Intolerância contra cristãos cresce em todo o mundo

Intolerância contra cristãos cresce em todo o mundo
Somália: conflitos internos geram mais instabilidade aos cristãos. Foto: Portas Abertas

Pesquisa da Portas Abertas revela que mais de 260 milhões de cristãos no mundo são perseguidos por sua fé; 2.983 foram mortos

Por Luciene Araújo e Portas Abertas

A perseguição aos cristãos teve início quando o orgulho de Satanás levou-o a pensar que poderia ter o mesmo poder que Deus. Desde então, a batalha entre o bem e o mal acompanha a história da humanidade, de maneira incessante. A injustiça acumula-se, a intolerância contra cristão tem crescido, e muitos são os registros de barbáries por todos os cantos da terra.

Hoje, há mais de 260 milhões de cristãos perseguidos ao redor do mundo. Uma  perseguição sistemática, que ocorre independentemente de língua, etnia ou localização. É o que revela a pesquisa anual da missão Portas Abertas, organização que dá apoio e serve aos cristãos perseguidos em mais de 70 países.

O estudo, realizado entre os dias 1º de novembro de 2018 e 31 de outubro de 2019, resultou na Lista Mundial da Perseguição (LMP), que classifica os 50 países mais violentos e hostis aos cristãos, traçando o perfil de cada uma das nações observadas e assistidas pela Missão.

E no rol atualizado, divulgado em 15 de janeiro, Coreia do Norte, Afeganistão e Somália ficaram com os três primeiros lugares, respectivamente. O Estado coreano garante o lugar mais alto do pódio da perseguição desde 2002. Ainda assim, há por lá cerca de 300 mil cristãos secretos no país, sendo 30% presos em campos de trabalho forçado.

“Jesus está vivo, e as boas-novas de Sua morte, ressurreição, perdão de pecados e esperança que temos nEle são passadas de um coração a outro, mesmo na Coreia do Norte”, destaca John Choi, norte-coreano refugiado.

Um compatriota que não pode ser identificado completa: “Acreditamos que nossa vida e planos cotidianos estão nas mãos do nosso provedor, de modo que os cristãos norte-coreanos vencem quaisquer dificuldades e sofrimento com perseverança, sonhos e nova esperança”.

Novos países

A triste novidade é a entrada de três novos países na lista: Burkina Faso (28º), Camarões (48º) e Níger (50º). A violência com que os fiéis são tratados, leis internas, pressões física e psicológica e fechamento e depredação de igrejas, lojas e residências são fatores determinantes para a inclusão desses locais no ranking.

Em 2019, Burkina Faso, localizado no oeste da África, estava em 61º lugar no levantamento. Este ano, no entanto, saltou para a 28ª posição. Uma ascensão brutal gerada pelo aumento da violência contra quem professa sua fé em Cristo. Sabe-se que pelo menos 50 pessoas foram assassinadas, e isso criou uma atmosfera de medo, deixando cristãos muito assustados para participar de cultos ou mandarem os filhos à escola.

“No nordeste do país, temos enfrentado ataques contra os cristãos e nossas igrejas”, relata o pastor Samuel Sawadogo. Uma batalha que precisa ser enxergada por todos, como mostra o desabafo do líder religioso Laurent Birfuoré Dabiré, quase um pedido de socorro: “Se o mundo continuar a não fazer nada, o resultado será a eliminação da presença cristã em Burkina Faso”.

Dezenas de líderes religiosos foram mortos; pastores protestantes e suas famílias morreram ou foram sequestrados por militantes islâmicos. No norte, radicais mataram sumariamente fiéis de uma aldeia que usavam cruzes em pingentes, em anéis ou em suas casas. Igrejas, escolas e ONGs cristãs foram atacadas ou fecharam por medo. Isso tudo em uma sociedade que era muito tolerante no passado, mas tem se tornado intransigente em relação às religiões diferentes, um fenômeno também fortalecido pelos conflitos étnicos com dimensões religiosas.

Camarões: vilas cristãs são invadidas e casas incendiadas
Camarões (48º)

O Boko Haram intensificou seus ataques, infiltrações e recrutamento de militantes de grupos islâmicos radicais no país. A crise anglófona – de comunidades que falam o inglês contra etnias que falam o francês – também pesa na vulnerabilidade dos cristãos. Por todo o país, eles enfrentam intimidação e ataques caso se declarem contra as atrocidades cometidas tanto pelo governo, que se recusou a permitir que alguns cristãos atuem no país, quanto por grupos separatistas.

