, como alerta a campanha “Setembro Amarelo”.

O senhor tem uma vasta experiência como editor de livros, também sempre gostou de ler, o que considera uma leitura prazerosa e como as pessoas podem buscar isso?

Cada um faz suas escolhas, pelas quais viajam no tempo e no espaço, inspiram-se e se aperfeiçoam. Quando eu tinha tempo, minhas preferências eram a poesia e a ficção, sempre de autores brasileiros, com poucas exceções, especialmente para Dostoiévski. Na poesia, permanecem minhas referências as obras de Castro Alves e Carlos Drummond de Andrade, passando por Manuel Bandeira. Na ficção, além de Machado de Assis, sou ainda enriquecido pela leitura de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Só devemos ler livros gostosos. Entre os autores cristãos com livros de teologia para o grande público, minhas preferências são para Dietrich Bonhoeffer, Phillip Yancey, Brennan Manning, Kenneth Bailey, Eugene Peterson e Henri Nouwen.

Como escritor o que considera relevante para a produção de uma boa obra?

Temos que dizer as coisas que ainda não foram ditas. Na verdade, temos que dizer as coisas necessárias de uma forma original, isto é, nova, agradável e atual. Um escritor, não importa o gênero, tem que se preparar, o que inclui a pesquisa. Um escritor tem que acreditar que sua obra impactará os leitores. Um escritor tem que seduzir o leitor para que ele fique até o fim na página. Um escritor tem que fazer o leitor voar, ir além de si mesmo.

Muitos escritores baseiam suas obras em estudos, experiências e inquietações do dia a dia, e para o senhor, como é isso?

Para ser lido, o escritor tem que escrever o que precisa ser lido, sempre respondendo a perguntas reais das pessoas, mesmo que imaginadas pelo autor. Um dos equívocos das pessoas é achar que sua vida dá um livro. Nossas histórias pessoais não interessam, a menos que toquem as histórias das pessoas. Para tanto, têm que ser universais. Precisamos de mais poetas, mas de poetas que leem. Poesia não é um amontado de palavras. Requer rigor, pesquisa, imaginação. Poesia é forma. É rara a poesia cristã brasileira e raríssima a evangélica. O quadro na ficção é pior. Precisamos de mais ficcionistas. Se eles escreveram sobre famílias evangélicas, por exemplo, muitos preconceitos serão abandonados. Um leitor evangélico precisa buscar ficcionistas não cristãos para se divertir e enriquecer, o que é uma pena.

Como avalia o mercado editorial evangélico?

Há muitos anos tenho dito às editoras que devem investir na formação de novos leitores, publicando para crianças que tenderão continuar leitoras. No entanto, cada um pensa apenas no resultado no final de ano. Por esta razão, o quadro se agravou, com cada vez menos leitores, especialmente por causa do tempo gasto em mídias digitais e gratuitas.

Na sua avaliação, a Igreja evangélica está empenhada em oferecer um bom processo de formação pessoal ou profissional?

As igrejas ainda são um oásis para o crescimento pessoal. É forte o estímulo à leitura e ao crescimento profissional. Pastores levam sua gente a feiras de livros, promovem livros, convidam autores. As igrejas que não fazem isto deviam fazer. O benefício é grande. Os cristãos que frequentam as escolas bíblicas são confrontados com ideias diferentes na interpretação do texto bíblico, e isto abre novos horizontes. O ambiente na igreja é propicio ao desenvolvimento intelectual, o que é muito bom. O que lamento é o descompasso com a ciência, que faz com que muitos jovens, ao chegarem à universidade, acabam se afastando. Desde cedo aprendi que não há conflito entre ciência e fé, entre oração e medicina. É triste que ainda tenhamos que ouvir que uma doença como a depressão seja um sintoma da falta de Deus. Além de ignorante, a frase provoca um culpa que não deveria.

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Há uma certa indiferença e diria que acomodação por parte da Igreja em relação ao conteúdo que muitos líderes fornecem para suas ovelhas, porque?

No caso das igrejas históricas, o pastor é um intelectual. Ele estuda para ser pastor. Ele estuda para pregar. Um intelectual não pode se acomodar. Um intercultural sabe que “uma pessoa fala pelo que diz, diz pelo que pensa e pensa pelo que lê”. Aprendi esta frase na igreja e ela nunca me abandonou.

