O índio, esse desconhecido

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Precisamos repensar nossa visão em relação ao índio brasileiro compreendendo que cada tribo tem peculiaridades e necessidades específicas.

“Andam nus, sem cobertura alguma…. são de grande inocência… fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, … Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências… porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar… não lhes falece outra coisa para ser toda cristã… Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior…” (Carta de Pero Vaz de Caminha ao El Rei D. Manuel, 1/maio/1500)

A primeira descrição do índio brasileiro já mostra como este sempre foi mal interpretado e pouco conhecido. São considerados como crianças inocentes, comparados a animais, a Adão ou a uma página em branco onde se poderia “escrever” o que bem se entendesse, até mesmo a fé cristã. A percepção de Caminha segue o pensamento de seu tempo. À medida que os europeus foram expandindo seu domínio além-mar, entraram em contato com povos até então desconhecidos e duas ideologias opostas foram ganhando força: o índio era bom e puro e o civilizado era mau e pecador, ou, o índio era selvagem e mau e o civilizado possuía a missão de levar-lhe a fé e a sua cultura. Essas duas ideologias concorrentes deram origem a alguns estereótipos sobre os povos indígenas que perduram até hoje.

Quando Caminha escreveu a carta, havia cerca de 1,5 milhão de índios no Brasil. Hoje restam cerca de 350 mil. Em 519 anos tribos inteiras foram dizimadas, quer por doenças, quer pela ganância dos “conquistadores”. Cinco séculos se passaram e ainda há quem defenda a inocência dos índios e a sua preservação em uma redoma, como se fosse possível isolá-los do restante do mundo. Estes atacam ferozmente o trabalho dos missionários alegando ser o evangelho prejudicial à cultura indígena. Outros, veem o índio como um ser indefeso, quase uma criança, necessitado da bondade do civilizado, que se mostra através de doações de alimentos, roupas e remédios. Esta visão assistencialista foi perpetuada por algumas missões evangelísticas nos anos 70-90. Poucos são os que procuram em ver o indígena como ele é, de forma igualitária na dignidade e respeitosa nas diferenças. O índio é um ser humano criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27) e como tal deve ser respeitado e valorizado. Mas ele também é carente da glória de Deus (Rm 3.23) e precisa ouvir a mensagem de salvação (Mc 16.15) a fim de que um dia estejamos todos, de todas as nações, tribos, raças e línguas diante do Cordeiro, louvando-o por toda a eternidade (Ap 7.9-10). É hora da Igreja sair de acomodação e se envolver com missões indígenas, atendendo a ordem de Cristo (Mt 28.19).

Precisamos repensar nossa visão em relação ao índio brasileiro compreendendo que cada tribo tem peculiaridades e necessidades específicas. Enquanto algumas tribos alcançaram um bom desenvolvimento sócio-econômico, outras vivem na miséria e no analfabetismo.  Há muito a ser feito. Procure conhecer as organizações religiosas que atuam entre povos indígenas, pesquise, envolva-se, compartilhe, acompanhe as decisões do governo sobre o assunto, as notícias nos jornais, ore e acima de tudo, permita que Deus o use para transformar vidas em nosso país.

Lidice Meyer Pinto Ribeiro é Pós Doutora em Antropologia e História (USP), Doutora em Antropologia Social (USP). Docente e Coordenadora de Educação Continuada da Universidade Presbiteriana Mackenzie – SP. Investigadora integrada da Universidade de Lisboa, Portugal


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