“As pessoas estão vivendo isso, mas não é fácil para elas. Os militantes saquearam muitas propriedades. Eles até voltaram cedo esta manhã e dispararam tiros. E antes de recuar, ameaçaram na língua local que vão retornar. Com tal situação, muitos corações estão fracos. Por favor, orem por nós! Precisamos de suas orações, porque isso nos aliviará”, desabafou um líder à missão Portas Abertas.

Outras religiões também perseguem cristãos porque veem o aumento no número de evangélicos como uma ameaça. Além disso, Camarões é um dos países mais corruptos do mundo, o que torna as leis e regras enfraquecidas e injustas. “Eu expliquei que escolhi Jesus porque só Ele dá salvação. Ofereceram-me dinheiro, um trabalho, uma casa e até mesmo uma esposa para voltar ao islamismo, mas eu disse que isso era impossível”, relata Abdul sobre a pressão que sofre para sair da presença de Cristo.

No extremo norte, a radicalização islâmica ameaça a vida de cristãos deslocados, e as atividades da igreja são interrompidas. Mulheres convertidas do islã são coagidas a se casar com muçulmanos e também enfrentam o perigo de sequestro pelo Boko Haram.

Níger (50º)

Em meio à África Ocidental, na fronteira entre o Saara e a África Subsaariana, Níger volta à Lista Mundial da Perseguição, após anos fazendo parte só dos países observados pela Portas Abertas.

Um dos principais motivos são a pressão e a violência orquestrada pelos muçulmanos radicais na região do Sahel.

No passado, foi relativamente poupado por esses grupos, e a Igreja não foi o alvo principal. Entretanto, no período da pesquisa, esteve sob uma série de ataques de militantes. Igrejas foram queimadas. E essa situação volátil, hostil e imprevisível aumenta o risco e a vulnerabilidade das pessoas. “Eu pensei que a perseguição era algo que acontecia em outros lugares, como a Nigéria, o Irã ou o Egito. Mas agora percebo que está no meu quarto, até mesmo debaixo da minha cama”, conta um nigerino.

As igrejas têm dificuldade com o aumento da militância islâmica no Níger e, nos últimos anos, houve ataques de grupos armados como o Boko Haram, próximo à fronteira com a Nigéria. Pastores e líderes de igrejas de vilas daquela região são forçados a fugir para cidades maiores temendo por sua segurança. Em alguns casos, a pressão a convertidos ex-muçulmanos é particularmente clara, especialmente na vida privada, na família e na comunidade.

E ainda assim, os crentes em Cristo se mantêm na fé. “Queimam nossas igrejas e propriedades por causa do Senhor. Isso aumentará nossa fé e nos encorajará a trabalhar fielmente”, garante um pastor do Níger.

Os mais violentos

O principal fator da perseguição na Coreia do Norte é o Estado. Por três gerações, tudo no país se concentrou em idolatrar a família Kim. Os cristãos são vistos como hostis a serem erradicados e se, forem descobertos, além de levados para campos de trabalho forçado como criminosos políticos ou mesmo mortos no local, suas famílias compartilham desse destino. Não têm o menor espaço na sociedade. Encontrar irmãos na fé para cultuar a Deus é quase impossível, deve ser feito com o máximo sigilo. As igrejas mostradas aos visitantes em Pyongyang servem apenas para fins de propaganda.

Estado islâmico pela Constituição, o que explica funcionários do governo, líderes de grupos étnicos, autoridades religiosas e cidadãos hostis aos adeptos de qualquer outra religião. Converter-se à fé fora do islã equivale à traição, deslealdade a família, tribo e país. A pessoa é considerada louca. Nenhum irmão afegão pode viver a fé em Jesus abertamente. Quando descoberto, é exposto, capturado e morto.

3º Somália

Estimativas sugerem que 99% dos somalis são muçulmanos, e qualquer religião minoritária é altamente perseguida. A pequena comunidade cristã vive sob ameaça de ataques. Em áreas rurais, grupos militantes islâmicos, como o Al-Shabaab, são os que realmente governam. A sharia (conjunto de leis islâmicas) e o islã estão consagrados na Constituição do país, e a perseguição aos cristãos quase sempre envolve violência, podendo chegar à morte. Eles também enfrentam séria perseguição de familiares e da comunidade em geral.


Níger: igreja resiliente se reúne ao ar livre após ataques a templos
Violência crescente

Um dos dados mais alarmantes pesquisados pela Portas Abertas é o número de cristãos mortos, presos, violentados e pressionados por motivos religiosos. Foram contados mais de 260 milhões de pessoas que enfrentam algum tipo de hostilidade por professarem sua fé em Jesus. E 2.983 foram mortas.