Agora na vida pessoal, qual a experiência emocional mais forte que já passou e o que aprendeu disso como homem, pastor e líder?

Falo de uma recente, que me levou às lágrimas: ver exemplares do BOM DIA AMIGO 2019 no kit entregue aos bombeiros servindo em Brumadinho. Falo também de que, quando tive câncer na próstata. Depois da cirurgia, tive uma intercorrência e precisava fazer um exame para o qual não tinha força para me deslocar e ficar em pé. Foi num domingo logo após o almoço. Enquanto eu sofria, membros de uma mesma família da igreja almoçavam num shopping após o culto. De repente, uma delas se levantou e disse que tinha que ir me ver. Ela chegou e me ajudou a me levantar e a me manter em pés. Ela era médica. Até hoje é um anjo em nossa família.

Sobre o Ministério pastoral, existem muitos líderes que se destacam no Brasil pelo trabalho que realizam, mas demonstram o “esgotamento físico”. Qual o preço que se pagar por viver pela causa do Evangelho?

Sigo a frase do doutor Adib Jatene: trabalho não mata ninguém; o que mata é aborrecimento. Talvez eu possa acrescentar: a solidão mata. O problemas dos pastores é que não têm mentores, o que os sobrecarrega. Quanto a ser cristão, nunca foi tão fácil ser cristão, porque o cristianismo virou saco de pancada, por seus defeitos e também por suas qualidades. Quando alguém se apresenta como cristão, precisa de coragem para começar a falar e continuar a falar. O cristão é ou não é.

Em Mt 6:21 Jesus traz o seguinte conselho: “onde está o teu tesouro, lá também está teu coração”, qual a coisa mais importante para o cristão?

Sem missão não dá. Escrevo esta frase há décadas. Os cristãos temos que estar na dianteira do voluntariado. Deus nos fez com um missão. Quando a desenvolvemos, somos felizes. Sem missão, somos pagãos.

O que senhor considera como precário e inadmissível hoje dentro da igreja? E como reverter isso?

Nosso maior problema é o legalismo. Não podemos esquecer que não merecíamos ser salvos, nem que fomos salvos para fazer boas obras. Em outras palavras, a sequência é clara: primeiro a graça, depois a obra. Quando a obra vem antes, quando o sacrifício vem antes, Jesus deixa de ser o centro e nós viramos senhores.

Além de escrever livros, o senhor também publica vídeos na internet com mensagens curtas de esperança e encorajamento. Em um deles o senhor relata uma experiência pessoal que teve de um câncer da qual foi curado. Acredita que fé é o caminho?

Ciência e fé são dois trilhos de uma linha de trem. Se precisamos ir ao médico ou ao psicólogo ou ao engenheiro ou ao nutricionista, devemos ir a eles como recursos que Deus nos disponibiliza. Vamos em oração, antes de ir, durante o tempo com eles e depois da intervenção deles.

Como conciliar família, vida pessoal e liderança de uma igreja? O que se deve evitar para ter o equilíbrio da balança?

A formula é antiga: Deus em primeiro lugar, família em segundo lugar; igreja em terceiro. Deus dirige, a família acolhe, a igreja alimenta. O tempo que dedicamos a estas esferas da vida tem a ver com nossa saúde emocional. Deus não pode ser uma fuga. A igreja não pode ser um palco.

No atual cenário político percebemos o envolvimento de vários cristãos, da qual muitos deles tiveram seus nomes envolvidos em “escândalos”, o senhor concorda com o engajamento do cristão na política como militante? Porque?

Precisamos de cristãos na política. O problema é que o jogo é bruto. Político só pensa em se perpetuar no poder, tantos são os benefícios dentro da lei, inúmeros são os frutos fora da lei. O erro começa na eleição, que demanda muito dinheiro. Não entram os melhores, mas os que podem pagar o preço ou o que se vendem. Se um cristão vocacionado consegue se manter íntegro deve ter o nosso apoio. Os escândalos vem porque boa parte dos políticos é espiritualmente rala. Podem até começar bem, mas não se vigiam a si mesmos. O poder é sedutor. Fico com o historiador norte-americano, para quem o poder não corrompe; o poder revela.