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terça-feira, 18 maio 2021

Impacto do filme ‘O Som do Silêncio’ e o público surdo

O Som do Silêncio” apresenta drama sutil sobre baterista que perde a audição

A retorno do público surdo ao filme O Som do Silêncio, indicado para seis categorias no Oscar 2021 e disponível no Amazon Prime Video, tem recebido elogios ao relatar o tema da surdez. Darius Marder, diretor e roteirista, conta a trajetória de um baterista que perdeu sua audição de forma repentina. O filme busca inserir o público na jornada sensorial em que Ruben (Riz Ahmed) aprende “como ser surdo” ao mesmo tempo que o próprio público. Hoje, um quarto da população mundial tem algum grau de surdez, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, divulgados em março.

Fabiana Bubniak, pesquisadora do cinema surdo e professora de cinema e produção audiovisual, relata que o filme foge de uma narrativa clássica com personagens surdos que é a vitimização deles. Para o público ouvinte que não tem contato com surdos, há a questão da identidade surda.

Gui Fernandes, 23 anos, que é surdo profundo oralizado (se expressa por voz e não por sinais) e usa dois implantes cocleares, destaca muitos acertos do filme ao retratar a surdez, em especial, na construção do personagem principal.

“O filme foi fiel a detalhes que só surdos captariam na hora, como a cena em que um personagem coloca a mão na boca só para dar uma coçadinha. O outro interrompe e pede para repetir, pois esse pequeno ato involuntário de poucos segundos atrapalhou a leitura labial. Além disso, normalmente em filmes feitos para pessoas sem deficiência, o personagem com deficiência quase sempre é visto como um herói, que tem que superar todos os obstáculos.”

O filme recebeu outros elogios por incluir atores surdos para alguns papéis, além de figurantes surdos. O ator protagonista, Riz Ahmed, é ouvinte, e Paul Raci, que interepreta Joe é considerado como Coda (Children of Deaf Adult), que significa “filho de adultos surdos”.

Implante coclear

A experiência do protagonista do filme com o implante coclear também tem sido motivo de grande discussão entre pessoas surdas e médicos da área.

“A indicação do implante coclear só é feita depois que o paciente cumpre um processo de avaliação multidisciplinar que se dá em etapas. Isso compreende a consulta médica e testes auditivos mais elaborados do que mostra o filme. Também solicitamos exames de imagem, além de uma cuidadosa avaliação com fonoaudiólogos e eventualmente psicólogos, diz o otorrinolaringologista Luciano Moreira.

O som “estranho” que Ruben ouve após colocar o implante coclear não é apenas comum, mas esperado. Moreira destaca que o cérebro é adaptativo e os implantes são apenas as portas de entrada do som para a via auditiva. “Sempre dizemos que quem ‘escuta’ é o cérebro, e não os ouvidos. O cérebro de quem não ouve ficou muitas vezes meses, anos ou décadas sem ouvir. Não se pode esperar que ele vai achar agradável um estímulo que desconhece há tanto tempo.”

Gui Fernandes, que realizou suas cirurgias de implante coclear através do SUS, conta que a experiência inicial de Ruben com o aparelho é comum. “Nós não estamos acostumados com sons tão potentes, então não conseguimos identificar imediatamente. Depois de um tempo, começamos a ouvir ‘mais limpo'”, comenta.

#surdosqueouvem

Foi por isso que Paula iniciou o movimento #surdosqueouvem para promover representatividade. “O lobby antirreabilitação auditiva faz estragos enormes na educação e na vida de muitas pessoas. O implante coclear não cura a surdez, eu continuo com surdez profunda”, afirma.

Silêncio como um ganho. Uma das categorias em que o filme foi indicado para o Oscar é Melhor Edição de Som. O filme apresenta a experiência física da perda auditiva através de uma abordagem sonora cuidadosa. O foco no abafamento e distorção e as sensações que Ruben experimenta ao usar seus implantes, assim como o próprio silêncio, são momentos educacionais importantes.

Paula Pfeifer explica que o silêncio pode ser maravilhoso em muitos momentos. “Amo ouvir, mas adoro ter o privilégio de poder voltar ao silêncio com o simples toque de um botão.”

  • Com informações de Estadão
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