No ano passado, esse número passou dos 4.300. Mas a razão para a queda é a diminuição do quantitativo oficial de cristãos mortos na Nigéria. Isso se deve ao fato de pastores de cabra fulani, muçulmanos radicais considerados o quarto grupo mais mortal do mundo, terem mudado parcialmente de tática. Em vez de se concentrarem em invadir propriedades e comunidades cristãs, eles agora colocam mais ênfase em sequestros e assassinatos em massa. Apesar disso, o número de cristãos mortos em outros países aumentou, o que significa que a violência no planeta tem subido a cada ano contra quem escolhe Jesus como caminho.

O total de igrejas atacadas de diferentes formas elevou-se consideravelmente. Passou de 1.847 em 2019 para 9.488 este ano. Um salto especialmente relacionado à ação do regime chinês contra a Igreja. Pelo menos 5.575 igrejas foram violadas, direta ou indiretamente, no período do relatório de 2020. Outros países também viram um crescimento no número de ataques às congregações, e isso dentro de uma estimativa conservadora.

Grande parte dos cristãos mortos e igrejas atacadas está em países da África Subsaariana. O mesmo se aplica a sequestros, abuso físico ou mental, casas ou outras propriedades, lojas e negócios alvos de ofensivas.

Isso ocorre porque a violência na África Subsaariana está frequentemente ligada a grupos extremistas islâmicos que visam a criar instabilidade e ao enfraquecimento dos governos locais.

Para os cristãos que são violentados ou assediados sexualmente, os dados apresentados devem ser considerados apenas a ponta do iceberg. Cabe ressaltar que lideram essa lista quatro países da Península Arábica (Arábia Saudita, Catar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos). Isso é especialmente devido à situação das empregadas domésticas africanas e asiáticas em famílias árabes que são vulneráveis a assédio ou abuso sexual. Há poucos dados disponíveis, porque esse tipo de violência ocorre normalmente
a portas fechadas.

América Latina

Ao analisar cada tópico da “Violência” destacado na pesquisa, deparamo-nos com os dados expostos no texto anterior, que são assustadores nas regiões em que a incidência de violência e perseguição aos cristãos é extrema.

Mas, ao observarmos países mais próximos ao Brasil, geográfica e culturalmente, pode-se notar índices altos para Colômbia, ainda que esteja em 41º lugar da Lista Mundial da Perseguição 2020, e México, que ficou com a 52ª posição, não entrando no ranking este ano.

O que levou o México a sair do rol foi o aumento da violência em países principalmente do norte da África, como Camarões, Níger e Burkina Faso, e de outros da Ásia, como Sri Lanka e Paquistão.

A pesquisa ainda aponta os países em que os cristãos foram mortos por razões religiosas. O que se pode notar é o número crescente de assassinatos desse tipo na Colômbia, que assume o 10º lugar nesse ranking, com 16 cristãos mortos. O México está em 22º, com seis cristãos exterminados.

Outro dado alarmante é o número de igrejas e outros prédios cristãos atacados na Colômbia. No total, foram 40 edifícios sendo alvo, o que colocou o país em 12º lugar, à frente ainda da violenta Índia, com 35. Neste ranking, o México ficou em 30º lugar, com oito prédios atacados.

No quesito “Cristãos detidos sem julgamento, presos, sentenciados e presos”, além do México, dois países da América Latina são citados: Cuba e Venezuela. O México está em 14º lugar, com 20 detidos por causa de sua fé. Cuba aparece em 28º, com 10 encarcerados – o mesmo número de presos de países como Marrocos e Arábia Saudita, em que a lei proíbe a prática da fé cristã –, e a Venezuela figura no 47º lugar, com dois cristãos privados de liberdade por professarem sua fé. Esses dados são alarmantes, mas outros não menos preocupantes são apresentados
na pesquisa.

A Colômbia registrou 50 casos de pessoas física e psicologicamente abusadas. Em seguida, vêm México, com 13; Venezuela, com seis; e Cuba, com dois. No caso de violência e abuso sexual, foram registrados 11 casos de cristãos colombianos.

Venezuela e Cuba não estão entre os 50 países mais perseguidos no mundo, mas fazem parte daqueles em observação. E os números podem ainda ser maiores que os revelados, uma vez que tais nações são regidas por regimes totalitários. Muitas vezes, cristãos não procuram as autoridades ou até mesmo não revelam uma ocorrência violenta contra eles ou contra sua comunidade, por medo de retaliações.

Para entender ainda mais sobre o trabalho da Missão Portas Abertas, confira uma entrevista exclusiva com o secretário-geral no brasil, Marco Cruz.


Fonte: Portas Abertas